Vampiros é o nome da Companhia de Caçadores 2367, do Batalhão 2845, expedicionária na Guiné nos anos de 1968 a 1970. Desta vez, fez o seu encontro anual na Mealhada, no Restaurante Três Pinheiros, no passado dia 21.
É sempre agradável reencontrar os antigos companheiros.
As cabeças de cabelos brancos fizeram roda à volta das mesas. Muitos fizeram-se acompanhar das suas famílias, incluindo filhos e netos. Uma história ou outra do passado surgiu naturalmente, acabando por gerar emoções.
O tempo não deu para falar mais longamente com todos e, por isso, fiquei com pena. Registei com carinho o abraço sentido do Rui, homem grande que todos os anos me fala e abraça com as lágrimas nos olhos.
O serviço militar de outros tempos gerou este grupo de amigos cuja amizade se mantém há mais de quarenta anos.
Enquanto prestou serviço na Guiné, a Companhia dos Vampiros fez muito mais do que a guerra. Tinha uma escola, prestava auxílio médico-sanitário às populações. Distribuía alimentos. Ajudou a fazer caminhos pontes e estradas. Foi, aliás, na construção da estrada entre Có e Pelundo que ficou mortalmente ferido um dos nossos queridos companheiros. Pena é que a Pátria do Portugal de hoje não seja a mesma Pátria que nos mobilizou e obrigou a abandonar as nossas vidas de jovens de então para irmos ao seu serviço. Agora esse serviço então dito de patriótico é chamado depreciativamente de, apenas, guerra colonial. Alguém deveria avaliar, enquanto é tempo, os aspectos positivos da passagem forçada dos jovens dos anos sessenta e setenta pelas terras distantes que não nos diziam nada e a que tivemos de nos adaptar.
A Companhia 2367 fez o percurso, na Guiné, começando pelo Olossato, Bula, Có, Pelundo, Teixeira Pinto (actual Cachungo) e Cacheu.
Nas operações andava preferencialmente de noite e, por isso, ficou conhecida pelo nome de Vampiros.
Ver o vídeo do encontro em
http://www.youtube.com/watch?v=pTYvxX_g_xA
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sábado, 28 de maio de 2011
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
UM RÁDIO COM HISTÓRIA
Numa postagem anterior, a propósito do 75.º aniversário da Rádio Pública (Emissora Nacional), referi-me ao primeiro rádio que conheci, no tempo em que esse aparelho ainda era uma “telefonia”.
No seguimento desse tema, ocorre-me falar hoje de mais um dos aparelhos que tive e ainda tenho e de que gosto. Isto porque foi meu companheiro na guerra da Guiné e, ainda, nos primeiros anos da minha vida após o serviço militar.
A vida nas matas da Guiné era difícil. O isolamento era quase total. Tínhamos os aparelhos de comunicação militar para a actividade operacional e recebíamos, de quando em quando, as cartas e aerogramas que alguns membros da família e amigos nos escreviam. Um irmão meu enviava-me, mensalmente, um pacote com o jornal “O Século”. Depois de receber os jornais com mais de um mês de atraso, retirava um diariamente que lia como se fosse o jornal do dia, e colocava-o na mesa da messe da Companhia para os camaradas o lerem também. Havia assim a ilusão de que tínhamos um jornal diário para ler. Uma outra irmã enviava-me, por seu lado, pacotes com as fotonovelas de Corin Telhado, que passavam de mão em mão até as perder de vista.
Para ter notícias actuais, comprei, numa primeira viagem a Bissau, numa loja chamada Taufik Saad que vendia de tudo e toda a gente conhecia, um moderno aparelho de rádio da marca Hitachi. Este aparelho tinha a particularidade de ter já banda de frequência modelada o que então era novidade. Anteriormente os rádios tinham apenas bandas de onda média e curta. Este rádio era muito avançado para a época, pois permitia-me estar actualizado com a informação de Portugal e, ainda, ocupar os tempos livres procurando novas estações.
Ouvia a Rádio Bissau e as emissoras de países vizinhos, como a Guiné Conacry e o Senegal. Mas apanhava também a Emissora Nacional e muitas estações da América do Sul, nomeadamente Brasil e Argentina.
