Há algumas amigas que, sempre que me encontram, me dizem que gostam muito de ler o Dicforte. Que escrevo bem. Mas lamentam que eu escreva tão pouco.
Quanto ao escrever bem, é bondade delas. Quanto ao escrever pouco, têm toda a razão. O Dicforte é, na verdade, um blogue excessivamente silencioso. Mas isso não chega a ser defeito. É feitio. Alguns dos meus amigos já me ouviram dizer por várias vezes que eu gosto de ouvir o silêncio. Não é verdade Zé Freire?
E acham piada.
O Dicforte não é um blogue de jornalismo, de intervenção, um fazedor de opinião ou de outro tipo que exija a assistência diária. Está muito longe da assiduidade e da importância de um “Cocó na fralda” ou de um “31 da Armada”.
Tem a ver com a minha pessoa. E eu considero-me um afinador de silêncios. Os meus posts, ver, por exemplo os dois últimos (A memória da minha ama-de-leite e o Que nos valha Sant'Ana) não são mais do que silêncios afinados.
Esta é a justificação.
Nota: A expressão “afinador de silêncios” não é minha. É do Mia Couto (Ver em Jesusalém, pág. 107)
"O silêncio é uma travessia. Há que ter bagagem para ousar essa viagem... Como se pode burilar um silêncio com tanto zumbido na cabeça?" Ibidem, pág. 192.
sábado, 3 de março de 2012
quinta-feira, 1 de março de 2012
À memória da minha ama-de-leite
Sou o quinto filho de uma família de seis, nascido nos tempos difíceis do auge da Segunda Guerra Mundial. Catorze dias depois de eu entrar neste mundo, foi posto fora dele o Adolfo Hitler.
Nos dias de hoje em que, constantemente, ouvimos falar de crise, não conseguimos imaginar como a vida era difícil no ano de mil novecentos e quarenta e cinco. Na minha aldeia ainda não havia luz, água canalizada ou gás. As habitações não tinham casa de banho. Tudo o que alimentava a vida era genuinamente natural e biológico. Havia a febre social do volfrâmio e as famílias desfaziam-se em esforços para descobrir um filão algures no campo. Se descobriam um, guardavam sobre ele o maior segredo. Iam explorá-lo com familiares e amigos de confiança pela calada da noite.
Nasci de uma Mãe desvelada, generosa. Contudo, por qualquer razão insondável, não conseguia gerar o leite suficiente para me amamentar. Nesse tempo, ainda não havia leite em pó ou farinhas industrialmente preparadas para alimentar bebés. Havia o leite das duas cabritas que faziam parte do património da família. Mas era por natureza sazonal e durava escassos meses.
Nesse ambiente de grande carência, valeu-me a generosidade de uma mulher da aldeia, oito anos mais nova que a minha Mãe, que tivera uma criança na mesma altura em que eu nasci.
Foi ela, a Ti Felícia, a minha ama-de-leite.
Sempre senti por ela uma ternura muito especial. Quando a encontrava, gostava de ouvir as suas calorosas narrativas dos tempos difíceis em que me alimentou. E, em todas as conversas, havia um ponto comum. Aquele em que ela, socorrendo-se de um profundo suspiro, dizia:
“Eras tu de um lado e o meu Chico do outro … Os dois a mamar ao mesmo tempo…”
Esta mulher franzina, humilde, trabalhadora, com o saber de uma vida intensamente vivida, lutadora, duas vezes viúva, auto-suficiente e esclarecida até ao limite final dos seus dias, foi a sepultar no passado Carnaval. Completara noventa e seis anos no começo de Janeiro.
À memória de Maria Felícia dos Santos (1916-2012) aqui deixo estas linhas com os protestos da minha admiração e gratidão. Deixo também um abraço de muita estima aos seus filhos Chico e Alzira, bem como aos seus Netos.
Nos dias de hoje em que, constantemente, ouvimos falar de crise, não conseguimos imaginar como a vida era difícil no ano de mil novecentos e quarenta e cinco. Na minha aldeia ainda não havia luz, água canalizada ou gás. As habitações não tinham casa de banho. Tudo o que alimentava a vida era genuinamente natural e biológico. Havia a febre social do volfrâmio e as famílias desfaziam-se em esforços para descobrir um filão algures no campo. Se descobriam um, guardavam sobre ele o maior segredo. Iam explorá-lo com familiares e amigos de confiança pela calada da noite.
Nasci de uma Mãe desvelada, generosa. Contudo, por qualquer razão insondável, não conseguia gerar o leite suficiente para me amamentar. Nesse tempo, ainda não havia leite em pó ou farinhas industrialmente preparadas para alimentar bebés. Havia o leite das duas cabritas que faziam parte do património da família. Mas era por natureza sazonal e durava escassos meses.
Nesse ambiente de grande carência, valeu-me a generosidade de uma mulher da aldeia, oito anos mais nova que a minha Mãe, que tivera uma criança na mesma altura em que eu nasci.
Foi ela, a Ti Felícia, a minha ama-de-leite.
Sempre senti por ela uma ternura muito especial. Quando a encontrava, gostava de ouvir as suas calorosas narrativas dos tempos difíceis em que me alimentou. E, em todas as conversas, havia um ponto comum. Aquele em que ela, socorrendo-se de um profundo suspiro, dizia:
“Eras tu de um lado e o meu Chico do outro … Os dois a mamar ao mesmo tempo…”
Esta mulher franzina, humilde, trabalhadora, com o saber de uma vida intensamente vivida, lutadora, duas vezes viúva, auto-suficiente e esclarecida até ao limite final dos seus dias, foi a sepultar no passado Carnaval. Completara noventa e seis anos no começo de Janeiro.
À memória de Maria Felícia dos Santos (1916-2012) aqui deixo estas linhas com os protestos da minha admiração e gratidão. Deixo também um abraço de muita estima aos seus filhos Chico e Alzira, bem como aos seus Netos.
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