domingo, 3 de março de 2013

Passagem de ano em Cabo Verde – 23. O dia da liberdade no Campo de Trabalho de Chão Bom

Era quarta-feira, primeiro de Maio de 1974. O dia tinha começado de maneira normal no Campo de Trabalho de Chão Bom. Pelas seis da manhã os guardas abriram, pela última vez mas sem o saberem ainda, os ferrolhos das portas dos reclusos dizendo-lhes que eram horas de irem ao café.


Tudo parecia normal não fora um ambiente estranho que pairava no ar havia vários dias. Fora do campo sabia-se que tinha havido mudanças em Portugal, mas verdadeiramente as informações não eram suficientes para decisões precipitadas. Os guardas perguntavam aos seus superiores o que deviam fazer e eles respondiam secamente o mesmo que até aqui, até que haja novas ordens. O chefe dos guardas fazia a mesma pergunta ao director do campo e ele dizia apenas que estava a tentar obter informações mais precisas junto do Governador e que o dever era o mesmo do passado até novas ordens. O Governador, por sua vez tentava contactar a Junta de Salvação Nacional para pedir orientações e não teve mais do que a resposta seca de que iria ser contactado por um militar, oficial em serviço em Cabo Verde, e que era o representante do MFA e da revolução. Andava de um lado para o outro à espera de orientações.

Os canais do poder tradicional tinham-se esvaziado. A polícia política tinha desaparecido de Chão Bom sem as pessoas se terem apercebido disso. Havia militares a enquadrar uma guarnição local e esta era a única força que ainda poderia ter papel activo em caso de motim.

Era feriado. A meio da manhã, no interior do campo, começou-se a ouvir um alarido que vinha de fora gritando pela libertação dos presos.


Alguns dos reclusos lavavam a sua roupa nos tanques como faziam habitualmente duas vezes por semana e aí a abandonaram precipitadamente meio submersa ansiosos por esclarecer que alarido era aquele.


O director e os guardas estavam de pé a dizer uns para os outros que, até novas ordens, cumpririam o seu dever. Já não é apenas um grupo a gritar. Era uma multidão que ia engrossando com os carros que chegavam apinhados da Praia. Apareceu um jeep com alguns militares comandados por um major que, a custo, passou por entre a multidão. Foram directos ao director, dizendo que representavam o MFA e deram-lhe ordens para libertar imediatamente todos os presos.


O chefe dos guardas ouviu atónito e correu logo a avisar os outros guardas para abrirem os pavilhões e dizerem aos detidos que tinham sido libertados e que o fascismo e o colonialismo tinham sido derrubados pelo MFA. Houve detidos que ainda se lembraram de ir à procura de certos guardas que tinham marcado para o ajuste de constas. Mas a hora era de festa e correram a levantar os seus bens pessoais e dirigiram-se para a portaria do campo, ainda com reservas de que tudo aquilo pudesse ser verdade. À medida que iam saindo eram aclamados e encaminhados para camionetas de caixa aberta. A onda de exaltação depressa se apoderou deles e logo começaram a gritar também viva o PAIGCV viva o MPLA, abaixo a fascismo abaixo o colonialismo. Eram já várias as camionetas. Um militar, que logo disse que era representante do MFA, veio informar em megafone que já não havia mais detidos no campo. Uns tantos, entretanto, entraram em tropel por ali a dentro apanharam tudo o que podia servir-lhes de recordação, incluindo torneiras, portas das latrinas, lavatórios e mesmo bocados deles.



A coluna começou a mover-se e rumou em direcção à cidade da Praia, lentamente, gritando para as pessoas que, pelo caminho, olhavam espantadas para tudo aquilo porque não sabiam o que se estava a passar.


Entretanto, as informações dadas pela rádio abriam a curiosidade a muitas outras pessoas que saíam para junto da estrada para verem melhor aquilo que nunca tinham pensado ver e que nunca mais verão, uma coluna com ex-detidos transformados em heróis e aclamados como tal. Os ajustes de contas iam ocorrendo aqui e ali.

Bastava alguém dizer que aquele é bufo da pide e logo uns tantos da multidão corriam atrás dele para o ajuste de contas.




E foi assim até à cidade da Praia onde a recepção foi apoteótica.

Após o que os ex-detidos foram, tão breve quanto possível, reencaminhados para os seus países de origem. E aí se envolveram a trabalhar para o dia da independência.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Passagem de ano em Cabo Verde – 22. O dia-a-dia no Campo de Trabalho de Chão Bom

Já nos interrogámos várias vezes como seria a vida dos reclusos no dia-a-dia do Campo de Trabalho de Chão Bom. Sabemos que há escritos sobre este assunto, quer da autoria de ex-reclusos, quer de outras pessoas, nomeadamente jornalistas. Disseram-me que a jornalista Diana Andringa tem um interessante trabalho publicado sobre este tema. E também Edmundo Pedro, que esteve lá detido. Esperamos poder encontrá-los.

