segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Passagem de ano em Cabo Verde – 11. A estranha história do “Matilde”

Antes de retomarmos o fio da nossa narrativa, vamos já esclarecer que “Matilde” é o nome de um barco bravense que desapareceu misteriosamente no oceano Atlântico. Como ainda estamos sentados no jardim do Hotel Sol Na Baía a olhar o mar, podemos dizer que foi um barco que saiu dali, daquela baía mesmo à nossa frente, e imaginá-lo nos momentos da partida com os seus mastros içados e as velas desfraldadas e os passageiros a acenarem para os familiares que ficaram em terra. Isto aconteceu numa altura em que esta baía era o porto principal da Brava com uma assinalável dinâmica comercial.

A Baía de Fajã d'Água na época do Matilde.
Foto publicada num interessante trabalho intitulado "Cape Verde Packet Trade" de Raymond Almeida, da Universidade de Harvard

Mas já voltamos à história do Matilde.

O Sr. José Andrade já veio perguntar se queríamos mais alguma coisa, sugerindo-nos, como sobremesa, gelados feitos por ele, com sabores dos frutos do seu quintal.


Nós experimentámos e gostámos. Depois veio a conta com o pedido de desculpa de que afinal ele se tinha enganado quando nos informou do preço da refeição. Tinha-nos dito que o preço era mil escudos por pessoa, mas que, como éramos visitantes ocasionais e não clientes do Hotel, os preços eram diferentes.


Mas mantinha o preço que nos transmitira inicialmente.

Não acredito que, sendo ele o dono e gerente, se tenha enganado. Parece mais evidente que o Sr. José gostou de nós e quis ser simpático tratando-nos preferencialmente. Ou não. Se lhe tivéssemos perguntado o que é que a refeição incluía, provavelmente ele tinha corrigido logo o seu engano. Fomos espreitar os preços que o Hotel Sol da Baía anuncia na sua página web e verificámos que, de facto, para os visitantes ocasionais o preço por refeição dobra.

Feitas as contas, o Sr. José Andrade convidou-nos a visitar o seu hotel e a ver um quarto com vista para o mar, mais caro, e outro com vista para o jardim. Mas surpreendeu-nos quando nos mostrou os seus quadros expostos na sala ampla onde recebe os clientes, pinturas feitas por ele. Foi uma observação rápida mas deu para ver que ele é um pintor de talento. Os temas são variados e pinta muito bem as cores do ambiente natural em que vive.

Já estamos a regressar para a Hiace do Sr. Tony Vale. Aí ficámos a saber que na vila há uma fábrica de aguardente de cana de açúcar porque ele tinha lá ido visitar os donos.

Antes de entrarmos na carrinha, vamos finalmente contar a história do Matilde.

A necessidade de a contar surgiu porque, no cruzeiro que está junto à capela, está uma placa afixada que menciona o Matilde.


Nós só vimos a placa porque um rapazinho nos chamou a atenção para ela e quis que lhe tirássemos uma fotografia sentado em cima do cruzeiro. Queria também aparecer na fotografia que tirámos à placa, mas só lá ficou a mãozita dele porque lhe desviámos a cabeça com carinho.

Fiquei com curiosidade e perguntei ao Google que história era essa do Matilde e ele foi impecável. Respondeu-me com datas e nomes. Só não me disse o que aconteceu a esse barco porque ninguém, incluindo ele, sabe.

Era um navio de que era proprietário e comandante um senhor chamado Henrique Duarte Rosa. Saiu daquela baía no dia 21 de Agosto de 1943 com cinquenta e um passageiros a bordo com destino à América, mas não chegou a lado nenhum porque nunca mais houve sinais dele. Há quem diga que se sumiu no triângulo das Bermudas. Mas o Riquinho disse na altura que, na sua opinião, o barco não deve ter ido muito longe. Riquinho é o filho do comandante do Matilde e que ele queria levar à força para os Estados Unidos e por isso o embarcou. Mas o rapazinho, então com dez anos, sensivelmente a idade do rapazinho que na fotografia acima está sentado no cruzeiro, disse que se assustou muito quando viu o navio a meter água e a tripulação a drená-la afanosamente e, por isso, aproveitou os momentos em que o pai veio a terra tratar das últimas formalidades para fugir. E mais disse que se escondeu na mata alimentando-se dos frutos que conseguia apanhar. O primeiro foi uma manga que comeu e chupou até o caroço ficar bem branco. O pai bem o procurou mas acabou por desistir e partir. Quando o Riquinho viu o Matilde desaparecer no horizonte logo pensou que não iria longe porque já estava a meter água no porto. Ao aparecer em casa, a mãe e a irmã rejeitaram-no dizendo que não tinham nada para lhe dar e que ia morrer à fome e com a roupa que tinha no corpo podre e cheia de piolhos. Mas o Riquinho, que actualmente é o Sr. Henrique Monteiro Rosa, que agora terá 82 anos, respira fundo sempre que fala no assunto e não esconde a sua crença na teoria do destino, pois foi o destino que, em 1943, o atormentou o suficiente para ganhar forças e engenho para, com apenas dez anos, fugir da morte certa. O Google também me disse que nas paredes da capela da Fajã d’Água estão dependuradas fotografais de pessoas que pereceram no Matilde. Foi pena que a capela estivesse fechada quando lá estivemos pois nós gostávamos de as ter visto.

