1. Era o meio da tarde do dia de S. Pedro de 2012, sexta-feira, quando cheguei à minha aldeia. Logo me disseram que ia haver um funeral. Perguntei de quem era mas ninguém me soube dizer ao certo. Era de uma senhora de que ninguém sabia o nome e que, após alguma insistência, me identificaram como sendo a mãe de Fulano tal. Não identificavam o Fulano pelo nome próprio mas sim pela alcunha. É que, na minha aldeia, há o estranho costume de as pessoas serem reinventadas, ou clonadas, através de alcunhas. Assim todas as pessoas passam a ser vistas como se fossem actores disfarçados numa peça de teatro ou vistas numa imagem de espelho. Se o funcionário do registo civil viesse fazer a conferência das pessoas pelos dados do registo e perguntasse onde está o senhor que foi registado no dia tal, ninguém lhe saberia dizer quem é. Ele teria de escrever “desconhecido” ou mesmo “já não existe”. E teria razão porque, na verdade, só são conhecidos os clonos das pessoas que deveriam existir.
2. É costume as pessoas da aldeia acompanharem os seus conterrâneos à última morada, mesmo que não os conheçam bem. Ao princípio, eu pensei que o faziam por desinteressada solidariedade. Mas depois convenci-me de que o fazem também por interesse próprio. Querem ter a certeza de que ainda podem andar esse caminho pelo próprio pé.
3. Já se começa a ouvir ao longe um rumor de coro de oração colectiva no tom de mi da escala central. É o funeral. Vem debitando Avé Marias em que a primeira parte é dita por uma só voz e a segunda por um coro relativamente numeroso de vozes femininas, acompanhado num tom mais baixo pelo ronronar do motor da carrinha mortuária. Em apenas três minutos, chegam ao ponto em que me encontro. Os homens vêm à frente organizados em pequenos grupos que, por sua vez, falam entre si das coisas mais diversas. Vem a seguir um outro grupo, com mais mulheres do que homens, que, vestindo opas pretas, erguem a cruz processional e as bandeiras das confrarias. Junto-me ao grupo dos homens que seguem à frente nas suas conversas, alheios à prece colectiva. É um instante enquanto se chega à porta da capela do cemitério. Os senhores da funerária levam a urna para dentro. Uma parte dos acompanhantes entra. A maioria fica cá fora. Lá dentro forma-se um círculo à volta da urna que é colocada a meia altura sobre dois suportes. Mais algumas Avé Marias pela alma da nossa defunta irmã e por todas as almas que repousam neste cemitério. Que descansem em paz, ámen. O Padre oficiante tira a estola roxa e dobra-a em jeito de livro e sai e a quase totalidade das pessoas saem com ele. O verdadeiro funeral acabou ali. Os senhores da funerária levam agora a urna para o local onde vai ser enterrada. Mas isso já não é funeral, é o inevitável enterramento.
4. Fiquei a pensar nos funerais de antigamente. Vinha uma campainha à frente. Havia a caldeirinha e água benta e o hissope. O livro dos ritos que o Padre abria duas ou três vezes em pontos de paragem obrigatória. Era aí que as orações eram feitas, algumas delas em latim. Recordo-me de ouvir o simbólico “De profundis” que o Padre recitava enquanto aproveitava para passar a vista pelas pessoas que ali estavam à volta.
Era costume o Padre acompanhar os defuntos até estes descerem à terra. Várias vezes pegava no hissope, molhava-o na caldeirinha e benzia a terra e a urna. E tudo acabava com uma última bênção, após o que solenemente anunciava: podem cobrir. Sucediam-se automaticamente os gritos e sentidos prantos dos entes queridos.
Os funerais de antanho eram a sério. Agora até os funerais já são de plástico.
5. À saída da capela estava o filho da senhora defunta facilmente distinguível por vestir uma camisa preta. Cumprimentei-o com os formais sentidos pêsames e perguntei-lhe que idade tinha a mãe. Ele fixou-me e balbuciou um tremular de lábios acompanhado por um instantâneo enrugar da face. Mas não foi capaz de responder. Uma mulher veio em seu auxílio e disse:
“Tinha 97. Eu nem sabia que esta mulher ainda era viva. Desde que o marido morreu, e isso já foi há anos, nunca mais quis sair de casa. Fechou-se lá e não abria a porta a ninguém. Nem as senhoras do Centro de Dia conseguiram fazer nada dela. Só o filho é que lá conseguia ir de vez em quando. Ontem ele foi lá e já a encontrou gelada. Estava morta há vários dias. Já cheirava.”
6. Como terão sido os dias e as noites desta mulher que optou pela solidão absoluta? Para ela talvez não houvesse tempo com dias e noites. Talvez apenas uma ideia fixa, quem sabe, a imagem do último momento de felicidade que terá tido com o seu defunto marido.
Como foi possível isto acontecer nos tempos actuais?
Na verdade é temível a solidão absoluta.
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sábado, 7 de julho de 2012
quarta-feira, 21 de março de 2012
Um excelente vinho que é da minha terra mas que não gosta de o ser.
O suplemento de classificados do Diário de Notícias do passado dia 19 de Março de 2012 tinha quase toda a primeira página dedicada a um excelente vinho que é produzido a dois quilómetros do centro da minha terra, mas cujo produtor sempre tem evitado qualquer referência a ela.
Na primeira página desse suplemento, podemos ler em título destacado
“Do coração de Portugal para o mundo”
E depois lemos em jeito de artigo informativo:
“Com uma área de 130ha, a Quinta dos Currais está situada no coração de Portugal, entre as serras da Gardunha e da Estrela, estendendo-se pelas terras de Currais e pela encosta de Santana até à Ribeira da Meimoa, que a delimita a sul.”
Alguém consegue identificar onde se situam essas terras dos Currais? Com uma informação tão deficiente nem com o recurso ao Google se lá chega.
Vá lá que, ao menos, no rótulo é mencionado o Fundão.
A quinta dos Currais e a Encosta de Santana, esta ainda recentemente mencionada neste blogue, estão dentro dos limites da freguesia da Capinha que, na informação dos produtores e promotores do vinho em causa, tem sido deliberadamente omitida.
Parece claro que o Vinho Quinta dos Currais, embora sendo produzido nos limites da freguesia da Capinha, linda aldeia beirã, tem vergonha de pertencer a essa terra. Assim seria melhor que se mudasse para outra.
A página do Diário de Notícias
Na primeira página desse suplemento, podemos ler em título destacado
“Do coração de Portugal para o mundo”
E depois lemos em jeito de artigo informativo:
“Com uma área de 130ha, a Quinta dos Currais está situada no coração de Portugal, entre as serras da Gardunha e da Estrela, estendendo-se pelas terras de Currais e pela encosta de Santana até à Ribeira da Meimoa, que a delimita a sul.”
Alguém consegue identificar onde se situam essas terras dos Currais? Com uma informação tão deficiente nem com o recurso ao Google se lá chega.
Vá lá que, ao menos, no rótulo é mencionado o Fundão.
A quinta dos Currais e a Encosta de Santana, esta ainda recentemente mencionada neste blogue, estão dentro dos limites da freguesia da Capinha que, na informação dos produtores e promotores do vinho em causa, tem sido deliberadamente omitida.
Parece claro que o Vinho Quinta dos Currais, embora sendo produzido nos limites da freguesia da Capinha, linda aldeia beirã, tem vergonha de pertencer a essa terra. Assim seria melhor que se mudasse para outra.
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quinta-feira, 1 de março de 2012
À memória da minha ama-de-leite
Sou o quinto filho de uma família de seis, nascido nos tempos difíceis do auge da Segunda Guerra Mundial. Catorze dias depois de eu entrar neste mundo, foi posto fora dele o Adolfo Hitler.
Nos dias de hoje em que, constantemente, ouvimos falar de crise, não conseguimos imaginar como a vida era difícil no ano de mil novecentos e quarenta e cinco. Na minha aldeia ainda não havia luz, água canalizada ou gás. As habitações não tinham casa de banho. Tudo o que alimentava a vida era genuinamente natural e biológico. Havia a febre social do volfrâmio e as famílias desfaziam-se em esforços para descobrir um filão algures no campo. Se descobriam um, guardavam sobre ele o maior segredo. Iam explorá-lo com familiares e amigos de confiança pela calada da noite.
Nasci de uma Mãe desvelada, generosa. Contudo, por qualquer razão insondável, não conseguia gerar o leite suficiente para me amamentar. Nesse tempo, ainda não havia leite em pó ou farinhas industrialmente preparadas para alimentar bebés. Havia o leite das duas cabritas que faziam parte do património da família. Mas era por natureza sazonal e durava escassos meses.
Nesse ambiente de grande carência, valeu-me a generosidade de uma mulher da aldeia, oito anos mais nova que a minha Mãe, que tivera uma criança na mesma altura em que eu nasci.
Foi ela, a Ti Felícia, a minha ama-de-leite.
Sempre senti por ela uma ternura muito especial. Quando a encontrava, gostava de ouvir as suas calorosas narrativas dos tempos difíceis em que me alimentou. E, em todas as conversas, havia um ponto comum. Aquele em que ela, socorrendo-se de um profundo suspiro, dizia:
“Eras tu de um lado e o meu Chico do outro … Os dois a mamar ao mesmo tempo…”
Esta mulher franzina, humilde, trabalhadora, com o saber de uma vida intensamente vivida, lutadora, duas vezes viúva, auto-suficiente e esclarecida até ao limite final dos seus dias, foi a sepultar no passado Carnaval. Completara noventa e seis anos no começo de Janeiro.
