Em Outubro de 1969, estava eu na Guiné, no aquartelamento do Cacheu e lembrei-me de que o Natal se aproximava e que, mais uma vez, o iria passar ali no inóspito ambiente de guerra e no clima tropical. Com saudade, peguei num aerograma e escrevi, numa assentada, uma pequena “História de Natal” que mandei para o Sr. Padre Gama, pároco da freguesia da minha terra natal, e que ele publicou no Jornal “Notícias da Capinha” de Novembro de 1969.
Algumas semanas depois de ter escrito esta história, caímos numa emboscada terrível onde morreu esventrado por uma granada de basuca o nosso camarada Telo (de Caxias) e ficaram feridos outros. Assim, no fim do mês de Novembro já eu estava no Hospital da Estrela. Foi lá que passei o Natal desse ano de 1969.
E agora a tal pequena “História de Natal”:
O NATAL DO QUIM
O Quim já apareceu mais vezes neste jornal. Um tanto franzino e pequeno, de cara bonita coroada com cabelos doirados e de grandes olhos castanho-escuros e redondos, orlados de pestanas reviradas e compridas e de sobrancelhas louras. É um tanto pacato, é um tanto traquinas. É um pequeno inocente e já se preocupa com a vida. Na sua casa pobre falta muita coisa.
Não lhe estivesse nunca vazio o mealheiro e um dia seria doutor, com óculos e tudo.
Nas vésperas do último Natal, houve um dia em que a mãe, desesperada por estar tanto tempo sem o marido, saiu precipitada e chorosa gritando que se ia matar. Ele foi discretamente atrás dela até a um palheiro arrendado pelo seu pai, que fica a umas centenas de metros de distância. A porta estava entreaberta. Estava frio e escuro lá dentro, mas lentamente a sua visão foi-se ambientando e ficou de alma invadida com um calor feliz, quando conseguiu ver a mãe recostada num monte de palhiço, meio apodrecido, como que a querer descansar. Olharam-se. Passados segundos, o Quim estava aninhado no seu colo.
Decidiram ir para casa. Fecharam o ferrolho da porta do palheiro e puseram-se a caminho. Estava a escurecer. Dos telhados da aldeia erguiam-se lentas espirais de fumo. Isolados rumores de conversas saíam das janelas das casas e alguns latidos muito espaçados davam vida à noite que ia engolindo as sombras das pessoas e das coisas.
No dia de Natal, a mãe deu-lhe um camiseta e umas calças novas e uns sapatos para estrear. Ele foi à igreja... Mas a gente era tanta que não conseguiu chegar ao presépio. Mesmo assim, era belo tudo aquilo. Os cânticos: era a vizinha que cantava com mais força. O cheiro do incenso um tanto adocicado, o perfume quente da cera a arder... E quando o Quim beijou o Menino parecia-lhe mesmo que ele se mexia. Mas a gente era tanta e ele queria falar a sós com o Menino Jesus e prometeu-lhe que voltaria lá sozinho.
No dia seguinte à tarde, já o sol se escondia espreitando através de uma janela aberta entre as nuvens cor de fogo que ameaçavam chuva... O Quim dirigiu-se à porta da igreja, conseguiu abrir o trinco e enfiou-se pela fresta da entrada da porta meio fechada. Queria falar a sós com o Menino Jesus.
Chegou-se ao presépio e ali ficou um momento de braços cruzados, colocando depois os braços atrás das costas com as mãos enlaçadas, como fazem os homens adultos quando estão na igreja. Fixou, por momentos, o olhar nas tiras de papel de prata que, entre o musgo verde, imitavam lagos frescos e repousantes. Aproximou-se um pouco mais. Viu a luz da lamparina trêmula e sentiu-se tremer também. E a pouco e pouco deslocou o olhar por aquelas casas pequeninas e brancas quedando-se na Família Sagrada. Então foi como se a graça o envolvesse e o iluminasse e lhe virasse a página da vida amarga que tinha tido no passado.
E dizia baixinho: Nossa Senhora olha para o Menino Jesus como a minha mãe olha para mim. Mas o meu pai... sempre na França.. sozinho.. e não vem cá neste Natal. Sentia o seu coração pequenino abrir-se e ficar cheio de esperança, de promessas que o Menino lhe pareceia fazer, de ternura. Olhando bem a imagem de Nossa Senhora, reparou que a cara dela até era parecida com a de sua mãe.
