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domingo, 21 de abril de 2013

Há momentos em que a sorte está do nosso lado.

Foi soalheiro e meigo este dia de 20 de Abril de 2013 em Armação de Pera. Nesta época do ano, esta terra é uma enorme extensão de prédios de apartamentos vazios com pouca gente a circular nas ruas. Mais junto ao mar há mais gente, na maioria idosos estrangeiros.

Logo de manhã, pelas dez horas, vi um corpanzudo tarzan a nadar no mar junto à praia. Havia, em toda a extensão da areia, alguns grupinhos já em fatos de banho, sentados ou a jogar à bola, ou simplesmente a molhar os pés. Outras pessoas andavam a passear junto à água.

Também nós, já mais para o fim da tarde, fomos até à praia junto ao Restaurante Arte Náutica para vermos a lagoa e como estava o nosso areal onde costumamos instalar-nos nos dias de verão. Depois viemos a pé, por aí fora, junto ao mar, até à praia do Rocha da Palha. Foi muito agradável.


O mar, pelo murmurar, cor e extensão, liberta-nos a mente e faz-nos relaxar. Era isso mesmo que eu queria. Mas não consegui de todo.

É que a minha cabeça estava ocupada com um incidente que nos tinha acontecido antes mesmo de iniciarmos aquele nosso passeio e que merece ser aqui relatado.

A meio da tarde tivemos necessidade de ir ao Pingo Doce que dista umas centenas de metros do nosso apartamento. Com um saco de compras debaixo do braço lá seguimos na direcção do dito. No caminho aparece uma placa que indica que o posto da GNR é no virar da esquina e pensei para comigo que, por haver um posto da Guarda ali perto, a zona deveria ser bastante segura.

Entrámos no supermercado e enchemos o nosso carrinho com aquilo que nos pareceu por bem comprar. Os supermercados têm a força suficiente para nos levar a adquirir coisas que não tencionávamos só porque aparecem ali e nos fazem sentir que nos irão servir para qualquer coisa. Eu gosto de dar sempre uma ou duas voltas pelo espaço e ver aquelas enormes prateleiras com os diferentes artigos expostos e arrumadinhos nas secções respectivas.

Feitas as compras, fomos para a fila de uma das caixas. Chegou a vez de a empregada começar a passar as nossas compras no leitor de barras. Os apitos da máquina sucediam-se e eu ia metendo os vários artigos no saco. Completada a contagem, a empregada disse são trinta e um euros e eu tirei do bolso traseiro direito das calças um envelope de avião onde guardava um cartão de crédito e algum dinheiro. Meti o cartão na máquina e confirmei o valor. Nisto, uma das senhoras que estavam atrás de nós na fila trocaram umas palavras e uma delas, ainda nova, passou por trás de mim roçando-se escandalosamente no meu corpo como se o espaço para passar fosse demasiado exíguo. No exacto momento em que passava, eu marcava o código e, devido ao desconforto de estar a ser literalmente empurrado, tive de suspender a operação por momentos. Reparei que a rapariga prolongou o seu encosto sobre mim para voltar a falar com uma das mulheres que estavam atrás de nós, do tipo "será que ela levou alguma coisa? Vou ver…"

Completei a operação de pagamento e ainda me perguntei se a rapariga não teria visto o meu código. Mas sosseguei-me pensando "elas não têm mau aspecto e não parecem pessoas de mal." Saímos do supermercado e pegámos, eu e a minha mulher, no saco: eu na asa esquerda e ela na direita. E perguntámo-nos por onde regressaríamos e decidimos ir pela direita por ser o caminho mais curto para o nosso apartamento. Logo ao virar do parque de estacionamento, há uma rua asfaltada e seguimos por ela. A poucos metros estava uma carro escuro estacionado em segunda linha com uma rapariga de pé, claramente a afunilar-nos para seguirmos pelo passeio. Havia também ali uma carrinha estacionada junto ao passeio e pareceu-me que havia ali mais gente. O passeio pareceu-me demasiado ocupado e por isso puxei a minha companheira para passarmos ao largo pelo meio da estrada e seguirmos pelo passeio do lado oposto. A rua asfaltada segue logo a seguir para a esquerda e há uma rampazinha pedonal que dá acesso à avenida principal por onde se entra em Armação de Pera. Foi para aí que nos dirigimos.


A rampa de descida para a avenida principal tem uns escassos dez metros.