Ficámos intrigados com esta história e acabámos por construir um enredo diferente para a tragédia do Matilde que, por ser imaginado, é tão verdadeiro como qualquer outro.

Em Agosto de 1943 estava o mundo no auge da guerra. Multidões de pessoas, sobretudo judeus, fugiam desesperadas de um lado para o outro numa esperança de poderem chegar aos Estados Unidos ou a outro país. Chegavam aos milhares a Lisboa e aqui procuravam saídas. Ir até às ilhas de Cabo Verde e procurar seguir em barcos que por ali passavam era uma possibilidade. E provavelmente alguns dos passageiros do Matilde estavam nesse percurso de fuga e eram judeus. Os submarinos nazis patrulhavam o Atlântico e era frequente aparecerem em frente dos navios portugueses de e para as colónias e revistá-los. Tenho um amigo que seguia num desses navios e que me contou a cena do submarino a sair da água e a bufar. A troca de sinais de aproximação. A chegada de uma patrulha armada alemã. A revista e saída que podia ser retardada com a oferta de bebidas de cortesia.

Quem sabe se o Matilde não foi revistado por nazis. No auge da guerra a perseguição aos judeus era muito severa. Talvez os nazis tenham entrado pelo navio a dentro aos berros mandando perfilar os homens na ponte. E depois ordenaram-lhes que baixassem as calças. E a seguir foram ver a pilinha de cada um e viram que havia muitos judeus. Era assim que os nazis faziam. Quem não acredita que vá ver o que eles fizeram ao Anthony Quinn na 25.ª Hora, com sorte para ele porque não tinha a cicatriz da circuncisão. E saíram aos berros. O Sr. Henrique, o comandante, ficou atónito e a dizer porque é que eles vão sair assim tão zangados se eu até os convidei para uma bebida de cortesia. E não deu para pensar nisto muito tempo porque os nazis foram rápidos e largaram torpedos de grande potência que reduzem a cinzas um grande navio de guerra e quanto mais um modesto veleiro bravense com cinquenta e uma pessoas a bordo. E no fim do trabalho feito os nazis ainda se deram ao trabalho de limpar todos os vestígios para não deixarem rasto de nada e não vir o Salazar clamar que tinham violado a neutralidade de Portugal.

Note-se que os dizeres da placa, se bem que não intencionalmente, são a favor desta teoria:

PARA NÃO ESQUECER OS SACRIFÍCIOS DOS SEUS IMIGRANTES OS BRAVENSES PUSERAM NO 50.º ANIVERSÁRIO DO "MATILDE". 1943-1993".

Mencionam-se os Imigrantes e não os Emigrantes, ou seja, as inúmeras pessoas que chegavam à ilha para dali continuarem a sua viagem de fuga aos horrores da guerra.

Para concluir: tudo isto é um romance imaginado mas que pode muito bem ter sido verdade.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Passagem de ano em Cabo Verde – 10. À descoberta da ilha Brava

Era o dia 1 de Janeiro de 2013, terça-feira. No apontamento anterior descrevemos como estávamos a passar a manhã. Tínhamos acabado de passar pela igreja de S. João Baptista de Nova Sintra, onde assistimos a parte da missa. Não ficámos mais tempo porque tínhamos marcado para o meio-dia o nosso encontro na Pensão Viviplace com um nosso potencial condutor e guia. Por isso fomos para lá já em passo apressado.
Uma vez chegados sentámo-nos nas cadeiras vermelhas do pátio da pensão e aguardámos. Não tinha aparecido ninguém. Por volta das doze e trinta chegou o Sr. Vivi que regressava da missa e que ficou surpreendido por nós ainda ali estarmos. E logo comentou que, afinal, podíamos ter assistido à missa até ao fim. Foi directo para o telefone para mais uma chamada. E voltou.
Eles vêm. É só mais um pouco.
Vinte minutos depois apareceu um rapaz todo vestido de roupa domingueira, com o cabelo ainda molhado a dizer que era ele que nos ia levar ao passeio e que regressava daí a vinte minutos. Ao vê-lo sair reparei que ele fazia esforço para não cambalear e senti insegurança em ir viajar com ele. Silenciosamente comecei a recear que o nosso passeio pela ilha não se ia realizar e que o plano de contingência se limitaria a mais um passeio a pé por Nova Sintra, um pouco mais alargado que os anteriores e era tudo.
Já passava das treze e quinze quando finalmente apareceu um senhor, alto, de camisa branca, com aspecto muito diferente do que ali tinha estado antes. Logo se apresentou. Eu chamo-me Tony, Tony Vale, e sou o dono da Hiace de que estão à espera. Venho eu próprio porque os meus dois empregados estão alcoolizados devido às festas de fim de ano. Nunca iria deixá-los conduzir a minha carrinha nesse estado. E também não quero deixar os senhores, que nos visitam, dependurados. Perguntámos-lhe como é que ele se sentia e ele disse que se sentia bem, que graças à educação que os pais lhe tinham dado na igreja adventista aprendeu a ser moderado em tudo e muito mais com a bebida. E que, para além de ser o dono da carrinha, era motorista de profissão. Motorista da câmara municipal.
E com ele partimos à descoberta da ilha Brava.
O primeiro destino era a baía de Fajã d’Água.
Os minutos iniciais da viagem foram de adaptação à nova realidade. O condutor conduzia muito à vontade e tive de me auto convencer de que o fazia por ser profissional e conhecer bem o veículo e a estrada. Assim, durante o primeiro quarto de hora, nem me lembrei de que tinha uma máquina fotográfica na mão e só me recordo do sobe e desce, das curvas e contra curvas por um turbulento caminho empedrado a que chamam estrada, rasgado pelas encostas da montanha. No meu lado, o lado direito do veículo, as vistas eram para as escarpas que desciam até ao mar e, instintivamente, ia agarrado ao banco.
Só passado um quarto de hora é que me dei conta de que afinal tinha uma máquina fotográfica na mão e que lá no topo da montanha havia casas brancas. A paisagem era bonita, merecendo ser registada num postal de turismo. E surgiu a primeira fotografia.