Sentia-se agora feliz. Teve a primeira visão diferente do mundo em que nascera. Apetecia-lhe ficar ali silencioso diante daquele presépio. Tirou os cinco tostões do bolso que há muito tempo tinha guardados em casa e que se lembrara de trazer para o Menino Jesus. Colocou-os na bandeja. Teve a sensação de que o Menino Jesus lhos devolveu e lhe pediu para ir comprar rebuçados com eles.
Entretanto murmurava baixinho: antes que eu tenha de acarretar estrume e sacos de adubo, antes que eu tenha de andar a cavar a terra com uma enxada de manhã até à noite, antes que eu tenha de sofrer com fome e sede, tu, mãe querida, terás sempre miolo do melhor pão para comer. Hei-de ter um campo, com muito trigo, com muito milho. Hei-de convidar a Teresinha que é a minha melhor amiga e muito linda para deitar nessa terra as primeiras sementes. Eu sei que ela me vai dar sorte. Eu vou trabalhar tanto como o meu pai.
O Quim lembrou-se de meninos amigos da terra, do pai e de alguns vizinhos que estão na França e do vizinho que está na guerra da Guiné que um dia lhe deu vinte e cinco tostões para um lápis e dois cadernos.
De repente os sinos tocavam às Avé Marias.
Olhou à sua volta. Estava tudo escuro e teve medo. Uma réstia de claridade entrava pelo vitral que se encontra por cima do coro. Cheirou o ar saturado de humidade. Veio para a porta e sentiu o corpo inteiriçado pelo frio. O escurecer era glacial e caía uma chuva miudinha. As goteiras do telhado tinham o som e o rumor do ribeiro quando corre bem cheio. Desatou a correr através da chuva e sentiu menos frio...
Chegou a casa e, em poucos minutos, estava ao pé da mãe.
- Ó Quim! Maroto, que vens tão molhado! - Disse-lhe a mãe pegando-lhe na mão e chegando-o para pertinho do lume.
- É que… sabe? Estive a falar com o Menino Jesus e fiquei tão contente, tão contente que estava desejoso de vir para casa mesmo com chuva, para o pé de si.
Desde aquele dia o Quim tem a certeza de que as divagações de criança lhe abrem o caminho para o asilo da paz e da esperança. E a elas recorre com alguma frequência.
*.*
UM FELIZ NATAL DE 2009 PARA TODOS!!! E, JÁ AGORA, TAMBÉM UM PRÓSPERO ANO DE 2010 CHEIO DE OCEANOS DE SAÚDE, PAZ E ALEGRIA!!!!
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
ELEIÇÕES DE 11 DE OUTUBRO DE 2009 - ATITUDES IMPRÓPRIAS
É ESSENCIAL À DEMOCRACIA a abertura, de quando em quando, de períodos eleitorais para que os cidadãos se organizem, elaborem programas e os discutam publicamente, dando destemidamente a cara para demonstrarem, aos que irão votar, a sua boa vontade de que são capazes de fazer melhor.
Por vezes, há debates públicos, entre líderes, que não são propriamente conversas meigas, com palmadinhas nas costas. Contudo, não é suposto quebrarem-se as regras da boa educação, pois tal situação extrema reduziria drasticamente a cotação dos candidatos junto da opinião pública.
A nível de um pequeno concelho ou de uma aldeia não é fácil organizar um debate público com moderador e o ambiente de pompa e circunstância. Isto não impede que os contendores políticos troquem as suas ideias, por vezes em simples encontros ocasionais ou mesmo sentados à mesa de um café. O correcto é falarem cara a cara.
Os eleitores também têm oportunidade de falarem com os líderes e uns com os outros para tomarem a decisão sobre o sentido do seu voto.
Na minha aldeia, povoada com gente de bem, há cartazes com as caras dos representantes das diversas forças políticas nos locais públicos privilegiados. Não passam despercebidos. Por outro lado, ouvimos as pessoas discutirem a suas preferências por uma das principais listas: a do PSD ou a do PS. Para mim, que não sou eleitor local, as listas nomeiam cidadãos respeitáveis e os programas não me sugerem grandes divergências de fundo.
A divisão da opinião pública parece saudável. Contudo, há quem prefira entrar nas conversas, de modo despudorado e encoberto, pela calada da noite, esboçando ameaças de grande violência a um dos candidatos. Na verdade, pudemos ver um dos cartazes onde a cara do candidato foi recortada com uma tesoura ou outro instrumento cortante. É pena que alguém, nos tempos de hoje, não dê a cara e prefira uma tal linguagem da cobardia que, de todo, devemos repudiar. Uma vez que tal procedimento é crime, espero que as autoridades façam o seu trabalho e não deixem na penumbra este mau exemplo corrosivo da democracia.