Reparámos que duas raparigas passaram em passo apressado para seguirem à nossa frente. Uma das raparigas que teria uns trinta anos, começou a falar ao alto telemóvel e posicionou-se exactamente à nossa frente seguindo em passo lento. Falava no linguajar próprio do Algarve. Vestia uma blusa verde clara e tinha uma saia branca comprida, composta de duas abas abertas até à cintura. Enquanto seguia à minha frente, ia andando aos ziguezagues e falando ao telemóvel, abanando a parte da frente da saia como se estivesse a afastar o calor das pernas. Estas apareciam expostas até à cintura sendo visível uma listinha de uma mini cueca vermelha.

Chegou ali um carro com várias pessoas, incluindo homens. Parou. De lá saiu uma outra rapariga que fez parceria com a outra que não falava ao telefone.O carro logo arrancou. O par perguntou-nos qual era a direcção do "Aqua qualquer coisa" e insistiu na pergunta. A rapariga que falava ao telefone deu uns passos atrás e atirou-se ostensivamente para cima de nós dizendo "desculpe, desculpe". Nesses segundos, senti dois dedos a infiltrarem-se no bolso traseiro direito das minhas calças e instintivamente rodei a mão direita e por pouco não apanhei a mão que estava a introduzir os dedos no meu bolso. Parada e a olhar para trás, quase colada a mim, estava uma senhora da casa dos cinquenta, toda vestida de preto, baixa, reboluda e com todo o ar de uma veterana mãe de família. Fixei-a o tempo suficiente para ela se virar e cruzar os seus olhos com os meus e dar-me oportunidade para descarregar neles todo o rancor que subitamente se apoderou de mim. Por momentos tive vontade de me atirar a ela e carregá-la de impropérios. Mas ela virou as costas e tornou silenciosa pela rampa acima na direcção do supermercado. As raparigas, entretanto, iam-se afastando, o par para norte e a que falava ao telemóvel para sul, e olhando, aparentemente convencidas de que a senhora de preto tinha tido êxito no trabalho.

Foi assim. Nesses momentos de um redemoinho de mulherio, que até parecia gente de bem, a sorte esteve do nosso lado. Valeu-me o facto de o bolso das calças ser relativamente fundo.

O grupo de mulheres que parecia inofensivo era, afinal, um gangue de malfeitoras, eventualmente assistido e protegido por alguns homens que andavam por perto.

O talão do supermercado regista a hora 18:15 e todo este episódio se passou nos dez minutos seguintes.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

OS ENCANTOS DA NOSSA PRAIA (2)

Em Armação de Pera, nos meses de Agosto e Setembro de cada ano, os veraneantes são surpreendidos por duas festas religiosas com uma raiz popular muito antiga. São as festas de Nossa Senhora dos Navegantes, em meados de Agosto, e de Nossa Senhora dos Aflitos, em meados de Setembro. Faz sentido haver esta festa em Setembro, pois é, na verdade, um mês de aflição para muita gente, por ter que arranjar dinheiro para pagar a segunda prestação do IMI e a conta do IRS.

A festa de Nossa Senhora dos Aflitos ocorreu no passado fim de semana.

A bonita imagem da Senhora dos Aflitos

No primeiro dia da festa, uma colorida procissão com o andor de Nossa Senhora dos Aflitos, saiu da capela de Santo António da Fortaleza, construída em 1720 em honra do Padroeiro desta fortificação, para a Igreja Matriz. No domingo, ao fim da tarde, a procissão fez o caminho inverso, passando pela praia, dando-lhe um aspecto diferente e colorido, surpreendendo os banhistas que gostam de aproveitar a praia até ao pôr do sol.

A Praia da Fortaleza iluminada pelo fogo de artifício

À noite, houve uma prolongada sessão de fogo de artifício, que, durante mais de vinte minutos encheu o céu da praia com sucessivas e explosivas rosáceas luminosas de várias tons, para admiração dos muitos veraneantes que se juntaram na Fortaleza e na Marginal até à Praia dos Pescadores. Por breves segundos a Praia aparecia cheia de estranhas formas e sombras, como num conto de fadas.

A Praia da Fortaleza iluminda pelo fogo de artifício (2)

O tempo esteve excelente durante todo o fim de semana.

domingo, 19 de setembro de 2010

OS ENCANTOS DA NOSSA PRAIA (1)

Há mais de trinta anos que considero a praia de Armação de Pera como a nossa praia preferida. Durante este longo período, vimos aparecer muitas modificações, quase sempre para melhor. Numa postagem anterior, já reportei as modificações ocorridas na zona marginal, salientando as saudades que sentimos do Minigolfe. Mas há muitos pormenores que se mantêm e que dão a esta praia um ambiente agradável. Por exemplo, apesar de todas as transformações, numa das ruas que dão acesso à Fortaleza, continua um convite, com um elevado toque de filosófico romantismo, para descansarmos.