À memória de Maria Felícia dos Santos (1916-2012) aqui deixo estas linhas com os protestos da minha admiração e gratidão. Deixo também um abraço de muita estima aos seus filhos Chico e Alzira, bem como aos seus Netos.
Nos dias de hoje em que, constantemente, ouvimos falar de crise, não conseguimos imaginar como a vida era difícil no ano de mil novecentos e quarenta e cinco. Na minha aldeia ainda não havia luz, água canalizada ou gás. As habitações não tinham casa de banho. Tudo o que alimentava a vida era genuinamente natural e biológico. Havia a febre social do volfrâmio e as famílias desfaziam-se em esforços para descobrir um filão algures no campo. Se descobriam um, guardavam sobre ele o maior segredo. Iam explorá-lo com familiares e amigos de confiança pela calada da noite.
Nasci de uma Mãe desvelada, generosa. Contudo, por qualquer razão insondável, não conseguia gerar o leite suficiente para me amamentar. Nesse tempo, ainda não havia leite em pó ou farinhas industrialmente preparadas para alimentar bebés. Havia o leite das duas cabritas que faziam parte do património da família. Mas era por natureza sazonal e durava escassos meses.
Nesse ambiente de grande carência, valeu-me a generosidade de uma mulher da aldeia, oito anos mais nova que a minha Mãe, que tivera uma criança na mesma altura em que eu nasci.
Foi ela, a Ti Felícia, a minha ama-de-leite.
Sempre senti por ela uma ternura muito especial. Quando a encontrava, gostava de ouvir as suas calorosas narrativas dos tempos difíceis em que me alimentou. E, em todas as conversas, havia um ponto comum. Aquele em que ela, socorrendo-se de um profundo suspiro, dizia:
“Eras tu de um lado e o meu Chico do outro … Os dois a mamar ao mesmo tempo…”
Esta mulher franzina, humilde, trabalhadora, com o saber de uma vida intensamente vivida, lutadora, duas vezes viúva, auto-suficiente e esclarecida até ao limite final dos seus dias, foi a sepultar no passado Carnaval. Completara noventa e seis anos no começo de Janeiro.
À memória de Maria Felícia dos Santos (1916-2012) aqui deixo estas linhas com os protestos da minha admiração e gratidão. Deixo também um abraço de muita estima aos seus filhos Chico e Alzira, bem como aos seus Netos.
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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Ai a seca!... Que nos valha Sant'Ana!!!
Na minha aldeia, a Capinha, existiu, em tempos remotos, uma capela dedicada a Santa Ana, a avó materna de Jesus Cristo. Ficava a cerca de um quilómetro da igreja matriz, num local ainda hoje conhecido por Santana.
Segundo a informação que recebi dos meus pais e avós, essa capela era muito importante para a população local, na medida em que a Santa a que era dedicada desempenhava o papel moderador em todas as necessidades metereológicas dos habitantes, ao ponto de poderem, se a fé fosse suficientemente forte, ter sol na eira e chuva no nabal.
Sempre que havia uma seca prolongada, o povo ia em procissão até à capela e conduzia a imagem até à igreja matriz. Após os dias suficientes para a novena, a chuva aparecia para colmatar as necessidades. E quando havia invernias com períodos longos de chuva, ao ponto de tudo ficar inundado e não deixar fazer nada nos campos, repetia-se a devoção com o pedido adequado, que tinha o esperado sucesso.
A capela foi destruída, talvez na segunda metade do século XIX, e dela não ficou pedra sobre pedra. Não consegui qualquer notícia sobre as razões do seu abandono e destruição.
Há quem aponte determinadas pedras, nomeadamente colunatas, que foram incluídas na construção de um lagar de azeite situado bastante perto do local onde supostamente a capela se encontrava, como tendo a esta pertencido. O lagar está, por sua vez, em ruínas, mas é possível identificar algumas pedras que se distinguem. Observando-as bem, até parece que pertenceram à capela.
No que respeita à antiga imagem da Santa venerada na capela, essa foi preservada religiosamente na Igreja Matriz. É aliás uma imagem muito bonita, onde Santa Ana está com a sua menina ao colo, de livro aberto, como que a querer explicar-lhe o seu destino.
Para debelarmos a seca que nos começa a atormentar, dava jeito podermos ir à Capela de Santana e levar a Santa titular para a Igreja Matriz. Segundo a fé dos antigos, a chuva não tardaria a aparecer.
Bem, pelo sim e pelo não, na passada sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012, a missa paroquial da Igreja da Capinha foi em honra de Santa Ana. Foi encomendada pelo Povo para… pedir chuva.
Segundo a informação que recebi dos meus pais e avós, essa capela era muito importante para a população local, na medida em que a Santa a que era dedicada desempenhava o papel moderador em todas as necessidades metereológicas dos habitantes, ao ponto de poderem, se a fé fosse suficientemente forte, ter sol na eira e chuva no nabal.
Sempre que havia uma seca prolongada, o povo ia em procissão até à capela e conduzia a imagem até à igreja matriz. Após os dias suficientes para a novena, a chuva aparecia para colmatar as necessidades. E quando havia invernias com períodos longos de chuva, ao ponto de tudo ficar inundado e não deixar fazer nada nos campos, repetia-se a devoção com o pedido adequado, que tinha o esperado sucesso.
A capela foi destruída, talvez na segunda metade do século XIX, e dela não ficou pedra sobre pedra. Não consegui qualquer notícia sobre as razões do seu abandono e destruição.
Há quem aponte determinadas pedras, nomeadamente colunatas, que foram incluídas na construção de um lagar de azeite situado bastante perto do local onde supostamente a capela se encontrava, como tendo a esta pertencido. O lagar está, por sua vez, em ruínas, mas é possível identificar algumas pedras que se distinguem. Observando-as bem, até parece que pertenceram à capela.
No que respeita à antiga imagem da Santa venerada na capela, essa foi preservada religiosamente na Igreja Matriz. É aliás uma imagem muito bonita, onde Santa Ana está com a sua menina ao colo, de livro aberto, como que a querer explicar-lhe o seu destino.
Para debelarmos a seca que nos começa a atormentar, dava jeito podermos ir à Capela de Santana e levar a Santa titular para a Igreja Matriz. Segundo a fé dos antigos, a chuva não tardaria a aparecer.
Bem, pelo sim e pelo não, na passada sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012, a missa paroquial da Igreja da Capinha foi em honra de Santa Ana. Foi encomendada pelo Povo para… pedir chuva.
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quinta-feira, 7 de outubro de 2010
O instinto adivinhador das andorinhas
No último domingo, 3 de Outubro, o céu estava coberto de nuvens baixas que debitavam uma chuva fria e miudinha. Por vezes, o ambiente clareava e o sol quase que queria aparecer. Mas logo voltavam as nuvens de chumbo.
A tarde estava a começar. Estava em casa na minha Aldeia e, em certo momento, olhei para a rua e vi um bando de andorinhas a esvoaçar perto da janela. É estranho que, nesta altura do ano, ainda haja andorinhas que não iniciaram a sua longa viagem migratória. Pode até ser que sejam já residentes permanentes. Como que querendo entrar pela vidraça em arremetidas sucessivas, sem nunca chegarem a bater nos vidros, iam e vinham. Abri a janela e vi que muitas delas já se agarravam desesperadamente à parede mesmo por debaixo do beiral, como se estivessem a querer fugir e esconder-se de um invisível e temível predador, mas sem mostrarem grande receio pela minha presença. Tirei algumas fotografias para documentar este episódio anormal.
Sentei-me descontraidamente a pensar nas interpretações possíveis deste tipo de fenómeno da natureza. Cerca de cinco minutos depois, comecei a ouvir o sibilar forte do vento. Fui à janela e vi que se tinha desencadeado um vendaval de dimensão considerável. Havia muitas folhas no ar e as copas das oliveiras rodopiavam como se estivessem a ser passadas por uma enorme e invisível varinha mágica. E, de repente, a chuva começou a cair em catarata ao ponto de se formar uma cortina que tapava completamente o horizonte, permitindo apenas alguns metros de visibilidade. As valetas transformaram-se rapidamente em levadas e a estrada ficou coberta por um lençol de água como se de um ribeiro se tratasse.
Durou uns cinco minutos esta tempestade adivinhada pelas andorinhas que se abrigaram o melhor que puderam no sítio onde habitualmente se sentem mais seguras para construírem os seus ninhos: o beiral.
A tarde estava a começar. Estava em casa na minha Aldeia e, em certo momento, olhei para a rua e vi um bando de andorinhas a esvoaçar perto da janela. É estranho que, nesta altura do ano, ainda haja andorinhas que não iniciaram a sua longa viagem migratória. Pode até ser que sejam já residentes permanentes. Como que querendo entrar pela vidraça em arremetidas sucessivas, sem nunca chegarem a bater nos vidros, iam e vinham. Abri a janela e vi que muitas delas já se agarravam desesperadamente à parede mesmo por debaixo do beiral, como se estivessem a querer fugir e esconder-se de um invisível e temível predador, mas sem mostrarem grande receio pela minha presença. Tirei algumas fotografias para documentar este episódio anormal.