Por agora, limitámo-nos a reflectir apenas sobre aquilo que vimos e sentimos no campo, nomeadamente a partir da informação exposta.

O decreto que criou o campo previa a existência de um capelão. No entanto, não vimos qualquer referência à religião ou a práticas religiosas nem locais afectos ao culto.

Embora, conforme referimos num apontamento anterior, o campo tenha sido construído para um máximo de quinhentos presos, não conseguimos ver qualquer informação que fale em excessos de lotação.

Nas fotografias abaixo, estão listados todos os reclusos que passaram pelo Chão Bom. Os nomes são perfeitamente legíveis depois de clicarmos duas vezes sobre cada fotografia para ela aumentar.



Estes cartazes estão agora fixados no pavilhão dos detidos guineenses. Como vemos, o grupo mais numeroso é o dos portugueses. No entanto não vimos no campo qualquer referência ao lugar onde possam ter estado detidos.


Atendendo ao número total de presos e apesar do longo período em que o campo funcionou, parece que nunca se colocou o problema da sobrelotação.

Um dos documentos que achámos mais interessante é o horário da vida prisional a que estavam sujeitos os reclusos angolanos e os guineenses. Não conseguimos saber qual era o aplicável aos portugueses e aos cabo-verdianos.


De acordo com esse horário, os reclusos passavam, por dia, cerca de dezoito horas e trinta minutos encerrados nas casernas. Tinham quarenta e cinco minutos para irem ao pequeno-almoço. Uma hora e quinze minutos para o almoço e igual tempo para o jantar. Proporcionavam-lhes uma liberdade fora da caserna de duas horas e quarenta e cinco minutos para recreio. Lavavam a sua própria roupa e tomavam banho às quintas e domingos na parte da manhã.

Dispunham de uma sala de leitura, mas não sabemos em que condições a podiam utilizar.


Edifício da sala de leitura.

Como a água doce em Cabo Verde é um bem escasso, e muito mais o era no tempo do funcionamento do campo porque, então, não havia máquinas dessalinizadoras, podemos adivinhar que o acesso a ela era muito condicionado e controlado, provavelmente com prejuízo dos mínimos de higiene.

Por outro lado, o excessivo tempo em reclusão provoca alterações nos nervos de qualquer ser humano nem que a reclusão dure só por um dia. Por isso podemos adivinhar que havia uma tensão permanente com condições para explodir, por tudo e por nada, pondo à prova os guardas prisionais.

Havia um posto de socorros com médico avençado.



Recluso em frente da porta do posto médico.

No entanto não deixa de ser estranho que esses médicos não tenham conseguido evitar a morte de gente relativamente jovem. Dos trinta e seis mortos listados, sete tinham menos de trinta anos, quinze estavam na casa dos trinta quarenta, nove na casa dos quarenta cinquenta quatro na casa dos cinquenta sessenta e apenas um com mais de sessenta anos.

As portas das duas alas do campo estão em frente uma da outra.

Os reclusos eram chamados para participar em trabalhos, havendo em contrapartida o pagamento de um salário por parte do campo, que ficava guardado num fundo para poder ser levantado pelo recluso quando chegasse a hora da sua liberdade. Por vezes os reclusos tentavam levantá-lo no todo ou em parte alegando para isso as mais diversas razões. Por exemplo, no apontamento anterior está reproduzido um documento em que um recluso pedia para levantar parte do seu dinheiro alegando que era para comprar material didáctico. E isso foi-lhe negado porque o requerente mal sabia ler e o que ele referiu que queria comprar eram os Lusíadas a par de outras obras literárias.

O sistema prisional, já rígido por si, exigia uma maior dureza em casos de violação da disciplina. Nas violações mais graves, os reclusos eram fechados na Holandinha, uma minúscula cela onde mal se podiam pôr de pé e apenas com cerca de um metro quadrado, o que os impedia de se deitarem. Tinha apenas uma minúscula janela gradeada que dava para o interior de outra cela já por si bastante pequena. Esse castigo era acompanhado de mais privações, como sejam cortes na alimentação e acesso a água potável. Há um cartaz onde um ex-recluso relata que ele e os companheiros tiravam um pouco das suas refeições que reuniam e faziam chegar clandestinamente a um seu companheiro fechado na Holandinha.


Há um outro relato de um ex-recluso que se queixa de que, durante todo o tempo em que lá esteve detido, foi mantido completamente isolado da sua família, pois toda a correspondência, dele e da família, foi interceptada e apreendida pela pide.

A maioria dos reclusos tinha estatura intelectual e moral superior e, talvez por isso, mantinham com a direcção e com pessoal do campo uma relação cordata, como a melhor solução para suportarem as agruras daquela situação e poderem sonhar com a sua saída daquele inferno.


Há uma fotografia exposta de um grupo de reclusos, datada de 1946, onde o então director do campo, David Prates da Silva, posa no meio dos reclusos, nada indiciando que ele esteja ali contrariado. No conjunto mais parece a fotografia de um grupo de colegas e amigos do que do director de um campo de concentração com os respectivos reclusos.