Por curiosidade, o buraco aberto no cartaz deixa aparecer uma nesga de céu azul dividida por um fio e também as pontas de uns ramos de oliveira, sinal de que a paz teima em se mostrar.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
ELEIÇÕES? - DEUS NOS LIVRE DE CERTOS POLÍTICOS.

Dr. Sá Fernandes! Que bela espiral de fumo!
Todos sabemos que muitos políticos só pensam neles próprios. O caso que vou contar ilustra bem esta afirmação.
No passado dia 12 deste mês de Setembro de 2009, sábado, fui almoçar com a minha família a um restaurante modesto, mas onde habitualmente é servido um excelente peixe grelhado. Além disso, a simpatia do gerente leva-nos a sentir-nos em ambiente acolhedor, quase familiar. Uma razão também essencial que nos motiva a ir regularmente a esse restaurante é o facto de ter à porta o aviso de que se trata de um espaço reservado a não fumadores. Este aspecto é seguramente também valorizado pelos muitos casais que ali encontramos regularmente com as suas crianças pequenas.
Estava tudo a correr muito bem, quando, de repente me chegou ao nariz o cheiro a fumo de cigarro. Infelizmente sou daqueles a quem o fumo do tabaco transtorna, pois fico com a voz afectada e com a respiração dificultada.
Olhámos e, numa mesa junto ao balcão, tinha-se acabado instalar gente da pesada, mais concretamente, o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, o vereador Dr. José Sá Fernandes, o vereador para o urbanismo, Arquitecto Manuel Salgado, e uma senhora.
O Dr. Sá Fernandes estava a fumar despudoradamente.
Após alguma hesitação, um membro da minha família não se conteve e dirigiu-se à mesa desse Senhor, apontou-lhe os restos no cinzeiro e disse-lhe: “Que belo exemplo de cidadania!”.
Engasgaram-se os senhores. Mais desinibida, a senhora retorquiu: “Nós pedimos autorização!...”
Pediram autorização a quem?
O meu familiar dirigiu-se á porta da entrada e bateu vigorosamente no anúncio colado no vidro: “Está aqui o aviso! É proibido fumar. Eu venho aqui com a minha família na expectativa de não encontrar fumadores!”
Uns minutos mais tarde o Dr. António Costa saiu cabisbaixo e dirigiu-se ao seu carro. Aparentava desconforto pelo incidente de que também foi protagonista.
O Dr. Sá Fernandes é um homem de leis. Será que, para ele, a autorização do gerente do restaurante é superior à lei? Lembram-se da história da cigarrilha que o Presidente da ASAE fumou no Casino Estoril na gala da última passagem de ano?
Os políticos são muitas vezes assim. Aplicam a lei à medida do número do sapato que calçam.
Deus nos livre deste tipo de políticos!
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
BONS VOTOS QUE RESULTAM!!!
A TODOS OS QUE ME DESEJARAM BOAS FESTAS… O MEU MUITO OBRIGADO!!!
… Porque os seus desejos deram excelentes resultados. Em primeiro lugar, consegui reunir a minha pequena Família na noite de Natal. Uns dias depois, tive o privilégio de casar uma das filhas. Já em 2009, uma outra fez anos. E, mais recentemente, nasceu-me mais uma netinha. Tantos factos positivos num tão curto espaço de tempo não são fáceis de acontecer. Os desejos de todos os amigos contribuíram seguramente para esta combinação feliz.
Agora com duas netinhas…
Sinto reforçado o meu orgulho da condição de Avô. A sua presença desperta em mim sentimentos de ternura tão intensa que, por vezes, redundam em forte emoção com uma lagrimita à mistura. Mas, pelos vistos, são sentimentos próprios da condição e não específicos da minha pessoa. Vou fundamentar melhor esta ideia. Houve uns amigos que me ofereceram, como prenda de Natal, um livro intitulado “Cartas para Sam – Lições de um avô sobre amor, perda e as dádivas da vida” do autor Daniel Gottlieb, psicólogo de profissão, que ficou tetraplégico aos trinta e cinco anos em consequência de um acidente de viação. Vinte e cinco anos depois escreve uma série de cartas ao Sam, seu neto, afectado por autismo. Nestas cartas, a vivência rica, a ternura imensa e os conselhos práticos encorajam à adopção de valores fortes que sejam motivação para a vida. Na última carta escreveu o Dr. Daniel Gottlieb: “Já estive perto da morte por várias vezes e, como resultado, quase sempre a sinto por perto. Mas, Sam, há muito que acredito que a morte não é um problema. Não viver é que é…”.
