sábado, 7 de agosto de 2010

A PROPÓSITO DOS 75 ANOS DA RÁDIO PÚBLICA

No passado dia 4 de Agosto, a Rádio Pública, antes chamada Emissora Nacional, fez 75 anos. A propósito desta efeméride lembro-me de que...

Quando estava em Macau, o canal português da rádio local passava, de vez em quando, excertos de entrevistas em que aparecia um ouvinte a dizer:

- Eu gosto de ouvir a rádio, mas é no rádio que eu gosto.

Ao princípio, esta expressão parecia-me sem sentido. Mas, vendo melhor, passei a gostar dela porque me fazia recordar os rádios de que eu gosto e de que gostei. E estes abrangem os emissores e os aparelhos receptores e os meus primeiros contactos com eles.

O primeiro aparelho de rádio terá chegado à minha aldeia, Capinha, no Concelho do Fundão, logo a seguir ao termo da Segunda Guerra Mundial, a casa dum prestigiado comerciante local, o Senhor João Barbeiro. A sua loja vendia um pouco de tudo o que respeita a mercearia e a drogaria. Mas era também uma espécie de farmácia local, pois era lá que a minha Mãe ia comprar os comprimidos e os xaropes quando eu tinha febre, tosse ou dor de barriga.

No dia 13 de Maio de cada ano, o Senhor João Barbeiro abria a sua casa à povoação e ficava literalmente apinhada de gente que acompanhava as cerimónias de Fátima com uma religiosidade enorme como se estivessem na Igreja. Por entre elas furavam os garotos que se aproximavam tanto quanto podiam da caixinha mágica de onde saíam os sons. Durante alguns anos o 13 de Maio foi um verdadeiro acontecimento social em casa do Sr. João Barbeiro.

Mas a sua exclusividade acabou, quando à aldeia chegaram outros aparelhos de rádio. À casa dos meus pais chegou, se não o segundo, seguramente o terceiro. Num certo dia, ia eu a entrar em casa e estava lá um senhor muito bem vestido (Sr. Neves) a fazer uma demonstração. A atendê-lo estava uma das minhas irmãs, que, na altura, era jovem e bonita. Era tecedeira. Tecia vistosas mantas de retalhos. Estava deliciada com o aparelho e já o tinha estrategicamente instalado em cima de uma cómoda da sala.

O Sr. Neves deixou o aparelho à experiência.

O aparelho de rádio deixado pelo Sr. Neves (Frente)
Tem o número de fábrica 998077

O preço era tanto e podia ser pago às prestações. A minha imã estava feliz. O problema era convencer o Pai e a Mãe.

- Isto está aqui só para ver se gostam. Ele vem para a semana levá-lo de volta. A prestação é baixa e eu posso ajudar a pagar. Dizia a minha Irmã.

- Não quero isso aqui. Com a música a tocar vão pensar que a nossa casa é casa de ricos ou de gente de mau porte. Se não o vier buscar, eu deito-o para a rua ou queimo-o na lareira. Dizia o meu Pai.

- Mas o Sr. Neves deixou mais rádios à experiência na aldeia. Já ouvi dizer que já houve pessoas que compraram. Rematava a minha Irmã.

Foi assim que, com um diálogo deste tipo, o primeiro aparelho de rádio ganhou o direito de entrar na casa dos meus pais. Isto ainda na década de quarenta.

O aparelho de rádio deixado pelo Sr. Neves (Rectaguarda)

Porém, certo dia, o destino desse aparelho esteve por um triz.

Foi num fim de domingo. Como era costume naquele tempo, os homens passavam as últimas horas livres do fim de semana na taberna e regressavam a casa já tocados. Já era noite. A porta de entrada da casa abriu-se subitamente e foi fechada com estrondo. O meu Pai entrou praguejando e falando alto. Foi direitinho ao aparelho de rádio, pegou nele e dirigia-se já com ele para a cozinha. O cabo de ligação à tomada deteve-o por uns instantes e obrigou-o a virar-se para trás e encarar as caras espantadas e amedrontadas da mulher e das filhas. Nesse momento saiu-lhe o seguinte reparo:

- Vinha eu lá em cima, no começo da calçada e já ouvia o barulho desta porcaria. O que vai pensar o Povo em relação aos nossos costumes?

- Ó Homem, se queimas isso vamos ter de o pagar. E onde arranjamos tanto dinheiro para isso? Deixa-o ficar e logo o levam. Exclamou a minha Mãe.

O mostrador do rádio de que eu gosto

O rádio lá ficou. E o meu Pai veio a condescender. Creio que para isso contribuíram decisivamente os seguintes dois factos:

Um dos companheiros de trabalho (O Ti João Fatela) decidira comprar um;

A minha irmã demonstrou-lhe que, no rádio, previam o tempo.

- E se o Pai ouvisse ficava logo a saber se no dia seguinte vai chover ou fazer sol!

A partir de certa altura, o meu Pai já era um fan de dois dos programas da Emissora Nacional: o Notíciário das Vinte e o Boletim Meteorológico. Ai de quem o interrompesse quando estava a dar o tempo...

O rádio de que eu gosto é esse aparelho velhinho que guardo religiosamente e que ainda funciona. Olho para ele com ternura e, mesmo desligado, deita música. São as canções da Maria Papoila, da Aldeia da Roupa Branca. As vozes da Maria Clara, do Tristão da Silva, da Maria José Valério, do Tony de Matos, da Amália, do Carlos Ramos, do Alfredo Marceneiro....

Ligado, com a luz da sala apagada, o rádio projectava na parede um quadro de bolinhas de luz que transformavam o ambiente, dando-lhe um ar acolhedor e um sereno aspecto de média-luz.

O ambiente de média luz

A Emissora Nacional foi sempre o rádio de que mais gostei.

Os meus parabéns à Rádio Pública pelos seu 75.º Aniversário!!!

3 comentários:

Bau disse...

Que lindo post! A genética tem destas coisas... a verdade é que eu também nutro uma grande paixão pela rádio (enquanto ouvinte, ser radialista já não me atrai tanto), sendo que tenho estações preferidas para diferentes actividades - e não as dispenso! E as várias rádios (e os seus jingles) marcam distintamente fases da minha vida. Quanto a aparelhos preferidos... esse de que falas, aquele rádio preto e magrinho que acho que veio da Guiné, o rádio cor-de-rosa que ganhei algures pelos meus 6/7 anos e a fiel aparelhagem JVC que recebi pelo meu 12o aniversário (e que ainda toca!) Engraçada a forma como o rádio conquistou o seu lugar no seio da família!

PTuny disse...

Espectáculo!!!!

Comentário de A & Zé Freire

Ainda me lembro de quantas músicas eu aprendi a ouvir esse rádio!

Assim como me lembro da Ti Mari Rosa dizer que as pessoas que estavam dentro daquela caixa tinham que ser muito pequeninas!!

Histórias!!!

Antonio disse...

Será quem alguem se lembra da "rádio pirata da Capinha" ????