Este ano, os encontros anuais começaram mais cedo, quebrando-se a tradição de o mês de Maio ser considerado o mês de todos os encontros. Com efeito, o encontro anual dos reformados do Banco de Portugal deste ano ocorreu no passado dia 2 de Abril.
Este encontro já está despachado. Não quero dizer, com esta expressão de alívio, que não goste de participar nele. Antes pelo contrário. É que assim já não me obriga a fazer opções, como aconteceu em anos em que coincidiu em datas já ocupadas por outros.
A organização do encontro deste ano teve em conta a situação de crise. Houve mais racionalização e descentralização. Só pôde participar quem se inscreveu a tempo e foram organizados encontros regionais, em vez de um único encontro nacional, para evitar despesas de viagem.
Foi a primeira oportunidade de o novo Governador, Dr. Carlos Costa, se dirigir à vasta plateia dos antigos colaboradores do Banco, que tanto orgulho tiveram em servir tão prestigiada instituição e sentem agora muita emoção e nostalgia quando recordam pessoas e episódios do passado. Pessoalmente fico sempre muito impressionado quando reencontro pessoas que já não via há várias dezenas de anos e que ainda estavam na minha memória com a imagem do antigamente. É difícil sobrepor na imagem de uma bonita colega de antanho, bonita, alegre, jovem e atraente, aquela da mesma pessoa que reencontramos agora, já com cabelos brancos, meio curvada e com uma netinha a acompanhá-la. As pessoas deveriam ter o direito de poder permanecer na forma mais saudável e pujante que, em certo momento, atingiram na linha do tempo das suas vidas.
As palavras simpáticas que o Senhor Governador dirigiu aos reformados tentaram motivá-los para o relevante papel que eles ainda podem desempenhar, lançando-lhes o desafio de se empenharem num voluntariado social coordenado pelo próprio Banco, como quem diz, mexam-se porque ainda podem ser úteis.
Gostei da ideia. Também o voluntariado precisa de estímulos, coordenação e meios de apoio e o Banco pode disponibilizar uma boa parte desses requisitos. É triste vermos, cada vez com mais frequência, notícias de pessoas que morreram na mais completa solidão e cujos restos só são descobertos vários dias, meses ou até anos depois. O voluntariado pode desempenhar um papel activo na identificação e acompanhamento de pessoas solitárias.
Agradou-me muito a notícia de em breve ir ser reaberto a Refeitório do Rossio. O Refeitório é sempre uma boa razão para ir até à Baixa e encontrar lá amigos. E para mim tem ainda a vantagem de me trazer a boa recordação das vezes que eu lá levava as minhas filhas. Uma ida com o pai à cantina do Banco era um evento muito apreciado por elas.
E não é verdade que a mousse de chocolate que lá era servida nos deixou saudades?
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sexta-feira, 8 de abril de 2011
segunda-feira, 24 de maio de 2010
O 27.º ENCONTRO DOS REFORMADOS DO BANCO DE PORTUGAL
Na postagem anterior estava eu a falar do 27.º Encontro dos Reformados do Banco de Portugal e acabei por me perder no meio da crise e de tanta gente reformada.
Já estava na parte do almoço.
Sentei-me numa mesa com um velho colega e amigo, a mulher deste, um outro colega que é quase meu vizinho e mais dois cavalheiros vindos do Norte. Um deles foi responsável pela Filial do Banco no Porto. Foi ele que nos apresentou o colega que vinha com ele – o Sr. Sousa.
Os discursos de circunstância têm sido feitos, em anos anteriores, pelo Presidente da Comissão de Reformados e pelo Governador do Banco. Mas, pelos vistos, o ainda actual Governador não gosta de despedidas e, este ano, incumbiu um colega administrador para transmitir a sua mensagem de adeus.
A mulher do meu colega assumiu claramente a posição coordenadora, preocupando-se com tudo e com todos, chamando os empregados sempre que entendia que nos faltava alguma coisa. No fim assumiu mesmo o exclusivo de ir ao bufet e trazer-nos as sobremesas.