Todas as cartas, antes de serem assinadas, têm a expressão: “Com amor, “
Recomendo a leitura deste livro a todos os avós.
Por coincidência, no momento em que escrevo esta nota, está a tomar posse o 44.º Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Todo o mundo o vê como um messias e uma grande parte da humanidade, incluindo eu próprio, deseja-lhe boa sorte. Espero que os nossos bons votos resultem para ele como os votos dos meus amigos resultaram para mim na quadra do Natal/Ano Novo.
Só por curiosidade. O número 44 não é um bom número na superstição chinesa. Quatro, em chinês do sul (cantonense), diz-se “sei” que significa também morte. Assim, por lógica, duplo quatro é dupla morte. Por isso, reforcemos os nossos bons desejos a favor do novo Presidente da América que, afinal, bem precisa deles…
… Porque os seus desejos deram excelentes resultados. Em primeiro lugar, consegui reunir a minha pequena Família na noite de Natal. Uns dias depois, tive o privilégio de casar uma das filhas. Já em 2009, uma outra fez anos. E, mais recentemente, nasceu-me mais uma netinha. Tantos factos positivos num tão curto espaço de tempo não são fáceis de acontecer. Os desejos de todos os amigos contribuíram seguramente para esta combinação feliz.
Agora com duas netinhas…
Sinto reforçado o meu orgulho da condição de Avô. A sua presença desperta em mim sentimentos de ternura tão intensa que, por vezes, redundam em forte emoção com uma lagrimita à mistura. Mas, pelos vistos, são sentimentos próprios da condição e não específicos da minha pessoa. Vou fundamentar melhor esta ideia. Houve uns amigos que me ofereceram, como prenda de Natal, um livro intitulado “Cartas para Sam – Lições de um avô sobre amor, perda e as dádivas da vida” do autor Daniel Gottlieb, psicólogo de profissão, que ficou tetraplégico aos trinta e cinco anos em consequência de um acidente de viação. Vinte e cinco anos depois escreve uma série de cartas ao Sam, seu neto, afectado por autismo. Nestas cartas, a vivência rica, a ternura imensa e os conselhos práticos encorajam à adopção de valores fortes que sejam motivação para a vida. Na última carta escreveu o Dr. Daniel Gottlieb: “Já estive perto da morte por várias vezes e, como resultado, quase sempre a sinto por perto. Mas, Sam, há muito que acredito que a morte não é um problema. Não viver é que é…”.
Todas as cartas, antes de serem assinadas, têm a expressão: “Com amor, “
Recomendo a leitura deste livro a todos os avós.
Por coincidência, no momento em que escrevo esta nota, está a tomar posse o 44.º Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Todo o mundo o vê como um messias e uma grande parte da humanidade, incluindo eu próprio, deseja-lhe boa sorte. Espero que os nossos bons votos resultem para ele como os votos dos meus amigos resultaram para mim na quadra do Natal/Ano Novo.
Só por curiosidade. O número 44 não é um bom número na superstição chinesa. Quatro, em chinês do sul (cantonense), diz-se “sei” que significa também morte. Assim, por lógica, duplo quatro é dupla morte. Por isso, reforcemos os nossos bons desejos a favor do novo Presidente da América que, afinal, bem precisa deles…
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Bons Votos,
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terça-feira, 25 de novembro de 2008
COM A PRISÃO DE OLIVEIRA COSTA A SUPERVISÃO BANCÁRIA DEVERIA VESTIR LUTO PESADO ...
1. Na passada quinta-feira, estamos a falar de 20 de Novembro de 2008, foi preso Oliveira Costa, ex-presidente e CEO do Banco Português de Negócios (BPN). Na sexta-feira, o juiz aplicou-lhe a medida de coacção máxima, a prisão preventiva, com base no alegado receio de fuga e na gravidade dos factos. Em princípio, a prisão preventiva só é aplicável a arguidos de factos criminosos a que corresponda uma moldura penal superior a 5 anos. Se não estou em erro, Oliveira Costa tem presentemente 73. E fácil adivinhar que, se vier a ser condenado, o seu envelhecimento não vai ser tranquilo.
2. A prisão de Oliveira Costa deixou-me verdadeiramente triste. No começo dos anos oitenta ele era o Director do Departamento de Supervisão Bancária do Banco de Portugal. Foi o meu Director quando eu trabalhei nesse Departamento e deixou-me as melhores impressões como profissional, como trabalhador incansável e como pessoa ousada, muito séria. Vejo-o com esse perfil e não consigo compreender a alhada em que se encontra. Esta confusão não encaixa, de modo nenhum, na imagem que tenho dele. Em meados dos anos oitenta seguimos percursos diferentes. Mas sempre mantivemos contacto de amigos e jamais vislumbrei qualquer situação que me permitisse alterar essa boa imagem.
