segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Passagem de ano em Cabo Verde – 4. Um dia em S. Filipe da ilha do Fogo

Era o dia 29 de Dezembro de 2012 e tínhamos acabado de chegar ao Porto da ilha do Fogo. Daí até ao hotel foi uma corridinha de Táxi, de cerca de vinte minutos. O hotel Xaguate foi, para nós, uma surpresa pela positiva.

Hotel Xaguate
Apesar de serem quase dez da noite ainda nos prepararam jantar. Tem uma boa piscina com um ambiente tropical à volta. As vistas para o lado do mar são rasgadas e repousantes. E os quartos são bons e estão bem equipados. O serviço, no geral tem qualidade. Só merece referência negativa o acolhimento: o recepcionista, por norma não se levanta da cadeira e só presta algum esclarecimento se lhe fizermos alguma pergunta concreta. Não há ninguém a ajudar a levar as malas. Para um hotel de quatro estrelas isto é uma falha. Mas, apesar disso, vale a pena ficar lá e resistir à informação negativa que nos foi prestada na agência de viagens de que fica fora do centro da cidade.

Vista a partir da varanda do Hotel Xaguate

Passámos o dia 30 de Dezembro a descobrir a cidade de S. Filipe totalmente a pé. Saindo do hotel, afinal fica mesmo à entrada da cidade, deparámo-nos com uma construção urbana mais recente e ficámos surpreendidos pela grande quantidade de prédios incompletos. Diria mesmo que S. Filipe é uma cidade de prédios inacabados. A explicação que nos deram é que as pessoas não acabam os prédios para não passarem a pagar contribuição predial.

Ao percorrermos a parte antiga sentimo-nos no ambiente de uma vila portuguesa, talvez do Alto Alentejo. O tipo de casas, os nomes das ruas, a maneira de ser das pessoas, tudo isso nos liberta da sensação de que estamos no estrangeiro e numa remota ilha do Atlântico.



A praça principal em frente à Câmara Municipal tem o aspecto de uma praça bem portuguesa onde não falta o tradicional coreto. Aí fizemos uma paragem mais prolongada não só porque nos sentimos lá bem mas também porque tem rede sem fios livre, pelo que aproveitámos para actualizar o nosso correio electrónico com os nossos iphones. Durante o nosso passeio verificámos que os monumentos da era colonial estão de pé, se bem que em decadência.

A parte mais antiga da cidade parece parada no tempo de meados do século passado. Este aspecto parece-me muito interessante.

E toda esta parte da cidade tem condições para ser transformado no centro documental da história de Cabo Verde, aspecto que aumentará muito o interesse turístico.

Dali vimos a vasta praia de areia preta, lá muito em baixo. O céu estava limpo e o sol quente. As ondas do mar batiam com estrondo. Isto fez-nos parecer natural que, numa tão grande extensão de areia, tivéssemos vislumbrado apenas três pessoas a apanhar sol.

Durante o nosso passeio, quando nos dirigíamos para a parte histórica, vimos aparecer uma pequena multidão ao fundo da rua. Parecia uma procissão. Mas logo vimos que se tratava de um funeral porque havia gritos lancinantes de um coro de carpideiras que se foi aproximando cada vez mais forte. À frente do cortejo fúnebre vinha uma camioneta de caixa aberta com o defunto no meio da caixa e um significativo número de mulheres sentadas em bancos corridos laterais, todas de preto que libertavam gritos lancinantes, numa espécie de ladainha em jeito de lengalenga como nunca tinha ouvido. Senti arrepios que me gelaram o corpo. Esta sensação só desapareceu quando perdi o cortejo de vista por este ter atingido o cimo da calçada e mudado de direcção.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Passagem de ano em Cabo Verde - 3. O Fast Ferry Kriola

Estávamos na tarde do dia 29 de Dezembro e tínhamos chegado ao porto da cidade da Praia para apanharmos o barco para a ilha do Fogo. Mal chegámos ao porto fomos surpreendidos por um grande número de homens de todas as idades que, vestindo coletes reflectores, corriam para as malas dos passageiros que chegavam, gritando bagageiro, bagageiro. Nós já tínhamos sido alertados e, na verdade, as nossas malas eram perfeitamente transportáveis por nós próprios. Há uma sala de espera para aguardar o embarque. A certa altura, abriu-se a porta do lado do porto e foi dada a indicação para avançarmos. De novo os bagageiros se lançaram sobre as malas e houve um que conseguiu arrancar-me a minha, e lá foi em correria até a depositar no contentor do barco. Depois veio reclamar quatrocentos escudos dizendo que tinha transportado a mala e que também a estava a guardar. Face à minha recusa passou a pedir duzentos escudos. Acabei por lhe dar duas moedas de um euro e lá se calou.

O Kriola é um catamaran com muito bom aspecto. Tem um vasto porão para onde entraram camionetas carregadas dos mais variados artigos. Contentores volumosos. Animais diversos. E, claro, os contentores com as bagagens dos passageiros, todos numerados. Era importante sabermos em qual deles seguiam as nossas bagagens para ser mais fácil recolhê-las à chegada.

A largada ocorreu já com bastante atraso e com o mar ali, sereno, imaginamos uma viagem repousante. Foram mais de quatro horas de relaxamento, se bem que com alguns enjoos à nossa volta. No porto do Fogo não há sala de espera ou de chegada. O desembarque é feito directamente para o cais que, por cerca de uma hora, se transforma numa espécie de arraial com pessoas a reencontrarem-se, ou simplesmente a darem-se a conhecer. E há os inevitáveis bagageiros e taxistas a oferecer os seus serviços. Cumprimentámos um grupo de franceses que depois fomos reencontrando aqui e ali nos nossos passeios. A nossa conversa foi acompanhada, a partir de certa altura, pela luz brilhante da lua redonda que nos surpreendeu aparecendo lá no alto por detrás da sombra negra da alta montanha do vulcão do Fogo.