Sou o quinto filho de uma família de seis, nascido nos tempos difíceis do auge da Segunda Guerra Mundial. Catorze dias depois de eu entrar neste mundo, foi posto fora dele o Adolfo Hitler.
Nos dias de hoje em que, constantemente, ouvimos falar de crise, não conseguimos imaginar como a vida era difícil no ano de mil novecentos e quarenta e cinco. Na minha aldeia ainda não havia luz, água canalizada ou gás. As habitações não tinham casa de banho. Tudo o que alimentava a vida era genuinamente natural e biológico. Havia a febre social do volfrâmio e as famílias desfaziam-se em esforços para descobrir um filão algures no campo. Se descobriam um, guardavam sobre ele o maior segredo. Iam explorá-lo com familiares e amigos de confiança pela calada da noite.
Nasci de uma Mãe desvelada, generosa. Contudo, por qualquer razão insondável, não conseguia gerar o leite suficiente para me amamentar. Nesse tempo, ainda não havia leite em pó ou farinhas industrialmente preparadas para alimentar bebés. Havia o leite das duas cabritas que faziam parte do património da família. Mas era por natureza sazonal e durava escassos meses.
Nesse ambiente de grande carência, valeu-me a generosidade de uma mulher da aldeia, oito anos mais nova que a minha Mãe, que tivera uma criança na mesma altura em que eu nasci.
Foi ela, a Ti Felícia, a minha ama-de-leite.
Sempre senti por ela uma ternura muito especial. Quando a encontrava, gostava de ouvir as suas calorosas narrativas dos tempos difíceis em que me alimentou. E, em todas as conversas, havia um ponto comum. Aquele em que ela, socorrendo-se de um profundo suspiro, dizia:
“Eras tu de um lado e o meu Chico do outro … Os dois a mamar ao mesmo tempo…”
Esta mulher franzina, humilde, trabalhadora, com o saber de uma vida intensamente vivida, lutadora, duas vezes viúva, auto-suficiente e esclarecida até ao limite final dos seus dias, foi a sepultar no passado Carnaval. Completara noventa e seis anos no começo de Janeiro.
À memória de Maria Felícia dos Santos (1916-2012) aqui deixo estas linhas com os protestos da minha admiração e gratidão. Deixo também um abraço de muita estima aos seus filhos Chico e Alzira, bem como aos seus Netos.
quinta-feira, 1 de março de 2012
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Ai a seca!... Que nos valha Sant'Ana!!!
Na minha aldeia, a Capinha, existiu, em tempos remotos, uma capela dedicada a Santa Ana, a avó materna de Jesus Cristo. Ficava a cerca de um quilómetro da igreja matriz, num local ainda hoje conhecido por Santana.
Segundo a informação que recebi dos meus pais e avós, essa capela era muito importante para a população local, na medida em que a Santa a que era dedicada desempenhava o papel moderador em todas as necessidades metereológicas dos habitantes, ao ponto de poderem, se a fé fosse suficientemente forte, ter sol na eira e chuva no nabal.
Sempre que havia uma seca prolongada, o povo ia em procissão até à capela e conduzia a imagem até à igreja matriz. Após os dias suficientes para a novena, a chuva aparecia para colmatar as necessidades. E quando havia invernias com períodos longos de chuva, ao ponto de tudo ficar inundado e não deixar fazer nada nos campos, repetia-se a devoção com o pedido adequado, que tinha o esperado sucesso.
A capela foi destruída, talvez na segunda metade do século XIX, e dela não ficou pedra sobre pedra. Não consegui qualquer notícia sobre as razões do seu abandono e destruição.
Há quem aponte determinadas pedras, nomeadamente colunatas, que foram incluídas na construção de um lagar de azeite situado bastante perto do local onde supostamente a capela se encontrava, como tendo a esta pertencido. O lagar está, por sua vez, em ruínas, mas é possível identificar algumas pedras que se distinguem. Observando-as bem, até parece que pertenceram à capela.
No que respeita à antiga imagem da Santa venerada na capela, essa foi preservada religiosamente na Igreja Matriz. É aliás uma imagem muito bonita, onde Santa Ana está com a sua menina ao colo, de livro aberto, como que a querer explicar-lhe o seu destino.
Para debelarmos a seca que nos começa a atormentar, dava jeito podermos ir à Capela de Santana e levar a Santa titular para a Igreja Matriz. Segundo a fé dos antigos, a chuva não tardaria a aparecer.
Bem, pelo sim e pelo não, na passada sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012, a missa paroquial da Igreja da Capinha foi em honra de Santa Ana. Foi encomendada pelo Povo para… pedir chuva.
Segundo a informação que recebi dos meus pais e avós, essa capela era muito importante para a população local, na medida em que a Santa a que era dedicada desempenhava o papel moderador em todas as necessidades metereológicas dos habitantes, ao ponto de poderem, se a fé fosse suficientemente forte, ter sol na eira e chuva no nabal.
Sempre que havia uma seca prolongada, o povo ia em procissão até à capela e conduzia a imagem até à igreja matriz. Após os dias suficientes para a novena, a chuva aparecia para colmatar as necessidades. E quando havia invernias com períodos longos de chuva, ao ponto de tudo ficar inundado e não deixar fazer nada nos campos, repetia-se a devoção com o pedido adequado, que tinha o esperado sucesso.
A capela foi destruída, talvez na segunda metade do século XIX, e dela não ficou pedra sobre pedra. Não consegui qualquer notícia sobre as razões do seu abandono e destruição.
Há quem aponte determinadas pedras, nomeadamente colunatas, que foram incluídas na construção de um lagar de azeite situado bastante perto do local onde supostamente a capela se encontrava, como tendo a esta pertencido. O lagar está, por sua vez, em ruínas, mas é possível identificar algumas pedras que se distinguem. Observando-as bem, até parece que pertenceram à capela.
No que respeita à antiga imagem da Santa venerada na capela, essa foi preservada religiosamente na Igreja Matriz. É aliás uma imagem muito bonita, onde Santa Ana está com a sua menina ao colo, de livro aberto, como que a querer explicar-lhe o seu destino.
Para debelarmos a seca que nos começa a atormentar, dava jeito podermos ir à Capela de Santana e levar a Santa titular para a Igreja Matriz. Segundo a fé dos antigos, a chuva não tardaria a aparecer.
Bem, pelo sim e pelo não, na passada sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012, a missa paroquial da Igreja da Capinha foi em honra de Santa Ana. Foi encomendada pelo Povo para… pedir chuva.
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