A Supervisão Bancária deveria vestir luto pesado. Afinal Oliveira Costa foi um homem responsável pela Supervisão… Terá esta sido suficientemente preventiva no caso do BPN?
Senhores investigadores, averiguem tudo muito bem! Parece-me que há histórias sérias a tender para serem mal contadas. Para mim, Oliveira Costa, apesar de, presentemente, se encontrar em maus lençóis, continua a ser um homem bom e trabalhador que nunca ostentou riqueza pessoal imerecida. Não gostaria de ver conclusões que me fizessem mudar esta opinião.
3. Seguiram-se as entrevistas em tom excessivamente nervoso de Dias Loureiro, que foi colaborador de Oliveira Costa no Grupo a que pertencia o BPN, e, ontem mesmo, do Governador do Banco de Portugal. Ambos aparentaram estar muito à tona dos nervos e pouco seguros em questões fundamentais. Parece claro que o sistema financeiro é hoje um enorme barril de pólvora com o rastilho muito exposto. Um morrão de cigarro, uma distracção ou uma simples brincadeira de mau gosto podem provocar uma verdadeira catástrofe. No meu ponto de vista, estes dois senhores teriam feito melhor se estivessem caladinhos. O primeiro, porque sendo uma pessoa experiente em política, deveria ter tido o cuidado de não entrar na roda do diz-se que disse o que eu não disse. Mesmo que tivesse razão, deveria saber que a contradita seria de esperar, e em termos violentos ao ponto de ser havido como mentiroso. Como conheço relativamente bem a outra parte, António Marta, opino no sentido de que Dias Loureiro está, no mínimo, confuso e equivocado. Por ouro lado, o Governador do Banco de Portugal não deveria ter sido tão explícito em relação ao Banco Privado Português, que afinal deixou cair na opinião pública como uma banqueta em queda letal, de somenos importância para merecer significativo apoio estatal.
Meus senhores, cuidado, que há fogo em jeito de chegar ao rastilho….
2. A prisão de Oliveira Costa deixou-me verdadeiramente triste. No começo dos anos oitenta ele era o Director do Departamento de Supervisão Bancária do Banco de Portugal. Foi o meu Director quando eu trabalhei nesse Departamento e deixou-me as melhores impressões como profissional, como trabalhador incansável e como pessoa ousada, muito séria. Vejo-o com esse perfil e não consigo compreender a alhada em que se encontra. Esta confusão não encaixa, de modo nenhum, na imagem que tenho dele. Em meados dos anos oitenta seguimos percursos diferentes. Mas sempre mantivemos contacto de amigos e jamais vislumbrei qualquer situação que me permitisse alterar essa boa imagem.
A Supervisão Bancária deveria vestir luto pesado. Afinal Oliveira Costa foi um homem responsável pela Supervisão… Terá esta sido suficientemente preventiva no caso do BPN?
Senhores investigadores, averiguem tudo muito bem! Parece-me que há histórias sérias a tender para serem mal contadas. Para mim, Oliveira Costa, apesar de, presentemente, se encontrar em maus lençóis, continua a ser um homem bom e trabalhador que nunca ostentou riqueza pessoal imerecida. Não gostaria de ver conclusões que me fizessem mudar esta opinião.
3. Seguiram-se as entrevistas em tom excessivamente nervoso de Dias Loureiro, que foi colaborador de Oliveira Costa no Grupo a que pertencia o BPN, e, ontem mesmo, do Governador do Banco de Portugal. Ambos aparentaram estar muito à tona dos nervos e pouco seguros em questões fundamentais. Parece claro que o sistema financeiro é hoje um enorme barril de pólvora com o rastilho muito exposto. Um morrão de cigarro, uma distracção ou uma simples brincadeira de mau gosto podem provocar uma verdadeira catástrofe. No meu ponto de vista, estes dois senhores teriam feito melhor se estivessem caladinhos. O primeiro, porque sendo uma pessoa experiente em política, deveria ter tido o cuidado de não entrar na roda do diz-se que disse o que eu não disse. Mesmo que tivesse razão, deveria saber que a contradita seria de esperar, e em termos violentos ao ponto de ser havido como mentiroso. Como conheço relativamente bem a outra parte, António Marta, opino no sentido de que Dias Loureiro está, no mínimo, confuso e equivocado. Por ouro lado, o Governador do Banco de Portugal não deveria ter sido tão explícito em relação ao Banco Privado Português, que afinal deixou cair na opinião pública como uma banqueta em queda letal, de somenos importância para merecer significativo apoio estatal.