Foi numa dessas estações sul-americanas em língua espanhola que ouvi, pela primeira vez, o tema de Jane Birkin “Je t’aime, moi non plus!”. Estávamos em 1969. Fiquei impressionado com o comentário do locutor em relação às reacções puritanas que o tema estava a desencadear. Por isso, na primeira oportunidade, comprei esse disco que foi ouvido vezes sem conta no gira-discos da Companhia 2367.
Este rádio tem a particularidade de ter uma grande amplitude de banda de FM, permitindo ouvir redes de comunicações militares e redes privadas.
Certo dia, estava no aquartelamento com o rádio nos joelhos. Ao meu lado estava um major que ali estava casualmente em visita operacional. Sem esperar, começámos a ouvir o emissor do posto de rádio do aquartelamento em que um alferes, que também ali estava de passagem, estava a falar com um camarada de outra guarnição, dizendo, a certa altura: “Estou cá com “o não há figos; o tipo é isto é aquilo…”. Desancava, obviamente, no “não há figos”.
Ora “o não há figos” era a alcunha do major que estava ao meu lado. Chamávamos-lhe assim, porque, após cada ideia que expunha, acrescentava sempre como muleta final de afirmação “E não há figos!!!”
Quando o alferes voltou foi logo interpelado pelo major e mandado pôr em sentido e ouviu das boas…
Já em Portugal, esta banda larga de FM permitiu-me seguir as operações militares do 25 de Abril através das comunicações dos vários destacamentos. Acompanhei, por exemplo, a troca de contactos de um pelotão da GNR nas imediações do Quartel do Carmo com o seu comando. Mais tarde, ouvi na rádio essas mesmas comunicações que eram divulgadas com a menção de que tinham sido cedidas pelos filhos do Major Durão que as tinham gravado. Eu só não as gravei na altura porque não tinha meios.
Este rádio de que eu gosto é, assim, histórico para mim por essas e outras razões de que refiro a título de exemplo:
- Em 20 de Julho de 1969, permitiu-me acompanhar a missão da Apollo 11 que, nessa data, poisou no "Mar da Tranquilidade" da superfície lunar. Foi com entusiasmo que então eu e outros camaradas acompanhámos a chegada de Neil Amstrong e Edwin Aldrin à lua. Afinal, eles foram, até hoje, os únicos homens a caminhar no solo lunar.
- Em 2 de Setembro de 1969, estava no meu quarto do aquartelamento do Cacheu, juntamente com mais alguns camaradas que foram comigo ouvir o noticiário no meu rádio. Estava connosco o Major Magalhães Osório que, ao ouvir a notícia da morte de Ho Chi Minh, mostrou grande tristeza e nos confessou ser um grande admirador desse homem. Nós considerávamos este Major um militar excelente, com formação e qualidades fora do comum. Recordo as palavras que ele então proferiu, dizendo que, se ele governasse a América, acabava com a Guerra do Vietname em três dias, mudando a estratégia para ter Ho Chi Minh como aliado, em vez de como inimigo. Mais disse que os americanos não eram capazes de fazer isso porque nunca tinham tentado explorar o lado bom de Ho Chi Minh. O Major Osório era um convicto defensor da teoria de que a guerra colonial só podia ter uma solução política. Por isso, empenhava-se em negociações mais ou menos clandestinas com o PAIGC para encontrar uma solução pacífica para a guerra. Só que uma coisa é o ideal e outra é a realidade da vida. E assim aconteceu que, em 20 de Abril de 1970, o Major Osório, juntamente com os Majores Passos Ramos e Pereira da Silva e o Alferes Joaquim Palmeiro Mosca foram barbaramente assassinados pelos guerrilheiros do PAIGC, após terem começado com eles um desses encontros clandestinos nas matas do Pelundo, para o qual era condição essencial, aceite por todos, irem completamente desarmados. À memória destes homens ousados, hoje já esquecidos, um PN e uma AM.
Por estas e por muitas outras vivências que não é oportuno contar aqui, considero esta minha telefonia um rádio com história.
No seguimento desse tema, ocorre-me falar hoje de mais um dos aparelhos que tive e ainda tenho e de que gosto. Isto porque foi meu companheiro na guerra da Guiné e, ainda, nos primeiros anos da minha vida após o serviço militar.