As recordações começaram a saltar para a mesa, ficando a conversa particularmente animada no ponto em que cada um contou sua vivência na mudança do antes para o pós 25 de Abril de 1974. Foi uma conversa a cinco porque o Senhor Sousa manteve, durante todo o tempo, uma postura silenciosa, olhando apenas furtivamente para cada um de nós. Estava impecavelmente vestido com um fato castanho, que parecia novo. Tinha uma gravata com pinta de boa marca. A certa altura, esborratou a gravata e, mais tarde, deixou cair bolo para as calças. Mas continuou impávido como se não tivesse dado por nada.
Acabado o almoço despedimo-nos dizendo até para o ano, felicidades e as coisas do costume. O Senhor Sousa, que assistiu de pé e silencioso aos despedimentos, acabou por ser o último a despedir-se, começando por mim. Preparava-me eu para lhe fazer a provocação de lhe perguntar se tinha gostado da nossa discussão colectiva. Contudo, ele antecipou-se, e, com uma voz bastante alta, pausada e serena disse simplesmente:
“Desculpe por eu não ter participado na vossa conversa. Tenho 92 anos e sofro de insuficiência auditiva a 100%. Adeus, felicidades e até para o ano.”
E apertou-me calorosamente a mão. Mentalmente eu tinha dado ao Sr. Sousa aí uns 75 anos!!!
Já estava na parte do almoço.
Sentei-me numa mesa com um velho colega e amigo, a mulher deste, um outro colega que é quase meu vizinho e mais dois cavalheiros vindos do Norte. Um deles foi responsável pela Filial do Banco no Porto. Foi ele que nos apresentou o colega que vinha com ele – o Sr. Sousa.
Os discursos de circunstância têm sido feitos, em anos anteriores, pelo Presidente da Comissão de Reformados e pelo Governador do Banco. Mas, pelos vistos, o ainda actual Governador não gosta de despedidas e, este ano, incumbiu um colega administrador para transmitir a sua mensagem de adeus.
A mulher do meu colega assumiu claramente a posição coordenadora, preocupando-se com tudo e com todos, chamando os empregados sempre que entendia que nos faltava alguma coisa. No fim assumiu mesmo o exclusivo de ir ao bufet e trazer-nos as sobremesas.
As recordações começaram a saltar para a mesa, ficando a conversa particularmente animada no ponto em que cada um contou sua vivência na mudança do antes para o pós 25 de Abril de 1974. Foi uma conversa a cinco porque o Senhor Sousa manteve, durante todo o tempo, uma postura silenciosa, olhando apenas furtivamente para cada um de nós. Estava impecavelmente vestido com um fato castanho, que parecia novo. Tinha uma gravata com pinta de boa marca. A certa altura, esborratou a gravata e, mais tarde, deixou cair bolo para as calças. Mas continuou impávido como se não tivesse dado por nada.
Acabado o almoço despedimo-nos dizendo até para o ano, felicidades e as coisas do costume. O Senhor Sousa, que assistiu de pé e silencioso aos despedimentos, acabou por ser o último a despedir-se, começando por mim. Preparava-me eu para lhe fazer a provocação de lhe perguntar se tinha gostado da nossa discussão colectiva. Contudo, ele antecipou-se, e, com uma voz bastante alta, pausada e serena disse simplesmente:
“Desculpe por eu não ter participado na vossa conversa. Tenho 92 anos e sofro de insuficiência auditiva a 100%. Adeus, felicidades e até para o ano.”
E apertou-me calorosamente a mão. Mentalmente eu tinha dado ao Sr. Sousa aí uns 75 anos!!!
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domingo, 23 de maio de 2010
LÁ ONDE A CRISE COMEÇOU...
No passado sábado, dia 22 de Maio, foi o encontro anual (27.º) dos reformados do Banco de Portugal. Trata-se de um evento que decorre em cada ano segundo a cópia do programa do ano anterior. Uma missa nos Jerónimos e um almoço no Pavilhão de Congressos (antiga FIL). Embora não sendo de participação obrigatória, é para mim o único dia de trabalho obrigatório que ainda me liga ao Banco de Portugal.