Meus senhores, cuidado, que há fogo em jeito de chegar ao rastilho….
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
O ESTADO É PESSOA DE BEM ...
Isso era dantes. Agora já não é assim.
Vejam o que acontece com os empresários do computador Magalhães. Tudo indica que possa ser um empreendimento de muito sucesso. Mas o senão tinha de aparecer e da parte de quem? Dos jornais que deram a notícia de que esses empresários estão sob a justiça fiscal por suspeita de fraude? Ou do Fisco, que é Estado, que deixou sair a notícia para os circuitos da informação?
Mas há sinais bem mais evidentes de que já não é assim, mesmo à porta da minha casa. Parece irreal ...
Há por aí muita falta de parques de estacionamento automóvel. E, por isso, o sinal de estacionamento proibido ganhou um estatuto de “estacionar se não atrapalhar o trânsito.” A cidade de Lisboa está cheia de exemplos destes.
Há, contudo, automobilistas mais respeitadores que dão mais uma voltinha até encontrarem uma rua onde não haja sinal de proibição nem nada que, aparentemente, proíba o estacionamento. E assim, muito desses cumpridores vêm estacionar na minha rua. Vejo, com frequência, aqui carros com matrículas estrangeiras. Para quem aqui deixa o carro parece estar tudo de acordo com a Lei.
Para quem aqui mora, o inferno é constante. A rua tem dois sentidos onde se podem cruzar apenas dois carros ligeiros. Um pesado e um ligeiro já não passam e, por isso, gera-se com frequência a barafunda. São frequentes os gritos, os insultos com a grosseria dos palavrões do jargão mais genuíno da língua portuguesa e até já presenciei agressões. Esta rua, num momento de confusão, pode transformar-se num problema de Estado. É que, a uma centena de metros, mora o Presidente da República que, seguramente, por aqui passa muitas vezes. Por outro lado, há no bairro diversas embaixadas. Que pensarão os embaixadores quando se vêem entalados numa confusão destas?
Ainda, há poucas semanas, pude ver da minha janela uma cena hilariante. Polícias gesticulando desesperados para os automobilistas parados na rua mas que não conseguiam sair dela. Libertaram-na a tempo de a comitiva da Senhora Condoleza Rice passar sem dificuldades, provavelmente para ir a casa do embaixador do seu País que fica a menos de 300 metros. Também vi há dias um Ministro, até podia dizer o nome pois é uma figura muito conhecida, dentro do seu carro, ao lado do motorista, a olhar para um lado e para o outro, numa visível ânsia de querer passar por cima de tudo e de todos para se libertar da confusão.
E é aqui, no ponto em que menciono o Ministro, que o Estado vai entrar nesta história.
Durante um ou dois dias os carros estacionam na Rua sem dificuldades. Afinal não há nenhum sinal a proibir. É certo que já houve, mas os sinais desapareceram. Ao terceiro aparece uma carrinha que estaciona no primeiro espaço que encontra. Saem dela polícias apressados que bloqueiam todos os carros sem contemplação alguma. O resultado é visível nesta fotografia.

Depois vão com a carrinha para uma rua contígua. As pessoas chegam, ficam atordoadas a olhar de um lado para o outro. Lêem o aviso de bloqueamento. Telefonam para o número nele indicado. Vão pagar a conta que lhes é liquidada. E finalmente lá vem o senhor polícia a libertar o carro.
Para aqueles que são mais demorados a solução é mais penosa. Chegam ao local e não vêem o carro. Com sorte, alguém os informa do que aconteceu. O carro foi rebocado pela polícia para um parque que há lá para os lados do Colombo. A conta para o libertar vão ser cerca de cem euros.
Por vezes a rotina do bloqueamento acelera-se para um ritmo de um dia de parqueamento livre e dois dias seguidos de bloqueamento imediato.
E é assim. Sem sinais nem avisos, o Estado actua como um raposão surpreendendo as presas indefesas ou como um garoto rabino que arma as ratoeiras para apanhar taralhões.
Claro que os senhores agentes da Lei não têm culpa e cumprem o melhor que podem as ordens que lhes são dadas.
Justificações que dão:
- podemos bloquear e rebocar qualquer carro numa rua em que estejam a impedir o trânsito;
- só não bloquearíamos se houvesse no local um sinal azul com indicação de parque.
