sábado, 16 de fevereiro de 2013

Passagem de ano em Cabo Verde – 17. Descobrindo a vila do Tarrafal.

Até há bem pouco tempo, Tarrafal era uma palavra que, só por si, me causava arrepios, por normalmente a ouvir em contexto político, como exemplo de casa de horrores onde torturavam até à morte os prisioneiros políticos do Estado Novo. Por isso não me passava pela cabeça ir conhecer tal terra. Mas a oportunidade surgiu porque foi lá que a minha filha foi parar.

E a surpresa foi total.

Afinal vim a verificar que o Campo de Detenção nem sequer fica localizado na vila do Tarrafal, mas sim numa localidade vizinha chamada Chão Bom.

Tarrafal é uma simpática terra de veraneio com ruas largas e arejadas. Não há prédios altos. Não há frenesim de trânsito. As pessoas andam descontraídas pelas ruas como se estivessem permanentemente em férias. Há uma excelente praia acessível a pé de qualquer ponto da vila. A chegada dos pescadores é uma festa de cor e entreajuda, pois toda a gente se junta para trazer os barcos para a areia. Há muitos turistas, maioritariamente de língua francesa. E a gente local é simpática e gosta de conversar e ajudar.

Podemos começar por visitar o mercado no período da manhã. O colorido, a variedade de produtos locais, a capacidade de diálogo convincente das vendedoras, e, noutra secção, as cores berrantes das roupas e panos para venda, bem como artigos de artesanato, na maior parte feitos na China ou no Senegal, dão ao mercado um ambiente e cheiro muito peculiares, que, num lado, nos faz sentir como se estivéssemos no mercado de Campo de Ourique em Lisboa, e, no outro, no ambiente africano dos tecidos coloridos cheirando ainda a tinta.

No percurso podemos descansar para uma merendinha no Café Restaurante Maracujá onde os donos e empregados se desfazem em simpatia. Os crepes que servem são deliciosos.


Há muitas lojas chinesas. É conveniente regatear com os lojistas, pois os preços que pedem estão muito inflacionados. E a seguir a cada cedência que fazem dizem sempre que é muito caro trazer os produtos até aqui.

Aparte as lojas chinesas, a paisagem urbana é idêntica à de muitas das nossas praias algarvias do início dos anos setenta. Para irmos para a praia podemos seguir, por exemplo, pela Rua da Cidade de Amadora onde nos sentiremos envolvidos por um ambiente genuinamente português.


Ao chegar à praia, logo somos informados do esforço das autoridades locais na preservação das tartarugas marinhas, pois a zona é uma das preferidas para elas nidificarem.


Contudo não chegámos a ver nenhuma talvez por não ser a sua época. Aliás, no que respeita à fauna, é agora oportuno dizer que não vimos gaivotas em qualquer dos lugares junto ao mar que visitámos, quer em Santiago, quer no Fogo ou na Brava. Pareceu-nos que em Cabo Verde há muito poucas espécies de aves. Não me lembro de ter visto outras, para além dos pombos e dos pardais.


O Bar Baía Verde, junto à praia, é um local aprazível onde somos atendidos por empregadas muito simpáticas e onde podemos tomar um simples café, beber uma cerveja, ou tomar uma refeição.

É como que uma sala de convívio onde os visitantes facilmente entram em comunicação uns com os outros e trocam as suas impressões sobre qualquer tema que ocorra no momento. Foi nesse bar que, em certo momento, verifiquei que, na mesa ao lado, havia dois homens, por sinal bem encorpados, que ora falavam crioulo, ora falavam português. Reparei que um deles vestia uma camisola com uma inscrição muito interessante, fora do comum. Pedi-lhe para fotografar os dizeres da camisola e ele, simpaticamente, logo se disponibilizou e colocou a jeito e fê-lo com satisfação.


Graças a Deus sou Português!

Sentimo-nos bem a passear na praia ou a ver a azáfama da chegada dos pescadores e da venda imediata do peixe. Mal o barco chega, há uma mobilização espontânea e colectiva das pessoas presentes que o ajudam a arrastar para terra firme. Depois há o alarido da arrematação do peixe que nos pareceu ser apenas de duas ou três variedades. As vozes das mulheres sobressaem, como se destacam também as suas vestes coloridas. O canto da praia onde os barcos de pesca descansam é um postal animado e multicolor que dá prazer observar.






A praia estende-se por umas centenas de metros em jeito de meia-lua de areia branca, onde as ondas se desfazem em espuma.


Lá ao fundo da praia está esculpida na rocha a palavra Tarrafal que é um ponto de visita obrigatória com direito à fotografia da praxe.


É interessante observar também os rostos e máscaras que turistas pacientes e com tempo suficiente para se dedicarem a essa forma de relaxamento têm esculpido na rocha através dos tempos.


Há muitos edifícios de traçado tradicional em ruínas e é pena que assim estejam. Pior será se se perderem e não forem recuperados. Mas dá gosto ver o edifício da Câmara Municipal que, pela sua simplicidade e traçado tradicional e por estar bem conservado, é digno de ser visto, tanto mais que representa uma mais-valia para a praça que lhe fica em frente.