As andorinhas agarrando-se à parede
Sentei-me descontraidamente a pensar nas interpretações possíveis deste tipo de fenómeno da natureza. Cerca de cinco minutos depois, comecei a ouvir o sibilar forte do vento. Fui à janela e vi que se tinha desencadeado um vendaval de dimensão considerável. Havia muitas folhas no ar e as copas das oliveiras rodopiavam como se estivessem a ser passadas por uma enorme e invisível varinha mágica. E, de repente, a chuva começou a cair em catarata ao ponto de se formar uma cortina que tapava completamente o horizonte, permitindo apenas alguns metros de visibilidade. As valetas transformaram-se rapidamente em levadas e a estrada ficou coberta por um lençol de água como se de um ribeiro se tratasse.
A tempestade
Durou uns cinco minutos esta tempestade adivinhada pelas andorinhas que se abrigaram o melhor que puderam no sítio onde habitualmente se sentem mais seguras para construírem os seus ninhos: o beiral.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Festa molhada é festa abençoada
Festa molhada é festa abençoada. Assim se conforma o Povo quando as cores das festas tradicionais não se podem exibir pelas ruas da minha Aldeia. No passado Domingo, 3 de Outubro de 2010, uma chuva fria e miudinha, puxada a vento, por vezes intensa, impediu os estandartes e as bandeiras coloridas das irmandades de saírem à rua e acompanharem o Santíssimo Sacramento na saída da sua festa anual. É uma festa tradicional, celebrada no primeiro domingo de Outubro, muito colorida e animada, onde o Povo exprime a sua devoção religiosa, como que a agradecer a Deus as boas colheitas do período de Verão.
A procissão foi breve, o tempo necessário para, em andamento muito lento, dar a volta pelo interior da Igreja.
Os sons festivos da banda filarmónica não alegraram as ruas, mas acompanharam esta breve procissão.
Os pregões da tradicional quermesse de ofertas, aqui chamada “ramo”, recolheu ao ambiente limitado do espaço do Centro de Dia.
Foi, contudo, espectacular o foguetório da alvorada, que, por as nuvens estarem baixas, ecoou em ribombar impressionante, vezes sem fim, baixando de volume até se deixar de ouvir. A alvorada foi notável e bem planeada, pois não tirou ninguém da cama, já foi feita a horas aceitáveis, e incluiu várias séries de morteiros, foguetes estrelejantes e morteiros a seguir. No fim, um final rebentamento mais forte ecoou muitas vezes.
O tradicional ramo, que costumava ser leiloado junto à Igreja, foi feito, desta vez, em espaço fechado. Oxalá que a Confraria do Santíssimo consiga, este ano, face às condições adversas, juntar fundos para poder pagar as despesas da festa.
A procissão foi breve, o tempo necessário para, em andamento muito lento, dar a volta pelo interior da Igreja.
A Procissão dentro da Igreja acompanhada pela Filarmónica da Peroviseu
O filme também está no Youtube ( http://www.youtube.com/watch?v=FZj6hER_mEM).
Os sons festivos da banda filarmónica não alegraram as ruas, mas acompanharam esta breve procissão.
Os pregões da tradicional quermesse de ofertas, aqui chamada “ramo”, recolheu ao ambiente limitado do espaço do Centro de Dia.
Foi, contudo, espectacular o foguetório da alvorada, que, por as nuvens estarem baixas, ecoou em ribombar impressionante, vezes sem fim, baixando de volume até se deixar de ouvir. A alvorada foi notável e bem planeada, pois não tirou ninguém da cama, já foi feita a horas aceitáveis, e incluiu várias séries de morteiros, foguetes estrelejantes e morteiros a seguir. No fim, um final rebentamento mais forte ecoou muitas vezes.
O tradicional ramo, que costumava ser leiloado junto à Igreja, foi feito, desta vez, em espaço fechado. Oxalá que a Confraria do Santíssimo consiga, este ano, face às condições adversas, juntar fundos para poder pagar as despesas da festa.
domingo, 3 de outubro de 2010
O tear
1. O ambiente social do pós-guerra
A seguir à Segunda Guerra Mundial, ainda na década de quarenta, a vida era difícil em todo o mundo. As pessoas da minha Aldeia e as famílias, impulsionadas pela solidariedade natural, deitavam mão a tudo o que podiam para sobreviverem à grande crise que então se vivia. Nesse tempo, poucas eram as casas que tinham electricidade, que, em todo o caso, se limitava a alimentar duas ou três lâmpadas. As máquinas e utensílios domésticos são invenções muito posteriores. Não havia ainda telefone. Os cântaros faziam uma bicha permanente nas duas únicas fontes de mergulho que abasteciam a população com água potável, saborosa e fresca. A terra era um bem precioso. E quem podia ter uns metros quadrados dela com um poço para tirar água, quase sempre à custa do esforço braçal aplicado no varão de um picota, ou burra como se dizia na gíria local, já era rico. E, não sei bem porquê, ainda ninguém se tinha lembrado de introduzir as casas de banho nas habitações. Não havia serviços sociais, nem Centros de Dia. Havia um padre, um médico, e dois professores, um e uma. Nas ruas as galinhas e os porcos passeavam-se livremente, mas sempre sabiam, no fim do dia, regressar às capoeiras e aos currais dos respectivos donos. De vez em quando, vinham os Guardas Republicanos, ostensivamente fardados e armados. As pessoas fugiam deles e metiam-se em casa com medo ou desandavam furtivamente para os campos. Só alguns garotos continuavam indiferentes à presença dos guardas, envolvidos nas suas brincadeiras. Lembro-me de um dia os guardas nos terem interrompido a brincadeira e nos terem perguntado de quem eram aquelas galinhas. Nós fomos com eles à casa da dona. Um dos guardas tirou o capacete e fez sair do forro um papel dobrado e amarelecido pelo suor. E leu uma postura que proibia a vagabundagem das galinhas. E obrigou a pobre da senhora a pagar dez tostões de multa. Desde então sempre senti antipatia natural pelos guardas e polícias.
De outra vez vinha eu do campo com a minha cabrita pela rédea. Em frente ao Cemitério da Aldeia, encontrei dois guardas que desciam em sentido contrário. Ao aproximarem-se de mim, disseram:
- Ó Zé anda cá!
E logo me tiraram a rédea da mão e um deles perguntou:
- Onde é que foste passear a cabra!
- Pelos cômoros, senhor guarda!
- Hum! Tu foste mas é ao Lameiro do Senhor Conde!
- Não fui não. Fui pelo caminho e ela comeu pelos cômoros que são do povo.
O outro guarda disse:
- Deixa o garoto que já está cheio de medo.
- Então está bem. Desta vez podes ir em paz.
2. A chegada do tear
Foi neste ambiente, que, no início da década de cinquenta, por certa altura do ano, apareceu, na nossa casa, um instrumento novo. Um tear novinho em folha saído das mãos de um carpinteiro da Aldeia. Ainda sinto o cheiro da madeira nova aparelhada e ouço o roçar da plaina a fazer os últimos ajustamentos para facilitar os encaixes.
A partir de então, a vida mudou muito na nossa casa, pois todos os serões passaram a incluir trabalhos de apoio ao tear.
Era uma grande azáfama permanente. Havia pelos cantos pacotes com meadas de algodão branco, inicialmente comprados pela minha Mãe no Fundão e mais tarde trazidos por fornecedores. Roupas velhas cheirando a lavagem recente eram esfarripadas em ourelos que eram enrolados em novelos que quase chegavam a atingir metade do tamanho actual de uma bola de futebol.
Numa segunda fase, os ourelos eram estirados e enrolados em meias canas de cerca de meio metro, formando as canelas que depois passavam por entre as fiadas de algodão no tear.
As meadas de algodão eram postas, uma a uma, no argadilho (dobadeira) que rodava constantemente puxada pelo fio que ia alimentando o novelo redondo até este ter o tamanho um pouco maior do que uma vulgar bola de ténis.
As canelas de ourelos eram preparadas às cores para depois serem usadas segundo o critério e o gosto da tecedeira para a manta ficar mais ou menos colorida.
Vinha a seguir a tarefa de carregar o tear com o algodão. Era um trabalho que tinha de ser feito com paciência e que podia levar alguns dias. Um grande número de novelos de algodão, que variava segundo a largura da manta, desfazia-se lentamente, sendo os respectivos fios enrolados simultaneamente, de maneira ordenada, no carreto da frente do tear.
Depois, cada um dos fios era puxado e passado por dois obstáculos. O primeiro era o dos braços de cruzamento, passando cada fio pela janela de um araminho de um dos braços, de modo alternado.
Estes braços eram accionados por pedais, subindo um e descendo o outro, deixando uma folga entre as camadas dos respectivos fios por onde era passada a canela com os ourelos. A seguir, todos os fios passavam no pente do batente e eram depois enrolados no carreto de trás. Este carreto acolhia, no começo, só fios de algodão, mas, passado cerca de um metro, começava a manta a chegar.
3. A tecelagem
Pam, pam, pam!.. Pam, pam, pam! Por dias sucessivos, de manhã à noite, as séries de pancadinhas não paravam e acabaram por se transformar num ruído de fundo monótono como o dos ponteiros do relógio.