Este ano não foi excepção. A igreja do Mosteiro dos foi fechada ao turismo durante mais ou menos uma hora e encheu-se de reformados e famílias. O Grupo Coral dos Empregados do Banco solenizou a missa, sendo de notar o som maravilhoso do novo órgão. Já o tinha ouvido na televisão durante a visita de Bento de XVI à igreja. Mas ao vivo ouvi-o agora e fiquei maravilhado.
O intervalo entre a missa e o almoço é o momento do reencontro. São os abraços para compensar a ausência de um ano. E as exclamações de colegas que apenas recordo de cara e que me cumprimentam como se nos víssemos todos os dias. Embaraçado, nem sequer me atrevo a perguntar o nome. E depois fico a matutar quem é ele, quem é, quem é. Aconteceu-me mesmo ter que responder no momento à pergunta sabes quem eu sou. E, claro, errei. Sou muito fraco em memorizar nomes e em ligar caras aos ditos. Isso não é o meu forte.
Havia muita gente. Quinze filas de oito mesas a dez lugares. Fazendo o desconto a algumas mesas não utilizadas e a um ou outro lugar vazio nas mesas ocupadas, não estarei longe da realidade se disser que havia ali 900 pessoas. Como cada reformado podia levar um acompanhante, estarei perto da verdade se disser que havia ali pelo menos 450 reformados.
Tantos reformados, Senhor!
Aqui dei por mim a navegar lá no ponto onde a actual crise começou. Na segunda metade dos anos oitenta, quando as instituições europeias começaram a ser criadas. À medida que o Banco Central Europeu ia ganhando forma e as atribuições do Banco de Portugal iam passando para lá, vinham as circulares com os incentivos à reforma e à pré-reforma. Várias centenas de postos de trabalho foram transferidas para o centro da Europa e por cá começavam a ser constituídas as legiões de reformados. Era o verdadeiro começo da crise. A seguir foram desactivadas as alfândegas terrestres. Reformaram os respectivos funcionários e levaram à falência muitos dos despachantes oficiais. Deram subsídios para arrancar vinhas e fechar estábulos. As quotas da pesca, do leite, dos têxteis originavam a extinção de postos de trabalho. Legiões de desempregados passaram a viver do subsídio de desemprego.
E o que irá acontecer quando já não houver fundo de desemprego para ninguém?
Quem for bruxo que adivinhe. Por mim prefiro desejar ardentemente que a crise passe depressa.
Este ano não foi excepção. A igreja do Mosteiro dos foi fechada ao turismo durante mais ou menos uma hora e encheu-se de reformados e famílias. O Grupo Coral dos Empregados do Banco solenizou a missa, sendo de notar o som maravilhoso do novo órgão. Já o tinha ouvido na televisão durante a visita de Bento de XVI à igreja. Mas ao vivo ouvi-o agora e fiquei maravilhado.
O novo órgão dos Jerónimos
Havia muita gente. Quinze filas de oito mesas a dez lugares. Fazendo o desconto a algumas mesas não utilizadas e a um ou outro lugar vazio nas mesas ocupadas, não estarei longe da realidade se disser que havia ali 900 pessoas. Como cada reformado podia levar um acompanhante, estarei perto da verdade se disser que havia ali pelo menos 450 reformados.
O almoço
Tantos reformados, Senhor!
Aqui dei por mim a navegar lá no ponto onde a actual crise começou. Na segunda metade dos anos oitenta, quando as instituições europeias começaram a ser criadas. À medida que o Banco Central Europeu ia ganhando forma e as atribuições do Banco de Portugal iam passando para lá, vinham as circulares com os incentivos à reforma e à pré-reforma. Várias centenas de postos de trabalho foram transferidas para o centro da Europa e por cá começavam a ser constituídas as legiões de reformados. Era o verdadeiro começo da crise. A seguir foram desactivadas as alfândegas terrestres. Reformaram os respectivos funcionários e levaram à falência muitos dos despachantes oficiais. Deram subsídios para arrancar vinhas e fechar estábulos. As quotas da pesca, do leite, dos têxteis originavam a extinção de postos de trabalho. Legiões de desempregados passaram a viver do subsídio de desemprego.
E o que irá acontecer quando já não houver fundo de desemprego para ninguém?
Quem for bruxo que adivinhe. Por mim prefiro desejar ardentemente que a crise passe depressa.
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