Escreveu Fernando Pessoa que Deus quer, o homem sonha e a obra nasce. Por experiência própria posso dizer que sonhamos com muitas coisas e que, de quando em quando, lá acontece uma delas.
Desde muito pequeno, praticamente desde que me apercebi de que o Belém de Lisboa não é a terra onde nasceu Jesus, que sonhei ir à Terra Santa. E aconteceu que esse sonho se realizou este ano, de 23 de Abril a 2 de Maio.
Antes de partir ouvi um amigo que lá fora em tempos resumir a sua viagem ao desabafo de que "foram pedras a mais".
Na verdade, eu não queria fazer uma viagem destas para, no fim, ficar enfastiado de ver pedras. Esperava, ao ver os locais bíblicos, reunir dados para compreender melhor essa figura fascinante que foi Jesus Cristo. O facto de estar nesses lugares, poder avaliar as distâncias entre eles, ver o ambiente natural e humano, sentir o clima e os cheiros, conhecer a fauna e a flora, permitir-me-ia criar um mapa em múltiplas dimensões que usaria para imaginar os vários episódios evangélicos num ambiente tão próximo quanto possível da realidade em que aconteceram. Assim teria elementos para compreender melhor Cristo como ser humano e daí partir para a descoberta das doutras personalidades que ele revelou: a histórica, a messiânica e a divina.
Como foi possível a um homem que viveu apenas trinta e três anos, o que é muito pouco para os parâmetros atuais, fazer tanto em tão pouco tempo? E a curiosidade adensa-se ainda mais quando pensamos que a sua vida pública foi apenas de três anos.
O itinerário da viagem abria-se a um vasto campo de expetativas de alimento para as minhas questões.
Era este o programa:
Dia 22 de abril: Lisboa, Cucujães;
Dia 23 de abril: Cucujães, Porto, Bruxelas, Tel Aviv;
Dia 24 de abril: Tel Aviv, Cesareia Marítima, Haifa, Tiberíades;
Dia 25 de abril: Tiberíades, Canã da Galileia, Nazaré, Mar da Galileia, Monte das Bem Aventuranças, Tiberíades;
Dia 26 de abril : Tiberíades, Monte Tabor, Naim, Nablus, Samaria, Ramallah, Jifna, Jerusalém;
Dia 27 de abril: Jerusalém;
Dia 28 de abril: Jerusalém, Ein Karen, Betânia;
Dia 29 de abril: Jerusalém, Belém, Hebron, Jerusalém;
Dia 30 de abril: Jerusalém, Jericó, Qunran, Mar Morto;
Dia 1 de maio: Mar Morto, Tel Aviv;
Dia 2 de maio: Tel Aviv, Bruxelas, Porto, Cucujães, e Lisboa.
domingo, 18 de maio de 2014
segunda-feira, 20 de maio de 2013
A arte flamejante da pintora Odete Silva
A pintora Odete Silva proporcionou-nos uma visita guiada à sua exposição numa das galerias da Sociedade Nacional de Belas Artes.
Simples, humilde, sorridente, explicou-nos alguns dos pormenores técnicos dos seus trinta e tantos quadros que ali se encontravam. De tudo o que disse tocou-me particularmente a frase que, só por si, resume a visita: “pintei nestes quadros as cores que o meu Alentejo exibe nesta altura do ano”. A visita ocorreu no dia 2 de Maio de 2013, que correspondia ao último dia da exposição.
E como são bonitas as cores dos campos alentejanos num dia de sol primaveril!
As obras de arte têm a importante particularidade de permitir aos que as observam uma leitura subjectiva. E tive oportunidade de então contar à senhora Pintora a impressão espontânea que se apoderou de mim, logo na primeira vez que vi a exposição. O meu espírito encheu-se das cores, sons, cheiros e sabores da Festa da minha aldeia, que ocorre sempre no começo da Primavera. Lá a Festa é a Páscoa. Quando um emigrante ou um militar escreve à Família dizendo que tenciona ir à aldeia pela Festa, quer dizer simplesmente a Páscoa e não o Natal ou outra solenidade.
Na primeira vez que entrei na exposição disse instintivamente para comigo: “Olha, está aqui representada a Festa!” Aqueles inúmeros traços coloridos ganharam movimento, produziram sons e geraram imagens, sabores e cheiros.