Quando a cliente queria a manta bem batida, as séries podiam ter quatro ou cinco pancadas.
Às vezes havia urgências. Era o filho ou a filha que se ia casar ou emigrar e era importante levar a manta novinha. E então a tecelagem prolongava-se pelo serão, rendendo-se as tecedeiras, a minha Mãe e as minhas irmãs, no posto de trabalho.
Na aldeia chegou a haver várias tecedeiras, mas sempre ouvi elogiar as mantas tecidas pelas mulheres da nossa casa. Eram bem batidas e coloridas com gosto, num algodão de qualidade. Quentinhas no Inverno e frescas no Verão. Foi um produto que sempre teve escoamento assegurado. Não me lembro de alguma vez ter havido em stock uma manta sequer.
A seguir à Segunda Guerra Mundial, ainda na década de quarenta, a vida era difícil em todo o mundo. As pessoas da minha Aldeia e as famílias, impulsionadas pela solidariedade natural, deitavam mão a tudo o que podiam para sobreviverem à grande crise que então se vivia. Nesse tempo, poucas eram as casas que tinham electricidade, que, em todo o caso, se limitava a alimentar duas ou três lâmpadas. As máquinas e utensílios domésticos são invenções muito posteriores. Não havia ainda telefone. Os cântaros faziam uma bicha permanente nas duas únicas fontes de mergulho que abasteciam a população com água potável, saborosa e fresca. A terra era um bem precioso. E quem podia ter uns metros quadrados dela com um poço para tirar água, quase sempre à custa do esforço braçal aplicado no varão de um picota, ou burra como se dizia na gíria local, já era rico. E, não sei bem porquê, ainda ninguém se tinha lembrado de introduzir as casas de banho nas habitações. Não havia serviços sociais, nem Centros de Dia. Havia um padre, um médico, e dois professores, um e uma. Nas ruas as galinhas e os porcos passeavam-se livremente, mas sempre sabiam, no fim do dia, regressar às capoeiras e aos currais dos respectivos donos. De vez em quando, vinham os Guardas Republicanos, ostensivamente fardados e armados. As pessoas fugiam deles e metiam-se em casa com medo ou desandavam furtivamente para os campos. Só alguns garotos continuavam indiferentes à presença dos guardas, envolvidos nas suas brincadeiras. Lembro-me de um dia os guardas nos terem interrompido a brincadeira e nos terem perguntado de quem eram aquelas galinhas. Nós fomos com eles à casa da dona. Um dos guardas tirou o capacete e fez sair do forro um papel dobrado e amarelecido pelo suor. E leu uma postura que proibia a vagabundagem das galinhas. E obrigou a pobre da senhora a pagar dez tostões de multa. Desde então sempre senti antipatia natural pelos guardas e polícias.
De outra vez vinha eu do campo com a minha cabrita pela rédea. Em frente ao Cemitério da Aldeia, encontrei dois guardas que desciam em sentido contrário. Ao aproximarem-se de mim, disseram:
- Ó Zé anda cá!
E logo me tiraram a rédea da mão e um deles perguntou:
- Onde é que foste passear a cabra!
- Pelos cômoros, senhor guarda!
- Hum! Tu foste mas é ao Lameiro do Senhor Conde!
- Não fui não. Fui pelo caminho e ela comeu pelos cômoros que são do povo.
O outro guarda disse:
- Deixa o garoto que já está cheio de medo.
- Então está bem. Desta vez podes ir em paz.
2. A chegada do tear
Foi neste ambiente, que, no início da década de cinquenta, por certa altura do ano, apareceu, na nossa casa, um instrumento novo. Um tear novinho em folha saído das mãos de um carpinteiro da Aldeia. Ainda sinto o cheiro da madeira nova aparelhada e ouço o roçar da plaina a fazer os últimos ajustamentos para facilitar os encaixes.
O tear
Era uma grande azáfama permanente. Havia pelos cantos pacotes com meadas de algodão branco, inicialmente comprados pela minha Mãe no Fundão e mais tarde trazidos por fornecedores. Roupas velhas cheirando a lavagem recente eram esfarripadas em ourelos que eram enrolados em novelos que quase chegavam a atingir metade do tamanho actual de uma bola de futebol.
Novelos de ourelos
Numa segunda fase, os ourelos eram estirados e enrolados em meias canas de cerca de meio metro, formando as canelas que depois passavam por entre as fiadas de algodão no tear.
Novelos de ourelos e canelas
As meadas de algodão eram postas, uma a uma, no argadilho (dobadeira) que rodava constantemente puxada pelo fio que ia alimentando o novelo redondo até este ter o tamanho um pouco maior do que uma vulgar bola de ténis.
O argadilho
Os braços de cruzamento e o batente
O carreto da frente e o de trás
Régua usada para ajudar a carregar o tear evitando o eriçar dos fios de algodão
Estes braços eram accionados por pedais, subindo um e descendo o outro, deixando uma folga entre as camadas dos respectivos fios por onde era passada a canela com os ourelos. A seguir, todos os fios passavam no pente do batente e eram depois enrolados no carreto de trás. Este carreto acolhia, no começo, só fios de algodão, mas, passado cerca de um metro, começava a manta a chegar.
O pente ancaixado no batente
3. A tecelagem
Pam, pam, pam!.. Pam, pam, pam! Por dias sucessivos, de manhã à noite, as séries de pancadinhas não paravam e acabaram por se transformar num ruído de fundo monótono como o dos ponteiros do relógio.
Quando a cliente queria a manta bem batida, as séries podiam ter quatro ou cinco pancadas.
Às vezes havia urgências. Era o filho ou a filha que se ia casar ou emigrar e era importante levar a manta novinha. E então a tecelagem prolongava-se pelo serão, rendendo-se as tecedeiras, a minha Mãe e as minhas irmãs, no posto de trabalho.
Na aldeia chegou a haver várias tecedeiras, mas sempre ouvi elogiar as mantas tecidas pelas mulheres da nossa casa. Eram bem batidas e coloridas com gosto, num algodão de qualidade. Quentinhas no Inverno e frescas no Verão. Foi um produto que sempre teve escoamento assegurado. Não me lembro de alguma vez ter havido em stock uma manta sequer.
Vista lateral do tear
Este tear está velho e desfaz-se em pó de caruncho quando lhe tocamos. No entanto, espero que ainda possa servir de modelo para, a partir dele, fazermos uma cópia nova. Espero dar notícias em breve.
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sábado, 2 de outubro de 2010
Quando ter história é ter muitos anos e ser diferente
Junto à minha casa da aldeia, há uma construção de certo modo estranha por ter, em relação às outras, alguns motivos de interessante diferenciação: a forma rectangular, uma única porta da entrada ao meio da fachada principal, a inexistência de janelas, o volume das pedras em paralelepípedo que integram as suas paredes muito grossas, o rigor com que essas pedras foram talhadas e encaixadas umas nas outras e o resto daquilo que terá constituído a cobertura inicial que terá sido de pequenas lajes de granito.
Desde o início do sempre da minha existência que passo no local e que vejo a casa ali sem reparar bem nela.
Porém, um dia destes, um dos vizinhos, ao passar por mim no local e após me dar os bons dias, comentou, chamando-me a atenção para a construção em causa:
- Esta casa tem história.
- Sabe alguma história acerca desta casa? Perguntei.
- Não sei. E o Senhor sabe? Retorquiu ele.
- Eu sei que, nos anos cinquenta ou sessenta, era aqui guardada uma junta de valentes bois castanhos e que o rapaz que cuidava deles dormia lá dentro numa tarimba elevada do chão e encostada à parede da retaguarda, que eu cheguei a ver. Disse eu.
- E chamava-se José Nabinho e emigrou cedo para França e ainda por lá anda. Acrescentou ele.
- Esta é a história que eu sei. Concluí eu.
- Mas isso é aquilo que toda a gente sabe e, por isso, não é história. História é ser uma construção antiga e ter muitos anos. E ser um tipo de construção diferente dos outros à volta.
Assim sendo, tem razão o meu vizinho. A construção em causa reúne as características para ter uma longa história.
A frente da casa com história
Porém, um dia destes, um dos vizinhos, ao passar por mim no local e após me dar os bons dias, comentou, chamando-me a atenção para a construção em causa:
Vestígios da cobertura primitiva
- Esta casa tem história.
- Sabe alguma história acerca desta casa? Perguntei.
- Não sei. E o Senhor sabe? Retorquiu ele.
- Eu sei que, nos anos cinquenta ou sessenta, era aqui guardada uma junta de valentes bois castanhos e que o rapaz que cuidava deles dormia lá dentro numa tarimba elevada do chão e encostada à parede da retaguarda, que eu cheguei a ver. Disse eu.
- E chamava-se José Nabinho e emigrou cedo para França e ainda por lá anda. Acrescentou ele.
- Esta é a história que eu sei. Concluí eu.
- Mas isso é aquilo que toda a gente sabe e, por isso, não é história. História é ser uma construção antiga e ter muitos anos. E ser um tipo de construção diferente dos outros à volta.
Assim sendo, tem razão o meu vizinho. A construção em causa reúne as características para ter uma longa história.
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010
A PAISAGEM QUEIMADA, QUE DESOLAÇÃO!
