quarta-feira, 6 de março de 2013

Passagem de ano em Cabo Verde – 24. Do Tarrafal até à Praia

Foi com pena que, no dia cinco de Janeiro de 2013, deixámos a simpática vila do Tarrafal, escolhendo, para momento de despedida, um último café no Restaurante Baía Verde, para reter na memória a repousante vista sobre a praia. Queríamos chegar à capital ainda nesse dia, percorrendo os cerca de setenta quilómetros de estrada sem perder a oportunidade de pararmos aqui e ali para vermos melhor aquilo que nos parecesse merecer uma observação mais atenta.

O percurso tem muitas vistas deslumbrantes sobretudo nas zonas montanhosas da serra da Malagueta e da zona de Santo António. Por exemplo aquele lindo postal em que a estrada serpenteia lá muito em baixo mostrando-se e escondendo-se alternadamente como se estivesse a desafiar-nos para jogarmos com ela às escondidas.


Ou então lembramos aquele outro postal em que mais perto de nós há um arranjo colorido de montanhas que se sobrepõem umas nas outras imitando as pétalas de um grande girassol meio aberto e virado ao contrário e, lá mais longe, assomando por cima de um grande manto de nuvens brancas há o topo de uma montanha recortada no céu azul que nos parece ser o cume do vulcão da ilha do Pico.


A certa altura vimos, no lado esquerdo da estrada, abaixo do nível desta, uma colina encimada por uma igreja branca e decidimos parar aí para ir gozar por algum tempo aquelas lindas vistas, tão semelhantes às do nosso Minho.


Descemos a pé por uma rua com um declive bastante acentuado e chegámos à igreja de Santa Catarina.


Tem uma localização excelente e encontra-se virada para o lado da estrada, tendo portanto a retaguarda virada paras a paisagem larga dos vales em redor.


Isto da orientação das igrejas tem razões que a razão não entende, pois parece claro que a Santa gostaria mais de passar a eternidade a olhar para aqueles horizontes sem fim do que para a limitada vista da encosta de um monte já coberto de casas.

Além de estar bem localizada e de, em tudo nos fazer lembrar o Minho, esta igreja tem ainda a particularidade de ter um muro sineiro em vez de uma torre sineira.


Na verdade os vários sinos encontram-se dispostos no muro no lado do ângulo traseiro direito da igreja.




E tem ainda uma outra particularidade. Os sinos foram fundidos em Braga e ofertados pela paróquia de Vila Cova, Barcelos, à paróquia de Santa Catarina no ano de 1965. Tudo isto terá acontecido, imaginamos, por empenho de alguém que sendo originário de Vila Cova se dedicou à terra de Santa Catarina como se fosse a sua terra de origem.

A festa de Santa Catarina, no calendário litúrgico, tem lugar no dia 25 de Novembro de cada ano. Provavelmente será por essa altura que os diversos andores que se encontram cobertos de pó numa arrecadação por baixo do templo sairão à rua para transportarem a Santa e os amigos que com ela habitam numa colorida procissão.


Santa Catarina é o nome de um vasto concelho com sede em Assomada. O lugar em que a igreja se encontra é a Achada Falcão que em Janeiro de 2013 apresentou na Assembleia Municipal uma petição para ser promovida a vila.

Prosseguimos o nosso percurso e, antes de entrarmos na capital, vamos passar pela Cidade Velha que em 26 de Junho de 2009 passou a integrar a lista do património mundial da Humanidade da UNESCO. Fica a apenas quinze quilómetros da Praia. A sua história é muito rica e facilmente pode ser lida em vários trabalhos publicados na internet. Foi ponto de paragem obrigatório para os antigos navegadores portugueses, nomeadamente Vasco da Gama.


Ao depararmos com o pelourinho e olharmos a praça em redor tivemos a sensação de estarmos a chegar ao centro de uma antiga cidade portuguesa e ainda mais porque em frente do edifício da Câmara Municipal estava estacionada uma mabulância dos Bombeiros Voluntários de Ponte de Lima.


Aproveitámos a rede de internet livre da praça para actualizarmos a nossa informação usando os nossos ipnones. E a seguir começámos a imaginar as muitas histórias que desde a fundação em 1492 até àquele dia ali terão ocorrido. Histórias de navegadores, piratas e corsários, tombeiros de escravos,inflamados homens da religião,de amor e de ódio, de conquistas e derrotas.

Na praia onde fundearam os muitos actores dessas histórias estavam agora pequenos barcos de pesca na fase de venda avusla de pescado.


Depois da nossa visita, ficámos com impressão de que a verdadeira cidade monumental já não está ali e tem de ser adivinhada a partir das ruínas. As ruínas da sé catedral são um bom exemplo desta afirmação.


Mas não só. Este anúncio da Cerveja Sagres é um expressivo sinal do declínio da presença portuguesa.


E também a igreja da misericórdia e de outras mais já só são referenciadas pela existência de algumas pedras trabalhadas.