Na Páscoa os campos da minha aldeia estão assim coloridos, com grandes manchas de cores vivas, seja de malmequeres amarelos, de margaças brancas ou outras flores silvestres. Muitas árvores de fruto exibem as suas roupagens brancas ou cor-de-rosa, a contrastar com o céu azul. À meia-noite do domingo da Ressureição, e isto mais no antigamente, geravam-se ranchos espontâneos de pessoas que seguiam em cortejos diversos pelas ruas da aldeia, cantando as alvíssaras.
No domingo, os sinos repicavam e o compasso saía com as cores garridas do pálio, dos paramentos, do pendão paroquial, dos estandartes e das bandeiras das irmandades, levantados por pessoas, trajando opas vermelhas ou brancas. E depois havia uma parte do compasso que percorria a aldeia de lés a lés, dando as boas festas de casa em casa.
“Pax sit in domo hoc!”. Era assim que o prior dizia ao entrar em cada casa, enquanto retirava o hissope da caldeirinha e aspergia as famílias com água benta. E fazia isto vezes sem conta durante todo o domingo. Todos os presentes beijavam a imagem de Cristo, numa cruz processional ornada com flores, transportada pelo sacristão.
Na segunda-feira, o compasso levava o mesmo ritual a todas as quintas habitadas que circundavam a sede da freguesia.
E em todas as casas havia bolos de leite, amêndoas, vinho e jarros de flores nas mesas. Os respectivos odores enchiam o ambiente, que assim era de uma verdadeira festa.
E tudo isto eu senti representado nos quadros da exposição da pintora Odete Silva…
Simples, humilde, sorridente, explicou-nos alguns dos pormenores técnicos dos seus trinta e tantos quadros que ali se encontravam. De tudo o que disse tocou-me particularmente a frase que, só por si, resume a visita: “pintei nestes quadros as cores que o meu Alentejo exibe nesta altura do ano”. A visita ocorreu no dia 2 de Maio de 2013, que correspondia ao último dia da exposição.
E como são bonitas as cores dos campos alentejanos num dia de sol primaveril!
As obras de arte têm a importante particularidade de permitir aos que as observam uma leitura subjectiva. E tive oportunidade de então contar à senhora Pintora a impressão espontânea que se apoderou de mim, logo na primeira vez que vi a exposição. O meu espírito encheu-se das cores, sons, cheiros e sabores da Festa da minha aldeia, que ocorre sempre no começo da Primavera. Lá a Festa é a Páscoa. Quando um emigrante ou um militar escreve à Família dizendo que tenciona ir à aldeia pela Festa, quer dizer simplesmente a Páscoa e não o Natal ou outra solenidade.
Na primeira vez que entrei na exposição disse instintivamente para comigo: “Olha, está aqui representada a Festa!” Aqueles inúmeros traços coloridos ganharam movimento, produziram sons e geraram imagens, sabores e cheiros.
Na Páscoa os campos da minha aldeia estão assim coloridos, com grandes manchas de cores vivas, seja de malmequeres amarelos, de margaças brancas ou outras flores silvestres. Muitas árvores de fruto exibem as suas roupagens brancas ou cor-de-rosa, a contrastar com o céu azul. À meia-noite do domingo da Ressureição, e isto mais no antigamente, geravam-se ranchos espontâneos de pessoas que seguiam em cortejos diversos pelas ruas da aldeia, cantando as alvíssaras.
No domingo, os sinos repicavam e o compasso saía com as cores garridas do pálio, dos paramentos, do pendão paroquial, dos estandartes e das bandeiras das irmandades, levantados por pessoas, trajando opas vermelhas ou brancas. E depois havia uma parte do compasso que percorria a aldeia de lés a lés, dando as boas festas de casa em casa.
“Pax sit in domo hoc!”. Era assim que o prior dizia ao entrar em cada casa, enquanto retirava o hissope da caldeirinha e aspergia as famílias com água benta. E fazia isto vezes sem conta durante todo o domingo. Todos os presentes beijavam a imagem de Cristo, numa cruz processional ornada com flores, transportada pelo sacristão.
Na segunda-feira, o compasso levava o mesmo ritual a todas as quintas habitadas que circundavam a sede da freguesia.
E em todas as casas havia bolos de leite, amêndoas, vinho e jarros de flores nas mesas. Os respectivos odores enchiam o ambiente, que assim era de uma verdadeira festa.
E tudo isto eu senti representado nos quadros da exposição da pintora Odete Silva…
Subscrever:
Mensagens (Atom)