Numa postagem anterior em que falava das concentrações de andorinhas e de cegonhas, pus a hipótese de tal fenómeno, quase simultâneo, poder ser atribuído ao cheiro a queimado que pairava no ar, se bem que os fogos que eram noticiados estavam bem longe da minha aldeia.
Há dias chegou-me a notícia de que um fogo grande tinha passado por lá e tinha atingido uma das minhas propriedades.
No domingo passado, resolvi acordar cedo e ir ver com os meus próprios olhos os danos e assistir ao nascer do sol que, nesta altura do ano, surge glorioso por cima das serras da Malcata e da Senhora da Póvoa.
Há experiências que nunca conseguimos transmitir aos outros porque a descrição, por mais tentada e ensaiada que seja, nunca é completa, por não ser capaz da transmitir todas as componentes do ambiente complexo do cenário, dos cheiros, dos sons e das sensações.
Toda a vista para a serra do lado norte é negra e desoladora.
E quando o sol surge, tem dificuldade em passar por entre uma densa neblina de fumos de fogos ainda recentes, ou talvez ainda activos.
Com sorte, começo a ver o verde das minhas oliveiras e videiras, numa mancha de verdura que conseguiu escapar à orgia incendiária de demónios, não imaginários, mas reais.
Olho mais atentamente e verifico que apenas as filas de videiras mais perto dos vizinhos foram atingidas.
Mas mais abaixo sou particularmente tocado pela tristeza, quando verifico que cerca de vinte oliveirinhas, já plantadas por mim e que já começavam a dar fruto, estão tostadas. Toco-lhes na rama e esta desfaz-se em pó. Dobro um ramo e ele parte-se já sem vida.
Mais desolado fico quando observo a propriedade do meu vizinho.
A última vez que o encontrei ali, já uns dois anos atrás, ele, embora de idade avançada, andava de enxada em punho a fazer os cadabulhos junto às oliveiras. Não se cansou de me transmitir o seu grande amor a tudo aquilo. Há muitas dezenas de anos que vivia na casa lá em baixo e só tinha ido três vezes à povoação. A sua casa era maior, mas fora atingida violentamente por um raio, vivendo agora na parte que foi poupada. Hoje sei que ele já não está em condições de avaliar a miséria em que a sanha incendiária de malfeitores lhe deixou a vinha e o olival de que durante tantos anos cuidou.
E bastou não os cuidar nos últimos dois anos para agora estarem reduzidos a carvão.
Talvez, por isso, foi colocado, creio que pelo seu filho, numa extremidade junto à estrada, ainda com tinta fresca, o anúncio de venda.
Que tristeza e que desolação para quem ama a terra.
Um pouco mais abaixo, na Quinta do Carvalhal, vou encontrar novamente concentradas as cegonhas junto à manada das vacas da Quinta e aos repuxos da rega. As encostas onde habitualmente procuram o seu sustento estão mortas.
Há dias chegou-me a notícia de que um fogo grande tinha passado por lá e tinha atingido uma das minhas propriedades.
No domingo passado, resolvi acordar cedo e ir ver com os meus próprios olhos os danos e assistir ao nascer do sol que, nesta altura do ano, surge glorioso por cima das serras da Malcata e da Senhora da Póvoa.
Há experiências que nunca conseguimos transmitir aos outros porque a descrição, por mais tentada e ensaiada que seja, nunca é completa, por não ser capaz da transmitir todas as componentes do ambiente complexo do cenário, dos cheiros, dos sons e das sensações.
Toda a vista para a serra do lado norte é negra e desoladora.
O intenso cheiro a queimado condiz com a vasta paisagem de carvão. O fogo começou muitos quilómetros acima, na Quinta de Santo António, e veio por aí abaixo consumindo o mato, carvalhos, castanheiros, cerejeiras, oliveiras e vinhas. Não há aves como há uns tempos atrás, a não ser um grupo de corvos que, mesmo ali em frente, andam numa roda viva, talvez debicando os restos do cadáver de um animal de maior porte que terá perecido no incêndio.
E quando o sol surge, tem dificuldade em passar por entre uma densa neblina de fumos de fogos ainda recentes, ou talvez ainda activos.
Com sorte, começo a ver o verde das minhas oliveiras e videiras, numa mancha de verdura que conseguiu escapar à orgia incendiária de demónios, não imaginários, mas reais.
Mas mais abaixo sou particularmente tocado pela tristeza, quando verifico que cerca de vinte oliveirinhas, já plantadas por mim e que já começavam a dar fruto, estão tostadas. Toco-lhes na rama e esta desfaz-se em pó. Dobro um ramo e ele parte-se já sem vida.
Mais desolado fico quando observo a propriedade do meu vizinho.
A última vez que o encontrei ali, já uns dois anos atrás, ele, embora de idade avançada, andava de enxada em punho a fazer os cadabulhos junto às oliveiras. Não se cansou de me transmitir o seu grande amor a tudo aquilo. Há muitas dezenas de anos que vivia na casa lá em baixo e só tinha ido três vezes à povoação. A sua casa era maior, mas fora atingida violentamente por um raio, vivendo agora na parte que foi poupada. Hoje sei que ele já não está em condições de avaliar a miséria em que a sanha incendiária de malfeitores lhe deixou a vinha e o olival de que durante tantos anos cuidou.
E bastou não os cuidar nos últimos dois anos para agora estarem reduzidos a carvão.
Talvez, por isso, foi colocado, creio que pelo seu filho, numa extremidade junto à estrada, ainda com tinta fresca, o anúncio de venda.
Que tristeza e que desolação para quem ama a terra.
Um pouco mais abaixo, na Quinta do Carvalhal, vou encontrar novamente concentradas as cegonhas junto à manada das vacas da Quinta e aos repuxos da rega. As encostas onde habitualmente procuram o seu sustento estão mortas.
Talvez aí, junto à manada e aos repuxos de água, consigam sobreviver.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
ANDORINHAS E CEGONHAS, TOCA A REUNIR !!!
Hoje, 8 de Agosto de 2010, domingo, Portugal está debaixo de verdadeira canícula, acima dos 35 graus. Deveria ser a oportunidade para um relaxante repouso, acompanhado apenas dos relatos e reportagens das imensas festas populares e romarias que, por esta altura, se fazem pelo País inteiro.
Os noticiários, contudo, falam de factos dramáticos, num tom severo como se estivessem a relatar a terceira guerra mundial. Da Rússia ao Paquistão, passando pela Alemanha, Checoslováquia e Lituânia, há importantes forças terrestres e aéreas em acção contra incêndios e inundações de catastróficas dimensões. Na Rússia, há aldeias inteiras queimadas, com muitos mortos. E agora acaba de aparecer a notícia da destruição, pelo fogo, de uma fábrica de sofisticado armamento.
É a guerra global de um inimigo tentacular, desconhecido, só visível pelos danos trágicos que provoca.
O nosso País não foge a este cenário de catástrofe. Na última semana, houve uma média superior a 400 fogos diários. Num só dia, foram 451, quase todos a norte do Rio Mondego, precisamente a zona do País em que há mais desemprego. Estão a arder, nomeadamente, a Serra da Gralheira, em S. Pedro do Sul, o Parque Natural do Gerês, as serras de Tabuaço. Os meios terrestres e aéreos são elevados, mas não o suficiente para apagar a tempo esses inexplicáveis fogos que continuam a devastar as nossas florestas.
Há uma neblina a encobrir o céu. Parece ser uma mistura de humidade com fumo, pois, embora não havendo notícia de fogos nas proximidades da aldeia, a Capinha, é notório um marcante odor a queimado.
Não sei bem se, por virtude desta neblina híbrida e do cheiro a queimado ou por outra razão qualquer, foi possível observar, quase à mesma hora, dois fenómenos da natureza que parecem inusitados: uma enorme concentração de andorinhas e outra de cegonhas.
Postadas nos fios, parecem ter receio de levantar voo para não perderem o lugar. Por vezes, esticam uma asita, depois a outra, alisam as penas com os bicos e esticam a cabeça, como que a espreguiçar-se.
Num outro lugar, não muito distante, nos limites da Capinha com os Vales, está, quase ao mesmo tempo, a formar-se uma grande concentração de cegonhas.
Estas preferem as copas redondas e verdes das árvores, onde se podem ver poisadas, destacadas pelo seu porte altivo e pelas suas cores preta e branca.
O seu auto-teste de aptidão é feito em voos mais demorados, subindo em espiral até uma altura considerável e esvoaçando depois em círculos com leve perda de altura até voltarem novamente a poisar.
Terão estas concentrações a ver com os fogos? Com a neblina híbrida de fumo e humidade? Com o odor a queimado que paira no ar? Com o intenso calor, que toda a gente considera anormal? Ou estará em causa apenas o cumprir do calendário da natureza que determina que, em certo momento, estas aves têm de emigrar para outras paragens? Quem lhes fixou a data, a hora e o local da concentração? Quem é que, afinal, disse “andorinhas e cegonhas, toca a reunir?"
Gostava de poder dar resposta cabal a estas questões.
(Nota: As fotos das cegonhas foram tiradas por Sebastien Poupier)
Os noticiários, contudo, falam de factos dramáticos, num tom severo como se estivessem a relatar a terceira guerra mundial. Da Rússia ao Paquistão, passando pela Alemanha, Checoslováquia e Lituânia, há importantes forças terrestres e aéreas em acção contra incêndios e inundações de catastróficas dimensões. Na Rússia, há aldeias inteiras queimadas, com muitos mortos. E agora acaba de aparecer a notícia da destruição, pelo fogo, de uma fábrica de sofisticado armamento.