E, como acontece noutras localidades sedes de concelho, a praça em frente à Câmara Municipal do Tarrafal tem internet sem fios livre, o que permite aos turistas, e não só, sentarem-se ali ao fim do dia e actualizarem as suas informações relativamente às famílias e às notícias do mundo. Nós assim fazíamos com os nossos iphones. E acontece que também esta praça se torna numa sala de convívio, pois as pessoas cumprimentam-se umas às outras como se fossem velhas conhecidas. Numa das vezes aproximou-se de mim uma linda rapariga que me estendeu a mão e me cumprimentou. Olá, estás a conectar, como te chamas. Eu chamo-me António. E tu. Eu chamo-me Branca. Sou Branca mas sou negra. E disse isto com um sorriso aberto e natural acompanhado de uma gargalhada. E eu respondi. Na verdade és uma negra muito bonita. E ela riu-se e disse obrigada. E sentou-se ao meu lado, abriu o computador e começou a navegar. Quando me levantei e lhe disse adeus, ela apenas fez um sinal leve com a mão esquerda e nem tirou os olhos do ecrã do computador. Pelo seu sorriso concluí que já esvoaçava feliz nas ondas mágicas do éter daquela coisa maravilhosa a que chamamos internet.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Passagem de ano em Cabo Verde – 16. Da cidade da Praia à vila do Tarrafal

A cidade da Praia assenta em duas colinas principais: o Platô (ou Plateau em francês) e a Achada de Santo António. A primeira corresponde à elevação onde se desenvolveu a cidade antiga, que sucedeu à Cidade Velha, e onde estão localizados a Presidência da República e os ministérios, bem como a câmara municipal e o banco central. Na segunda estão localizadas a Assembleia Nacional e as principais embaixadas de países estrangeiros, bem como os escritórios de representação de organizações internacionais. Aqui a construção é relativamente recente.

A tarde do dia 2 de Janeiro já ia avançada e era nosso objectivo chegar ainda nesse dia ao Tarrafal. Tínhamos reservado, com antecedência, junto de uma agência de aluguer de automóveis, um veículo que nos deveria ser entregue por volta de determinada hora desse dia. Como a agência se situa na Achada de Santo António, foi para lá que nos dirigimos para irmos levantar o carro.

Entretanto, entrámos na Pastelaria Pão Quente para aconchegarmos os nossos estômagos com uma coisinha leve, pois estavam muito doridos devido à severidade da viagem do Fogo para a Praia. Ficámos surpreendidos pelo ar tão português desta Pastelaria. Lá entendem o que é uma bica, um galão, meia de leite ou uma imperial. Enquanto lá estivemos vimos chegar vários expatriados portugueses para apenas comprar pão, usando as designações que se usam nas nossas padarias: carcaças, pão centeio, pão da avó e outras.

A frota de carros disponível para aluguer na cidade da Praia não é grande e, por isso, convém fazer a reserva com alguma antecedência. E, mesmo assim, as coisas nem sempre funcionam bem. Na verdade, quando nos dirigimos à agência, ainda não tinham um carro disponível alegando que o cliente anterior não o tinha devolvido em tempo. Perante a nossa reacção e decepção, acabou por aparecer um outro que era uma pick up de caixa aberta e com cabine para cinco passageiros.


Tivemos que esperar para que fosse limpo. Mas como tínhamos presente a história dos casubodis, ficámos um pouco receosos por termos de levar as bagagens na caixa aberta, se bem que uma mala pesada não seja propriamente uma carteira com dinheiro.

Da Praia ao Tarrafal são cerca de setenta quilómetros e atravessa-se a ilha de Santiago de ponta a ponta no sentido sul norte. A paisagem durante o percurso é muito bonita e variada.




Os nomes das povoações ficam facilmente na nossa memória: Nora, S. Domingos, Achada da Igreja, Assomada, Banana, Curral Velho. Chão Bom, Tarrafal.

Queríamos chegar ao Tarrafal antes do anoitecer. Só que em Cabo Verde há que andar devagar. Navegar à vista. De um momento para o outro pode aparecer um rebanho, uma vaca, ou mesmo um grupo de adultos ou crianças que transitam despreocupadamente na estrada.


E depois há as lombas colocadas na estrada de propósito para desincentivar as velocidades. E são grandes lombas nem sempre visíveis com a antecedência necessária. Há ainda o risco de outro tipo de obstáculos completamente imprevisíveis. Na Serra da Malagueta, num ponto em que a serra se ergue a pique ao lado da estrada, havia detritos resultantes da queda de pedras que ocupavam meia via. Mal assinalado, perigoso, estava este obstáculo.


Passámos por lá várias vezes nos dias seguintes e lá continuava.

Entretanto as cores do entardecer tornaram a paisagem particularmente bela e foram uma boa razão para uma breve paragem de relaxamento.



Surge a povoação de Chão Bom, já colada ao Tarrafal. É aí que se localiza o Campo de Detenção, hoje monumento nacional.