"Está Cansado? Sente-se e relaxe. Olhe que a vida é curta."

Estas cadeiras são uma gentileza de um dos residentes, mas já gozam de imagem pública e merecem ser preservadas pela autarquia.

Por outro lado, no extremo nascente da praia, a Lagoa é um rico viveiro de aves.


Gaivotas e garças

Há quem a queira ver aterrada alegando que, imaginem, é um viveiro dos incomodantes mosquitos. Porém a verdadeira razão é a ambição desmedida da especulação imobiliária.

A Lagoa dá cor à paisagem.

Ainda há poucas semanas, vimos uma cegonha misturada com as gaivotas.

Encontramos facilmente garças e mansos pica-peixes, que quase se aproximam de nós.

Pica peixe

E, ainda, permite-nos ver de vez em quando, a passar ou a pastar por ali, cavalos e vacas, dando um aspecto bucólico à paisagem junto à praia.

Manada de vacas a pastar


Já não será fácil encontrar em Portugal muitas praias tão bonitas como esta.

Passeio a cavalo

Está cansado? Venha até à Praia de Armação de Pera e, com uma bebida fresca num dos restaurantes perto da Lagoa, aprecie estes encantos da natureza. Olhe que a vida são dois dias!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

AFINAL SÃO CINCO.... AS TERRAS

Na postagem anterior, disse que as minhas terras são quatro. No entanto, reparo agora que me enganei, e, mais do que isso, sinto que estou a ser injusto ao ponto de se justificar um sentimento de arrependimento. É que, afinal, as minhas terras são cinco, pois estava a esquecer-me desta outra em que agora me encontro e que é Armação de Pêra. Tratou-se de um esquecimento incompreensível, pois até tenho aqui uma segunda residência. Na verdade, há já cerca de trinta anos que aqui venho regularmente no Verão, e, por vezes, também noutras épocas do ano. Reencontrámos aqui muitas pessoas, conhecemos muita gente, aconteceram muitas coisas. As recordações nostálgicas invadem-me de assalto - o Ti Chico das Sardinhas, aquela vez em que uma das filhas, ainda pequenina, se perdeu na praia apinhada de gente, o tempo que demorámos a encontrá-la, como foram longos e angustiantes esses minutos!!! - e, se não lhes fecho a porta imediatamente, esta nota não sai da última letra que tenho escrita.

Uma vez fechada a porta às recordações, vou falar daquilo que tinha na intenção. E que é a espectacular renovação que encontrei em todo o passeio marítimo desta minha quinta terra, desde uma ponta à outra. E aqui, sim, há lugar a uma ou duas notas nostálgicas. É que um dos pontos de referência da criançada e dos adultos era o Minigolfe. Nas noites de Verão, era ali o ponto de encontro. E, enquanto os pequenos se entretinham a empurrar as bolas no circuito, os pais punham a conversa em dia em relação às notícias da actualidade. Lembro-me, por exemplo, de uma discussão encarniçada num certo dia em que o tema foi o dos deputados que se aumentaram despudoramente a si próprios. Agora, no local não há esplanada, não há minigolfe, não há aparelhos para a criançada brincar. Há um espaço aberto, com um chão coberto com largos ladrilhos e pedra, granito, e uns bancos, estilizados, alumiados por uns candeeiros de jeito modernaço.

O local onde era o Minigolfe

Todo o passeio marítimo, desde a Praia do Ti Chico à Doca dos Pescadores está renovado. Posso dizer que, no conjunto, está muito melhor. Mais aberto, convenientemente marcado como zona pedonal, com uma iluminação contida mas eficiente, nada de exageros.

Nostalgicamente, ficou escrito na calçada a palavra Casino em frente do edifício onde este, outrora, funcionou.


Em frente da igreja há repuxos intermitentes que, seguramente, vão dar uma sensação de frescura aos que ali se detiverem por alguns instantes ou ali fizerem esplanada.


Mas o abominável mamarracho tinha de aparecer. Na Praia da Fortaleza, foi implatado um estranho barracão, que nunca ali esteve, que até um cego vê que não deveria ali estar e que só insondáveis interesses ainda mantêm de pé. Ainda por cima lhe chamam o Palhota Café.

Junto à Praia da Fortaleza

Ficou mais bonita a Rotunda da Lota que beneficiou da colocação de um colorido e tradicional barco de pesca. Há, no entanto, um reparo a fazer. Este barco não tem nome, é um "no name boat", quando as traineiras que vemos na Praia dos Pescadores têm todas nome e alguns dos nomes que lemos inspiram um profundo sentimento de família, de fé, do respeito pelo mar, ou de um amor verdadeiro.