É a guerra global de um inimigo tentacular, desconhecido, só visível pelos danos trágicos que provoca.
O nosso País não foge a este cenário de catástrofe. Na última semana, houve uma média superior a 400 fogos diários. Num só dia, foram 451, quase todos a norte do Rio Mondego, precisamente a zona do País em que há mais desemprego. Estão a arder, nomeadamente, a Serra da Gralheira, em S. Pedro do Sul, o Parque Natural do Gerês, as serras de Tabuaço. Os meios terrestres e aéreos são elevados, mas não o suficiente para apagar a tempo esses inexplicáveis fogos que continuam a devastar as nossas florestas.
Há uma neblina a encobrir o céu. Parece ser uma mistura de humidade com fumo, pois, embora não havendo notícia de fogos nas proximidades da aldeia, a Capinha, é notório um marcante odor a queimado.
Não sei bem se, por virtude desta neblina híbrida e do cheiro a queimado ou por outra razão qualquer, foi possível observar, quase à mesma hora, dois fenómenos da natureza que parecem inusitados: uma enorme concentração de andorinhas e outra de cegonhas.
A Rua do Espírito Santo, na Capinha, foi o sítio escolhido pelas andorinhas. Em todos os fios e antenas que lhes podem servir de poiso, os espaços estão milimetricamente ocupados por centenas, talvez milhares dessas graciosas aves, que comunicam entre si através de constantes e estridentes chilreios.
Postadas nos fios, parecem ter receio de levantar voo para não perderem o lugar. Por vezes, esticam uma asita, depois a outra, alisam as penas com os bicos e esticam a cabeça, como que a espreguiçar-se.
As mais atrevidas lá ensaiam um voo breve, a fazer o teste de que tudo está pronto para a grande viagem da migração anual para outras paragens. Mas quando voltam, o seu lugar já está ocupado e retomam o voo para ir procurar um outro poiso um pouco mais longe.
O seu auto-teste de aptidão é feito em voos mais demorados, subindo em espiral até uma altura considerável e esvoaçando depois em círculos com leve perda de altura até voltarem novamente a poisar.
Esperava que libertassem os sons característicos do matraquear dos seus bicos. Mas é enorme o silêncio para um tão elevado número de cegonhas.
Gostava de poder dar resposta cabal a estas questões.
(Nota: As fotos das cegonhas foram tiradas por Sebastien Poupier)
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sábado, 19 de junho de 2010
NO DIA EM QUE PORTUGAL DIZ O ÚLTIMO ADEUS A JOSÉ SARAMAGO
No dia em que Portugal diz o último adeus a José Saramago, não resisto a escrever uma nota sobre ele, pessoa que muito admiro como escritor. Devo dizer que li a maioria dos seus livros. A maneira como se exprime agrada-me muito. A sua escrita tem subjacente uma entoação oral, onde a leitura escorre como se a estivéssemos a ouvir da voz de um leitor apaixonado. As ideias fortes, embora em frases longas, não são cortadas com pontos finais. Por outro lado, as vírgulas e exclamações ajustam-se às necessidades de respiração e de entoação de voz desse leitor imaginário que sempre me faz companhia quando leio Saramago. Admiro-o como escritor e como pessoa. Contudo, quero referir que, como vivi intensamente o período do 25 de Novembro de 1975, não me esqueço do que, na altura, se contou sobre ele, quando, revolucionariamente, ganhou poder dentro do Diário de Notícias.
Encontrei-me com ele frente a frente, em diálogo, apenas uma vez. Foi em 16 de Junho de 2001, na Feira do Livro, em Lisboa, no Parque Eduardo VII. Tinha acabado de adquirir um dos seus livros então mais recentes e reparei que ele se estava a sentar a uma mesa de campanha com uma caneta na mão.
Vai dar autógrafos, pensei, e dirigi-me a ele imediatamente. Pedi-lhe que me autografasse um dos livros, a que ele acedeu de imediato dizendo que estava ali para essa faina. Entreguei-lhe o livro, perguntou-me como me chamava e escreveu o autógrafo com referência ao meu nome.
A seguir olhou para mim e perguntou-me se gostava de ler a sua obra e que livros dele já tinha lido. Mencionei alguns, mas dei por mim a criticar A Caverna que, justamente tinha acabado de ler. Aí, referi-lhe que não tinha apreciado muito a comparação que faz entre um moderno centro comercial e uma caverna funda, fria e escura.
Em resposta, ele pôs a tampa na caneta, depositou-a com estrondo sobre a mesa, levantou-se, meteu as mãos nos bolsos e, com uma cara carrancuda e uma voz agressiva, debitou, mais ou menos o seguinte discurso.
“Ó Senhor António Ramos, nem parece que vive numa cidade. Mais parece que nunca entrou num centro comercial. Se já lá foi, ainda não viu como é que o capitalismo lhe chupa o seu dinheiro. Embala tudo muito bem, em pacotes de quatro unidades ou mais e obriga-o a comprar um pacote inteiro mesmo que precise só de uma unidade. Isto é o capitalismo feroz a retê-lo na caverna do consumo. E que maior escuridão pode imaginar do que o consumismo capitalista ? “
Como falava muito alto, atraiu a atenção das pessoas que passavam e a fila ficou rapidamente muito longa. Reparei que havia já várias pessoas a tirar-nos fotografias.
Sentou-se num movimento rápido e disse:
“Vá pensar naquilo que lhe eu lhe disse e veja se tenho ou não razão!”
E, entregando-me o livro autografado, gritou:
“O próximo por favor!”
Sou um admirador de Saramago não só por ser um grande escritor mas também pelas seguintes referências simpáticas que faz à minha aldeia, a Capinha, na sua “Viagem a Portugal”:
“ Da Covilhã o viajante decidiu ir à Capinha. Não o levam lá especiais razões, salvo a estrada romana que seria um ramal da que, vinda de Egitânia, seguia para Centum Cellae. Nesse tempo, Capinha, chamava-se Talabara, nome que deve ser próximo parente das Talaveras castelhanas, se isto não são imaginações linguísticas do viajante, pessoa bem menos erudita do que parece às vezes. Capinha é uma aldeia agradável e onde facilmente se encontra o que se procura. Põe o viajante pé em terra, pergunta ao primeiro passante onde fica a estrada romana e logo ele o vai acompanhar, dá-lhe as indicações, subir esta calçada, atravessar uns campos, é aí. Este passante era o padre do lugar, homem novo e dasafrontado com quem o viajante virá a ter largas e debatidas conversas, caso que não é para aqui, mas aqui começou. Veio o viajante de ver a estrada romana e fez novo conhecimento, um antigo motorista da praça de Lisboa que lhe quis mostrar as fontes de Capinha, provavelmente setecentistas. É um entusiasta político este homem muito amante da sua terra, esta onde vive e a outra geral de todos nós.
O viajante é um homem rico: aonde chega, arranja amigos.
Passa o viajante a ribeira da Meimoa e segue direito a Penamacor ... “
(Extracto do livro "Viagem a Portugal”, Editorial Caminho, 1999.)
Saramago já nada pode acrescentar sobre as largas e debatidas conversas que diz ter tido na Capinha. Espero ter o privilégio de as conhecer através da escrita do nosso Bom Amigo Padre António Gama, que é o padre do lugar, homem novo e desafrontado mencionado no texto transcrito.
A calçada romana mencionada no texto que atraiu José Saramago à Capinha foi, incompreensivelmente, pura e simplesmente arrancada por uma das anteriores gerências da Autarquia Local para dar lugar a uma moderna e vulgar rua calcetada com pequenas pedras de granito.
Não sei quem terá sido o feliz passante que foi taxista em Lisboa e que teve o privilégio de mostrar as fontes de mergulho da Capinha a José Saramago.
Que José Saramago, grande Português, verdadeiro Cidadão do Mundo, requiescat in pace.
P.S. - Fomos informados de que o feliz passante que foi taxista em Lisboa e que teve o privilégio de mostrar as fontes de mergulho da Capinha a José Saramago foi o Sr. Manuel Bernardo, presentemente com quase 90 anos, e que é um dos utentes assíduos do Centro de Dia da Capinha. Será que ele se chegou a aperceber de que o visitante era o José Saramago?
Encontrei-me com ele frente a frente, em diálogo, apenas uma vez. Foi em 16 de Junho de 2001, na Feira do Livro, em Lisboa, no Parque Eduardo VII. Tinha acabado de adquirir um dos seus livros então mais recentes e reparei que ele se estava a sentar a uma mesa de campanha com uma caneta na mão.
Vai dar autógrafos, pensei, e dirigi-me a ele imediatamente. Pedi-lhe que me autografasse um dos livros, a que ele acedeu de imediato dizendo que estava ali para essa faina. Entreguei-lhe o livro, perguntou-me como me chamava e escreveu o autógrafo com referência ao meu nome.
Em resposta, ele pôs a tampa na caneta, depositou-a com estrondo sobre a mesa, levantou-se, meteu as mãos nos bolsos e, com uma cara carrancuda e uma voz agressiva, debitou, mais ou menos o seguinte discurso.