No fundo, toda a gente está de acordo que o trânsito na Rua é sensível e que não deve haver estacionamento. Mas o que claramente falta é a vertente de pessoa de bem que o Estado deve ter. Bastaria informar devidamente os cidadãos marcando os dois lados da Rua com uma lista amarela e afixar sinais de estacionamento proibido e de reboque .
É preciso, em resumo, fazer um jogo limpo.
Esclarecimento: é a Rua Santana à Lapa, no troço entre a Infante Santo e a Buenos Aires.
Vejam o que acontece com os empresários do computador Magalhães. Tudo indica que possa ser um empreendimento de muito sucesso. Mas o senão tinha de aparecer e da parte de quem? Dos jornais que deram a notícia de que esses empresários estão sob a justiça fiscal por suspeita de fraude? Ou do Fisco, que é Estado, que deixou sair a notícia para os circuitos da informação?
Mas há sinais bem mais evidentes de que já não é assim, mesmo à porta da minha casa. Parece irreal ...
Há por aí muita falta de parques de estacionamento automóvel. E, por isso, o sinal de estacionamento proibido ganhou um estatuto de “estacionar se não atrapalhar o trânsito.” A cidade de Lisboa está cheia de exemplos destes.
Há, contudo, automobilistas mais respeitadores que dão mais uma voltinha até encontrarem uma rua onde não haja sinal de proibição nem nada que, aparentemente, proíba o estacionamento. E assim, muito desses cumpridores vêm estacionar na minha rua. Vejo, com frequência, aqui carros com matrículas estrangeiras. Para quem aqui deixa o carro parece estar tudo de acordo com a Lei.
Para quem aqui mora, o inferno é constante. A rua tem dois sentidos onde se podem cruzar apenas dois carros ligeiros. Um pesado e um ligeiro já não passam e, por isso, gera-se com frequência a barafunda. São frequentes os gritos, os insultos com a grosseria dos palavrões do jargão mais genuíno da língua portuguesa e até já presenciei agressões. Esta rua, num momento de confusão, pode transformar-se num problema de Estado. É que, a uma centena de metros, mora o Presidente da República que, seguramente, por aqui passa muitas vezes. Por outro lado, há no bairro diversas embaixadas. Que pensarão os embaixadores quando se vêem entalados numa confusão destas?
Ainda, há poucas semanas, pude ver da minha janela uma cena hilariante. Polícias gesticulando desesperados para os automobilistas parados na rua mas que não conseguiam sair dela. Libertaram-na a tempo de a comitiva da Senhora Condoleza Rice passar sem dificuldades, provavelmente para ir a casa do embaixador do seu País que fica a menos de 300 metros. Também vi há dias um Ministro, até podia dizer o nome pois é uma figura muito conhecida, dentro do seu carro, ao lado do motorista, a olhar para um lado e para o outro, numa visível ânsia de querer passar por cima de tudo e de todos para se libertar da confusão.
E é aqui, no ponto em que menciono o Ministro, que o Estado vai entrar nesta história.
Durante um ou dois dias os carros estacionam na Rua sem dificuldades. Afinal não há nenhum sinal a proibir. É certo que já houve, mas os sinais desapareceram. Ao terceiro aparece uma carrinha que estaciona no primeiro espaço que encontra. Saem dela polícias apressados que bloqueiam todos os carros sem contemplação alguma. O resultado é visível nesta fotografia.
Depois vão com a carrinha para uma rua contígua. As pessoas chegam, ficam atordoadas a olhar de um lado para o outro. Lêem o aviso de bloqueamento. Telefonam para o número nele indicado. Vão pagar a conta que lhes é liquidada. E finalmente lá vem o senhor polícia a libertar o carro.
Para aqueles que são mais demorados a solução é mais penosa. Chegam ao local e não vêem o carro. Com sorte, alguém os informa do que aconteceu. O carro foi rebocado pela polícia para um parque que há lá para os lados do Colombo. A conta para o libertar vão ser cerca de cem euros.
Por vezes a rotina do bloqueamento acelera-se para um ritmo de um dia de parqueamento livre e dois dias seguidos de bloqueamento imediato.
E é assim. Sem sinais nem avisos, o Estado actua como um raposão surpreendendo as presas indefesas ou como um garoto rabino que arma as ratoeiras para apanhar taralhões.
Claro que os senhores agentes da Lei não têm culpa e cumprem o melhor que podem as ordens que lhes são dadas.
Justificações que dão:
- podemos bloquear e rebocar qualquer carro numa rua em que estejam a impedir o trânsito;
- só não bloquearíamos se houvesse no local um sinal azul com indicação de parque.