Íamos descendo na direcção do mar. A estrada tinha, aqui e ali, por vezes de ambos os lados, as montanhas altas e a pique. A certa altura o nosso guia parou a carrinha e convidou-nos a sair para vermos como eram bonitas as vistas. E lá estava em baixo a baía de Fajã d’Água, num dia de sol, com o mar azul, adornada por um grande laço de espuma branca.


Demorámos apenas mais três minutos a chegar à vila, cuja primeira impressão foi de uma rua marginal ladeada pelo lado de terra por duas dezenas de casas, quase todas fechadas.
O nosso guia indicou-nos uma dessas casas dizendo que era um hotel e que poderíamos almoçar lá. Como estava tudo aberto entrámos por ali a dentro até nos aparecer um homem de estatura média, da casa dos cinquenta. Eu sou o dono do hotel e chamo-me José Andrade, o que pretendem. Queremos almoçar. Sim, é possível mas devo advertir desde já que os preços aqui são bastante mais puxados do que lá fora. Quanto é um almoço. Mil escudos por pessoa. Sim está arrematado. Nós vamos dar um pequeno passeio pela vila enquanto o senhor prepara o almoço. Está bem. Até Já.
Descemos à rua marginal e fomos na direcção do ponto em que entrámos. Havia muito poucas pessoas por ali. Apesar disso, sentíamos uma sensação de euforia e prazer pelo ambiente natural, ainda não prejudicado por factores de poluição citadina. Encontrámos, no percurso, um grupo de crianças que brincavam. Por momentos este grupinho crianças tão alegres provocou-nos a impressão de estarmos no mundo irreal da fantasia.


Uma pequena capela faz parte do complexo urbano da vila. Está situada logo à entrada, expressivamente virada para o mar, numa permanente acção de vigia por aqueles que viajam, trabalham ou se recreiam no mar.
Junto à capela, do lado de lá da estrada, está um espaço ajardinado com um cruzeiro no meio. Como o tempo era pouco, a visita foi corrida. Apenas o tempo necessário para tirarmos fotografias.



No regresso, havia uma pequena varanda térrea onde estavam três pessoas com aparência de visitantes que não resisti a ir cumprimentar. Era um casal belga com uma filha e estavam alojados mo Hotel Sol da Baía. Gostamos de estar aqui, disseram. Tudo está ainda tão perto do natural…
Chegados ao hotel, já o Sr. José Andrade estava à nossa espera. A vossa mesa é ali, que querem beber. E sentámo-nos numa mesa de pedra do seu jardim, virados para o mar. Parecia um sonho. Cercados de papaieiras e bananeiras, nos lados e atrás, tendo à nossa frente o mar azul, num dia de sol, com um silêncio ambiental quase total, não fora o bater e uma ou outra onda nas pedras redondas da praia acamadas em areia preta. Uma carne de vitela estufada acompanhada por legumes da horta do Sr. José Andrade e saboreada com vinho tinto Vila Chã, o vinho da ilha do Fogo, que nos pareceu delicioso.
E se há momentos belos que nos parecem demasiado curtos este foi um deles. O intolerante relógio arrumou-o no caixote do passado sem darmos por isso. Tivemos que voltar à Hiace para continuarmos o nosso passeio.
Mas agora, neste apontamento, sentimo-nos na liberdade de poder ficar por mais tempo a gozar o ambiente paradisíaco do Hotel Sol na Baía, a comtemplar as cores e os sons dessa maravilhosa tarde de dia 1 de Janeiro de 2013, até que o sol se ponha.