“Ó Senhor António Ramos, nem parece que vive numa cidade. Mais parece que nunca entrou num centro comercial. Se já lá foi, ainda não viu como é que o capitalismo lhe chupa o seu dinheiro. Embala tudo muito bem, em pacotes de quatro unidades ou mais e obriga-o a comprar um pacote inteiro mesmo que precise só de uma unidade. Isto é o capitalismo feroz a retê-lo na caverna do consumo. E que maior escuridão pode imaginar do que o consumismo capitalista ? “
Como falava muito alto, atraiu a atenção das pessoas que passavam e a fila ficou rapidamente muito longa. Reparei que havia já várias pessoas a tirar-nos fotografias.
Sentou-se num movimento rápido e disse:
“Vá pensar naquilo que lhe eu lhe disse e veja se tenho ou não razão!”
E, entregando-me o livro autografado, gritou:
“O próximo por favor!”
Sou um admirador de Saramago não só por ser um grande escritor mas também pelas seguintes referências simpáticas que faz à minha aldeia, a Capinha, na sua “Viagem a Portugal”:
“ Da Covilhã o viajante decidiu ir à Capinha. Não o levam lá especiais razões, salvo a estrada romana que seria um ramal da que, vinda de Egitânia, seguia para Centum Cellae. Nesse tempo, Capinha, chamava-se Talabara, nome que deve ser próximo parente das Talaveras castelhanas, se isto não são imaginações linguísticas do viajante, pessoa bem menos erudita do que parece às vezes. Capinha é uma aldeia agradável e onde facilmente se encontra o que se procura. Põe o viajante pé em terra, pergunta ao primeiro passante onde fica a estrada romana e logo ele o vai acompanhar, dá-lhe as indicações, subir esta calçada, atravessar uns campos, é aí. Este passante era o padre do lugar, homem novo e dasafrontado com quem o viajante virá a ter largas e debatidas conversas, caso que não é para aqui, mas aqui começou. Veio o viajante de ver a estrada romana e fez novo conhecimento, um antigo motorista da praça de Lisboa que lhe quis mostrar as fontes de Capinha, provavelmente setecentistas. É um entusiasta político este homem muito amante da sua terra, esta onde vive e a outra geral de todos nós.
O viajante é um homem rico: aonde chega, arranja amigos.
Passa o viajante a ribeira da Meimoa e segue direito a Penamacor ... “
(Extracto do livro "Viagem a Portugal”, Editorial Caminho, 1999.)
Saramago já nada pode acrescentar sobre as largas e debatidas conversas que diz ter tido na Capinha. Espero ter o privilégio de as conhecer através da escrita do nosso Bom Amigo Padre António Gama, que é o padre do lugar, homem novo e desafrontado mencionado no texto transcrito.
A calçada romana mencionada no texto que atraiu José Saramago à Capinha foi, incompreensivelmente, pura e simplesmente arrancada por uma das anteriores gerências da Autarquia Local para dar lugar a uma moderna e vulgar rua calcetada com pequenas pedras de granito.
Não sei quem terá sido o feliz passante que foi taxista em Lisboa e que teve o privilégio de mostrar as fontes de mergulho da Capinha a José Saramago.
Que José Saramago, grande Português, verdadeiro Cidadão do Mundo, requiescat in pace.
P.S. - Fomos informados de que o feliz passante que foi taxista em Lisboa e que teve o privilégio de mostrar as fontes de mergulho da Capinha a José Saramago foi o Sr. Manuel Bernardo, presentemente com quase 90 anos, e que é um dos utentes assíduos do Centro de Dia da Capinha. Será que ele se chegou a aperceber de que o visitante era o José Saramago?
domingo, 14 de março de 2010
EM TREZE DE MARÇO, OS SINAIS DA PRIMAVERA
O Inverno tem sido rigoroso. Na Capinha, a minha aldeia, caíram três nevões, sendo que o maior foi no dia dez de Janeiro. Tem chovido copiosamente e feito muito frio.
Mas hoje foi um dia de sol, que encheu de júbilo a natureza e nos convidou a sair para o campo para vermos os sinais da natureza a despertar.
Os ramos dos carvalhos explodem em rebentos arrocheados. As mimosas apresentam-se, aqui e ali na paisagem, em manchas amareladas. As árvores que irão dar a fruta de caroço expandem os seus ramos cobertos de flores rosadas. Os prados vestem-se com os lençóis brancos das flores da margaça e, aqui e ali, com as cobertas das flores amarelas dos nabais.
Contudo, esta tarde, para além destas manifestações normais do acordar da natureza, tivemos a oportunidade de ver um inusitado sinal da Primavera.
À saída da Capinha, na estrada para Penamacor, há, junto à curva mais próxima da placa toponímica, no lado esquerdo, um palheiro com paredes de xisto que nós conhecemos por Palheiro dos Leais. Pois, ao começo da tarde, quando íamos passar no local de carro, vimos levantar-se do telhado desse palheiro uma enorme ave, talvez uma águia real, que seguiu baixinha, à nossa frente, sobre a estrada, durante alguns segundos, segurando nas garras das patas uma cobra, bem compridita mas miudinha, que se remexia em ziguezague. Vimos claramente que era agarrada a uns dez centímetros da cabeça, retorcendo desesperadamente o resto do corpo. Passados alguns segundos, a portentosa ave dirigiu o seu voo para a direita, mergulhando no campo visual, seguramente para saborear em sossego a sua presa, que o sol da Primavera tirara do sono da hibernação. Esta cobra estendeu-se nas telhas do palheiro para se aquecer, mas foi surpreendida pela investida inesperada da águia, cuja vista, de muito longo alcance, facilmente a detectou.
Mas hoje foi um dia de sol, que encheu de júbilo a natureza e nos convidou a sair para o campo para vermos os sinais da natureza a despertar.
(As flores amarelas dos nabais)
Os ramos dos carvalhos explodem em rebentos arrocheados. As mimosas apresentam-se, aqui e ali na paisagem, em manchas amareladas. As árvores que irão dar a fruta de caroço expandem os seus ramos cobertos de flores rosadas. Os prados vestem-se com os lençóis brancos das flores da margaça e, aqui e ali, com as cobertas das flores amarelas dos nabais.
Contudo, esta tarde, para além destas manifestações normais do acordar da natureza, tivemos a oportunidade de ver um inusitado sinal da Primavera.
(Os lençóis brancos da flor da margaça)
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sábado, 13 de março de 2010
A CAPINHA NA ROTA DA TRANSUMÂNCIA DA SERRA DA ESTRELA
"Novembro avançava e, com ele, o frio, cada vez mais forte. Já caíra neve na Torre e nas Penhas e as ervagens de Manteigas estavam esgotadas. Era a época em que, anualmente, se iniciava a transumância, levando-se o gado para longínquas campinas, onde a invernia se fizesse sentir menos. O primeiro rebanho a abalar, para a viagem de cinco, seis dias, que tanto exigia a caminhada dali até Idanha , fora o do Canholas, com ovelhas de mais quatro pastores. Outros partiram depois e, por fim, o do Valadares, o do velho Jerónimo Latoeiro, o do Aniceto e o da tia Luciana largaram também, num só grupo, para poupar condutores. Eram quase trezentas ovelhas, brancas e negras, mosaico que cobria toda a largueza da estrada, a caminho da terra baixa. À frente e aos lados, mantinham guarda o Lanzudo e outros cães, menos o Piloto que fora considerado débil para a longa jornada. Atrás marchavam o Horácio, o Tónio, o Aniceto, o Libânio, filho do tio Jerónimo, e um burro por cada homem. Os onagros transportavam bardos e ferradas; e os seus alforges, com alimentos no fundo, guardavam espaço para a recolha de cordeiros que dessem em nascer, como sempre acontecia, durante o trânsito. As ovelhas ora marchavam lestas e muito juntas ao seu passo curto, se gritos ou pedradas a isso as impeliam; ora abriam clareiras no rebanho e cortavam à esquerda e à direita, à cata de pasto vizinho da estrada. Às vezes, os seus focinhos orientavam-se para folhagem que tinha dono sempre pronto a barafustar contra as ladras; e, por mor dessas queixas, e até de multas policiais, outras pedras e outros berros caíam sobre as famintas, que retomavam o caminho, na esperança de serem, além, mais felizes. Por Belmonte, Caria e Capinha, elas iam seguindo o seu destino, dormindo onde a noite tombava, longe dos povoados, que nas redondezas destes a cama era-lhes proibida, e levantando-se mal clareava o céu, para continuarem a marcha, sempre com os burros à cauda e, atrás dos burros, os homens. E brancas e negras, sem outro ruído que o marulho dos seus passos, e rebeldes somente quando alguma folhita verde, tão humilde como elas, se debruçava na estrada, a desafiar-lhes o apetite, as ovelhas acumulavam gratidão no espírito de Horácio e de seus parceiro por nenhuma haver ainda parido. Ao terceiro dia, porém, a Farrusca, que pertencia ao Aniceto e exibia barriga redonda que nem pipa, deu em balir...
(Texto da obra a “A Lã e a Neve” de Ferreira de Castro, Edição do Círculo de Leitores, páginas 92 e 93)
NOTA:
Por esta altura, no começo de Março, os rebanhos faziam o percurso inverso, deixando as campinas da Indanha, passando novamente pela Capinha, e regressando ao seus pastos tradicionais nas encostas mais altas da Serra da Estrela.
