segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A MINHA FREGUESIA SEM PRIOR

No passado dia 24 de Janeiro, o Pároco da minha aldeia despediu-se da população. Ao fim de mais de quarenta e sete anos de trabalho na paróquia, decidiu retirar-se, como qualquer trabalhador, após um tão longo período de trabalho. Eu soube dessa retirada na altura em que aconteceu, mas só hoje pude sentir no local o ambiente de vazio que a sua saída deixou no ar.
Ao meio dia e meia hora parei no Adro, na expectativa de poder ver a Igreja aberta e de assistir à missa. Era um hábito que, para a população local, ocorria há muitas dezenas de anos com destacada pontualidade. Em todos os domingos, ao meio dia e trinta, as pessoas estavam já na igreja, o relógio da torre batia a meia hora, as luzes acendiam, o Prior aparecia e a missa começava. Sempre me lembro de as coisas acontecerem assim.
Hoje pude verificar que algumas pessoas ainda correram em cima da hora para a porta da igreja, agarraram-se desesperadamente à maçaneta da porta rodando-a para a tentarem abrir e não conseguiram. Retiraram-se desiludidas. Seguindo o percurso de regresso abanavam a cabeça claramente desconfortadas. Um mocinho meu conhecido, sempre prestável, viu-nos por ali e correu a averiguar se haveria missa ou não. Regressou pouco depois dizendo que agora só iria haver missa no próximo domingo, às três da tarde.
Naquele momento, senti que a minha Freguesia sem Prior é como um corpo sem alma.
Podemos imaginar a falta que sentirão as pessoas, quase sempre mais idosas, que viam na missa diária, que começava impecavelmente às dezanove e trinta no inverno e às vinte e trinta no verão, a única razão para saírem de casa por breves momentos para uma corridinha até à igreja para regressarem a casa pouco depois.
Que grande falta vão fazer aqueles minutos breves do momento da saída da missa onde as vizinhas e as amigas se cumprimentavam para saber dos doentes e dos ausentes: “Olá vizinha como está, tem tido notícias do seu homem, dos seus filhos, dos seus netos?”
E as notícias vinham naturalmente. Estão bem ou estão assim assim. Por vezes sabiam-se as novidades mais alegres e as mais tristes. Mas era ali o ponto para uma breve conversa diária, e isto há já muitas dezenas de anos. Agora, à hora da missa, que já não a há, sente-se o vazio por já não haver a razão que proporcionava o encontro. A Freguesia sem Prior é agora quase como que um rossio sem gente.
O Prior da nossa Freguesia era uma fonte fidedigna de registos sociais de todos os tipos. Conhecia as famílias e as pessoas das famílias pelo nome, de tantas gerações quantas podem caber num período de quarenta e sete anos. Os melhoramentos, os êxitos e os fracassos, os amores e as desventuras, as traições e as rixas, os crimes de faca e alguidar, que também os houve. Bastava fazer uma pergunta e a resposta vinha sempre com impressionante precisão e detalhe. Com a saída do Prior, a Freguesia assemelha-se agora a um livro de história que, para nossa surpresa, tem a quase totalidade das páginas em branco.
Que irá acontecer às tradições mais bonitas da nossa terra, como eram o Domingo de Ramos, com todo o seu teatro dramático de origem medieval, à Festa da Santíssima Trindade, à Festa do Santíssimo e outras? A quem poderão recorrer os moradores para encomendar as missas em sufrágio dos seus antepassados?
Agora a minha Freguesia sem Prior é como uma capela vazia, sem altares, sem imagens, sem luzes, sem bancos.
A porta do Prior era a única da aldeia a que, numa aflição, se batia, a qualquer hora do dia ou da noite, com a certeza de que não era preciso pagar nada em troca da ajuda que sempre era dispensada, nem que fosse apenas na forma de uma palavra amiga. Agora essa porta está fechada e não adianta bater porque já não há lá ninguém para responder. Assim, a Freguesia sem Prior tornou-se num casarão vazio, silencioso e frio, de portas fechadas e luzes apagadas.
Para quem vive longe e tem alguém idoso a viver na Freguesia era fácil telefonar ao Prior e saber notícias frescas. Era confortante ouvir: “Ainda ontem a vi e pareceu-me rija. Estava na missa da noite”.
Agora, a Freguesia sem Prior é como que um telefone sem sinal de chamada.
E para quem vem apenas de quando em vez à aldeia e tinha o privilégio de poder combinar com o Prior um encontro para um café ou para uma cerveja e dois dedos de conversa, agora, sem ele, a Freguesia ficou muito mais triste e desinteressante porque já cá não podemos contar com a amável disponibilidade do nosso bom amigo P. Gama.

2 comentários:

Billy disse...

Pois é! Que vazia deve estar a Capinha... é difícil imaginar.

Antonio disse...

Padre Gama o elo de ligação com as nossas gentes