É incompreensível como a Cidade Velha, que foi tão importante durante séculos, chegou ao estado de ruína e destruição. Como causas são apontadas as muitas investidas impiedosas de piratas franceses e corsários ingleses e o abandono em que durante muito tempo esteve o seu património, sujeito à predação e furto. Contudo hoje o aspecto da cidade é cuidado e vê-se que os cabo-verdianos de agora têm orgulho na sua história e que a tentam preservar tendo conseguido escrever a Cidade Velha na lista do Parimónio da Humanidade elaborada pela Unesco, projecto a que esteve ligado o arquitecto português Sisa Vieira.



E também a Fortaleza de S. Filipe situada no topo do monte a mais de cem metros do nível do mar se encontra restaurada.


Vista do vale da Ribeira Grande a partir da entrada para a Fortaleza de S. Filipe

Depois da visita à Cidade Velha o nosso destino era o Hotel Pestana Trópico da Praia e é lá que a nossa história vai recomeçar.

domingo, 3 de março de 2013

Passagem de ano em Cabo Verde – 23. O dia da liberdade no Campo de Trabalho de Chão Bom

Era quarta-feira, primeiro de Maio de 1974. O dia tinha começado de maneira normal no Campo de Trabalho de Chão Bom. Pelas seis da manhã os guardas abriram, pela última vez mas sem o saberem ainda, os ferrolhos das portas dos reclusos dizendo-lhes que eram horas de irem ao café.


Tudo parecia normal não fora um ambiente estranho que pairava no ar havia vários dias. Fora do campo sabia-se que tinha havido mudanças em Portugal, mas verdadeiramente as informações não eram suficientes para decisões precipitadas. Os guardas perguntavam aos seus superiores o que deviam fazer e eles respondiam secamente o mesmo que até aqui, até que haja novas ordens. O chefe dos guardas fazia a mesma pergunta ao director do campo e ele dizia apenas que estava a tentar obter informações mais precisas junto do Governador e que o dever era o mesmo do passado até novas ordens. O Governador, por sua vez tentava contactar a Junta de Salvação Nacional para pedir orientações e não teve mais do que a resposta seca de que iria ser contactado por um militar, oficial em serviço em Cabo Verde, e que era o representante do MFA e da revolução. Andava de um lado para o outro à espera de orientações.

Os canais do poder tradicional tinham-se esvaziado. A polícia política tinha desaparecido de Chão Bom sem as pessoas se terem apercebido disso. Havia militares a enquadrar uma guarnição local e esta era a única força que ainda poderia ter papel activo em caso de motim.

Era feriado. A meio da manhã, no interior do campo, começou-se a ouvir um alarido que vinha de fora gritando pela libertação dos presos.


Alguns dos reclusos lavavam a sua roupa nos tanques como faziam habitualmente duas vezes por semana e aí a abandonaram precipitadamente meio submersa ansiosos por esclarecer que alarido era aquele.


O director e os guardas estavam de pé a dizer uns para os outros que, até novas ordens, cumpririam o seu dever. Já não é apenas um grupo a gritar. Era uma multidão que ia engrossando com os carros que chegavam apinhados da Praia. Apareceu um jeep com alguns militares comandados por um major que, a custo, passou por entre a multidão. Foram directos ao director, dizendo que representavam o MFA e deram-lhe ordens para libertar imediatamente todos os presos.


O chefe dos guardas ouviu atónito e correu logo a avisar os outros guardas para abrirem os pavilhões e dizerem aos detidos que tinham sido libertados e que o fascismo e o colonialismo tinham sido derrubados pelo MFA. Houve detidos que ainda se lembraram de ir à procura de certos guardas que tinham marcado para o ajuste de constas. Mas a hora era de festa e correram a levantar os seus bens pessoais e dirigiram-se para a portaria do campo, ainda com reservas de que tudo aquilo pudesse ser verdade. À medida que iam saindo eram aclamados e encaminhados para camionetas de caixa aberta. A onda de exaltação depressa se apoderou deles e logo começaram a gritar também viva o PAIGCV viva o MPLA, abaixo a fascismo abaixo o colonialismo. Eram já várias as camionetas. Um militar, que logo disse que era representante do MFA, veio informar em megafone que já não havia mais detidos no campo. Uns tantos, entretanto, entraram em tropel por ali a dentro apanharam tudo o que podia servir-lhes de recordação, incluindo torneiras, portas das latrinas, lavatórios e mesmo bocados deles.



A coluna começou a mover-se e rumou em direcção à cidade da Praia, lentamente, gritando para as pessoas que, pelo caminho, olhavam espantadas para tudo aquilo porque não sabiam o que se estava a passar.


Entretanto, as informações dadas pela rádio abriam a curiosidade a muitas outras pessoas que saíam para junto da estrada para verem melhor aquilo que nunca tinham pensado ver e que nunca mais verão, uma coluna com ex-detidos transformados em heróis e aclamados como tal. Os ajustes de contas iam ocorrendo aqui e ali.

Bastava alguém dizer que aquele é bufo da pide e logo uns tantos da multidão corriam atrás dele para o ajuste de contas.




E foi assim até à cidade da Praia onde a recepção foi apoteótica.

Após o que os ex-detidos foram, tão breve quanto possível, reencaminhados para os seus países de origem. E aí se envolveram a trabalhar para o dia da independência.