(Texto da obra a “A Lã e a Neve” de Ferreira de Castro, Edição do Círculo de Leitores, páginas 92 e 93)
NOTA:
Por esta altura, no começo de Março, os rebanhos faziam o percurso inverso, deixando as campinas da Indanha, passando novamente pela Capinha, e regressando ao seus pastos tradicionais nas encostas mais altas da Serra da Estrela.
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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
A MINHA FREGUESIA SEM PRIOR
No passado dia 24 de Janeiro, o Pároco da minha aldeia despediu-se da população. Ao fim de mais de quarenta e sete anos de trabalho na paróquia, decidiu retirar-se, como qualquer trabalhador, após um tão longo período de trabalho. Eu soube dessa retirada na altura em que aconteceu, mas só hoje pude sentir no local o ambiente de vazio que a sua saída deixou no ar.
Ao meio dia e meia hora parei no Adro, na expectativa de poder ver a Igreja aberta e de assistir à missa. Era um hábito que, para a população local, ocorria há muitas dezenas de anos com destacada pontualidade. Em todos os domingos, ao meio dia e trinta, as pessoas estavam já na igreja, o relógio da torre batia a meia hora, as luzes acendiam, o Prior aparecia e a missa começava. Sempre me lembro de as coisas acontecerem assim.
Hoje pude verificar que algumas pessoas ainda correram em cima da hora para a porta da igreja, agarraram-se desesperadamente à maçaneta da porta rodando-a para a tentarem abrir e não conseguiram. Retiraram-se desiludidas. Seguindo o percurso de regresso abanavam a cabeça claramente desconfortadas. Um mocinho meu conhecido, sempre prestável, viu-nos por ali e correu a averiguar se haveria missa ou não. Regressou pouco depois dizendo que agora só iria haver missa no próximo domingo, às três da tarde.
Naquele momento, senti que a minha Freguesia sem Prior é como um corpo sem alma.
Podemos imaginar a falta que sentirão as pessoas, quase sempre mais idosas, que viam na missa diária, que começava impecavelmente às dezanove e trinta no inverno e às vinte e trinta no verão, a única razão para saírem de casa por breves momentos para uma corridinha até à igreja para regressarem a casa pouco depois.
Que grande falta vão fazer aqueles minutos breves do momento da saída da missa onde as vizinhas e as amigas se cumprimentavam para saber dos doentes e dos ausentes: “Olá vizinha como está, tem tido notícias do seu homem, dos seus filhos, dos seus netos?”
E as notícias vinham naturalmente. Estão bem ou estão assim assim. Por vezes sabiam-se as novidades mais alegres e as mais tristes. Mas era ali o ponto para uma breve conversa diária, e isto há já muitas dezenas de anos. Agora, à hora da missa, que já não a há, sente-se o vazio por já não haver a razão que proporcionava o encontro. A Freguesia sem Prior é agora quase como que um rossio sem gente.
O Prior da nossa Freguesia era uma fonte fidedigna de registos sociais de todos os tipos. Conhecia as famílias e as pessoas das famílias pelo nome, de tantas gerações quantas podem caber num período de quarenta e sete anos. Os melhoramentos, os êxitos e os fracassos, os amores e as desventuras, as traições e as rixas, os crimes de faca e alguidar, que também os houve. Bastava fazer uma pergunta e a resposta vinha sempre com impressionante precisão e detalhe. Com a saída do Prior, a Freguesia assemelha-se agora a um livro de história que, para nossa surpresa, tem a quase totalidade das páginas em branco.
Que irá acontecer às tradições mais bonitas da nossa terra, como eram o Domingo de Ramos, com todo o seu teatro dramático de origem medieval, à Festa da Santíssima Trindade, à Festa do Santíssimo e outras? A quem poderão recorrer os moradores para encomendar as missas em sufrágio dos seus antepassados?
Agora a minha Freguesia sem Prior é como uma capela vazia, sem altares, sem imagens, sem luzes, sem bancos.
A porta do Prior era a única da aldeia a que, numa aflição, se batia, a qualquer hora do dia ou da noite, com a certeza de que não era preciso pagar nada em troca da ajuda que sempre era dispensada, nem que fosse apenas na forma de uma palavra amiga. Agora essa porta está fechada e não adianta bater porque já não há lá ninguém para responder. Assim, a Freguesia sem Prior tornou-se num casarão vazio, silencioso e frio, de portas fechadas e luzes apagadas.
Para quem vive longe e tem alguém idoso a viver na Freguesia era fácil telefonar ao Prior e saber notícias frescas. Era confortante ouvir: “Ainda ontem a vi e pareceu-me rija. Estava na missa da noite”.
Agora, a Freguesia sem Prior é como que um telefone sem sinal de chamada.
E para quem vem apenas de quando em vez à aldeia e tinha o privilégio de poder combinar com o Prior um encontro para um café ou para uma cerveja e dois dedos de conversa, agora, sem ele, a Freguesia ficou muito mais triste e desinteressante porque já cá não podemos contar com a amável disponibilidade do nosso bom amigo P. Gama.
Ao meio dia e meia hora parei no Adro, na expectativa de poder ver a Igreja aberta e de assistir à missa. Era um hábito que, para a população local, ocorria há muitas dezenas de anos com destacada pontualidade. Em todos os domingos, ao meio dia e trinta, as pessoas estavam já na igreja, o relógio da torre batia a meia hora, as luzes acendiam, o Prior aparecia e a missa começava. Sempre me lembro de as coisas acontecerem assim.
Hoje pude verificar que algumas pessoas ainda correram em cima da hora para a porta da igreja, agarraram-se desesperadamente à maçaneta da porta rodando-a para a tentarem abrir e não conseguiram. Retiraram-se desiludidas. Seguindo o percurso de regresso abanavam a cabeça claramente desconfortadas. Um mocinho meu conhecido, sempre prestável, viu-nos por ali e correu a averiguar se haveria missa ou não. Regressou pouco depois dizendo que agora só iria haver missa no próximo domingo, às três da tarde.
Naquele momento, senti que a minha Freguesia sem Prior é como um corpo sem alma.
Podemos imaginar a falta que sentirão as pessoas, quase sempre mais idosas, que viam na missa diária, que começava impecavelmente às dezanove e trinta no inverno e às vinte e trinta no verão, a única razão para saírem de casa por breves momentos para uma corridinha até à igreja para regressarem a casa pouco depois.
Que grande falta vão fazer aqueles minutos breves do momento da saída da missa onde as vizinhas e as amigas se cumprimentavam para saber dos doentes e dos ausentes: “Olá vizinha como está, tem tido notícias do seu homem, dos seus filhos, dos seus netos?”
E as notícias vinham naturalmente. Estão bem ou estão assim assim. Por vezes sabiam-se as novidades mais alegres e as mais tristes. Mas era ali o ponto para uma breve conversa diária, e isto há já muitas dezenas de anos. Agora, à hora da missa, que já não a há, sente-se o vazio por já não haver a razão que proporcionava o encontro. A Freguesia sem Prior é agora quase como que um rossio sem gente.
O Prior da nossa Freguesia era uma fonte fidedigna de registos sociais de todos os tipos. Conhecia as famílias e as pessoas das famílias pelo nome, de tantas gerações quantas podem caber num período de quarenta e sete anos. Os melhoramentos, os êxitos e os fracassos, os amores e as desventuras, as traições e as rixas, os crimes de faca e alguidar, que também os houve. Bastava fazer uma pergunta e a resposta vinha sempre com impressionante precisão e detalhe. Com a saída do Prior, a Freguesia assemelha-se agora a um livro de história que, para nossa surpresa, tem a quase totalidade das páginas em branco.
Que irá acontecer às tradições mais bonitas da nossa terra, como eram o Domingo de Ramos, com todo o seu teatro dramático de origem medieval, à Festa da Santíssima Trindade, à Festa do Santíssimo e outras? A quem poderão recorrer os moradores para encomendar as missas em sufrágio dos seus antepassados?
Agora a minha Freguesia sem Prior é como uma capela vazia, sem altares, sem imagens, sem luzes, sem bancos.
A porta do Prior era a única da aldeia a que, numa aflição, se batia, a qualquer hora do dia ou da noite, com a certeza de que não era preciso pagar nada em troca da ajuda que sempre era dispensada, nem que fosse apenas na forma de uma palavra amiga. Agora essa porta está fechada e não adianta bater porque já não há lá ninguém para responder. Assim, a Freguesia sem Prior tornou-se num casarão vazio, silencioso e frio, de portas fechadas e luzes apagadas.
Para quem vive longe e tem alguém idoso a viver na Freguesia era fácil telefonar ao Prior e saber notícias frescas. Era confortante ouvir: “Ainda ontem a vi e pareceu-me rija. Estava na missa da noite”.
Agora, a Freguesia sem Prior é como que um telefone sem sinal de chamada.
E para quem vem apenas de quando em vez à aldeia e tinha o privilégio de poder combinar com o Prior um encontro para um café ou para uma cerveja e dois dedos de conversa, agora, sem ele, a Freguesia ficou muito mais triste e desinteressante porque já cá não podemos contar com a amável disponibilidade do nosso bom amigo P. Gama.
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