No fundo, toda a gente está de acordo que o trânsito na Rua é sensível e que não deve haver estacionamento. Mas o que claramente falta é a vertente de pessoa de bem que o Estado deve ter. Bastaria informar devidamente os cidadãos marcando os dois lados da Rua com uma lista amarela e afixar sinais de estacionamento proibido e de reboque .
É preciso, em resumo, fazer um jogo limpo.
Esclarecimento: é a Rua Santana à Lapa, no troço entre a Infante Santo e a Buenos Aires.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
20 de Setembro de 2008 – Casino da Póvoa, Fernando Pessoa e o cineasta Manoel Oliveira
No sábado passado, 20 de Setembro de 2008, houve festa no Casino da Póvoa para comemorar os 40 anos da Varzim-Sol, sociedade concessionária do jogo naquele Casino. Foi uma festa leve e muito agradável em que o ponto alto foi, para mim, o Bolero de Ravel tocado ao piano com arte sentida e inspirada por três bons craques portugueses: Mário Laginha, Bernardo Sassetti e Pedro Burmester.
Como um evento nunca vem só, comemoraram-se também os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, efeméride que ficou assinalada com uma bonita estátua em mármore erguida no largo em frente ao Casino.
Foi pena não ter encontrado na festa a Directora de recursos humanos da Varzim Sol, Dr.ª Carla Santos Silva, que tem o privilégio de fazer anos no mesmo dia que a Varzim Sol, empresa onde trabalha, e a particularidade de fazer também 40 anos. É compreensível que tenha querido ir comemorar o seu aniversário noutras paragens.
Mas não menos importante do que aquilo que referi, foi a oportunidade que tive de estar a jantar quase ao lado do nosso grande Manoel Oliveira. E que surpresa: quando o baile começou, foi anunciado que a primeira música, a valsa do Danúbio Azul, lhe era dedicada, pois foi no Casino da Póvoa que ele conheceu a sua mulher. E feito o anúncio, logo ele se levantou e dirigiu agilmente para a área da dança, enlaçando-se graciosamente na sua companheira e movendo-se ao som melodioso da conhecida valsa. Claro que as palmas só acabaram quando a dança acabou e ele se começou a dirigir para o seu lugar à mesa onde se sentou, aliás sem precisar de qualquer apoio. Que maravilha poder chegar aos 100 anos com um aspecto tão saudável e jovem.
E agora a expressão da minha vaidade. Estando eu perto do Manoel Oliveira, não resisti dirigir-me a ele, dizer-lhe que o admiro na sua longevidade e na arte do cinema. Ele, de modo muito simpático e afável, estendeu-me a mão e disse apenas: estou muito sensibilizado!
Para terminar desejo longa vida à Varzim-Sol, à memória de Fernando Pessoa, à Dr.ª Carla Santos Silva e ao Senhor Manoel de Oliveira!
Como um evento nunca vem só, comemoraram-se também os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, efeméride que ficou assinalada com uma bonita estátua em mármore erguida no largo em frente ao Casino.
Foi pena não ter encontrado na festa a Directora de recursos humanos da Varzim Sol, Dr.ª Carla Santos Silva, que tem o privilégio de fazer anos no mesmo dia que a Varzim Sol, empresa onde trabalha, e a particularidade de fazer também 40 anos. É compreensível que tenha querido ir comemorar o seu aniversário noutras paragens.
Mas não menos importante do que aquilo que referi, foi a oportunidade que tive de estar a jantar quase ao lado do nosso grande Manoel Oliveira. E que surpresa: quando o baile começou, foi anunciado que a primeira música, a valsa do Danúbio Azul, lhe era dedicada, pois foi no Casino da Póvoa que ele conheceu a sua mulher. E feito o anúncio, logo ele se levantou e dirigiu agilmente para a área da dança, enlaçando-se graciosamente na sua companheira e movendo-se ao som melodioso da conhecida valsa. Claro que as palmas só acabaram quando a dança acabou e ele se começou a dirigir para o seu lugar à mesa onde se sentou, aliás sem precisar de qualquer apoio. Que maravilha poder chegar aos 100 anos com um aspecto tão saudável e jovem.
E agora a expressão da minha vaidade. Estando eu perto do Manoel Oliveira, não resisti dirigir-me a ele, dizer-lhe que o admiro na sua longevidade e na arte do cinema. Ele, de modo muito simpático e afável, estendeu-me a mão e disse apenas: estou muito sensibilizado!
Para terminar desejo longa vida à Varzim-Sol, à memória de Fernando Pessoa, à Dr.ª Carla Santos Silva e ao Senhor Manoel de Oliveira!
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