A vida nas matas da Guiné era difícil. O isolamento era quase total. Tínhamos os aparelhos de comunicação militar para a actividade operacional e recebíamos, de quando em quando, as cartas e aerogramas que alguns membros da família e amigos nos escreviam. Um irmão meu enviava-me, mensalmente, um pacote com o jornal “O Século”. Depois de receber os jornais com mais de um mês de atraso, retirava um diariamente que lia como se fosse o jornal do dia, e colocava-o na mesa da messe da Companhia para os camaradas o lerem também. Havia assim a ilusão de que tínhamos um jornal diário para ler. Uma outra irmã enviava-me, por seu lado, pacotes com as fotonovelas de Corin Telhado, que passavam de mão em mão até as perder de vista.
Para ter notícias actuais, comprei, numa primeira viagem a Bissau, numa loja chamada Taufik Saad que vendia de tudo e toda a gente conhecia, um moderno aparelho de rádio da marca Hitachi. Este aparelho tinha a particularidade de ter já banda de frequência modelada o que então era novidade. Anteriormente os rádios tinham apenas bandas de onda média e curta. Este rádio era muito avançado para a época, pois permitia-me estar actualizado com a informação de Portugal e, ainda, ocupar os tempos livres procurando novas estações.
Ouvia a Rádio Bissau e as emissoras de países vizinhos, como a Guiné Conacry e o Senegal. Mas apanhava também a Emissora Nacional e muitas estações da América do Sul, nomeadamente Brasil e Argentina.
Foi numa dessas estações sul-americanas em língua espanhola que ouvi, pela primeira vez, o tema de Jane Birkin “Je t’aime, moi non plus!”. Estávamos em 1969. Fiquei impressionado com o comentário do locutor em relação às reacções puritanas que o tema estava a desencadear. Por isso, na primeira oportunidade, comprei esse disco que foi ouvido vezes sem conta no gira-discos da Companhia 2367.
Este rádio tem a particularidade de ter uma grande amplitude de banda de FM, permitindo ouvir redes de comunicações militares e redes privadas.
Certo dia, estava no aquartelamento com o rádio nos joelhos. Ao meu lado estava um major que ali estava casualmente em visita operacional. Sem esperar, começámos a ouvir o emissor do posto de rádio do aquartelamento em que um alferes, que também ali estava de passagem, estava a falar com um camarada de outra guarnição, dizendo, a certa altura: “Estou cá com “o não há figos; o tipo é isto é aquilo…”. Desancava, obviamente, no “não há figos”.
Ora “o não há figos” era a alcunha do major que estava ao meu lado. Chamávamos-lhe assim, porque, após cada ideia que expunha, acrescentava sempre como muleta final de afirmação “E não há figos!!!”
Quando o alferes voltou foi logo interpelado pelo major e mandado pôr em sentido e ouviu das boas…
Já em Portugal, esta banda larga de FM permitiu-me seguir as operações militares do 25 de Abril através das comunicações dos vários destacamentos. Acompanhei, por exemplo, a troca de contactos de um pelotão da GNR nas imediações do Quartel do Carmo com o seu comando. Mais tarde, ouvi na rádio essas mesmas comunicações que eram divulgadas com a menção de que tinham sido cedidas pelos filhos do Major Durão que as tinham gravado. Eu só não as gravei na altura porque não tinha meios.
Este rádio de que eu gosto é, assim, histórico para mim por essas e outras razões de que refiro a título de exemplo:
- Em 20 de Julho de 1969, permitiu-me acompanhar a missão da Apollo 11 que, nessa data, poisou no "Mar da Tranquilidade" da superfície lunar. Foi com entusiasmo que então eu e outros camaradas acompanhámos a chegada de Neil Amstrong e Edwin Aldrin à lua. Afinal, eles foram, até hoje, os únicos homens a caminhar no solo lunar.
- Em 2 de Setembro de 1969, estava no meu quarto do aquartelamento do Cacheu, juntamente com mais alguns camaradas que foram comigo ouvir o noticiário no meu rádio. Estava connosco o Major Magalhães Osório que, ao ouvir a notícia da morte de Ho Chi Minh, mostrou grande tristeza e nos confessou ser um grande admirador desse homem. Nós considerávamos este Major um militar excelente, com formação e qualidades fora do comum. Recordo as palavras que ele então proferiu, dizendo que, se ele governasse a América, acabava com a Guerra do Vietname em três dias, mudando a estratégia para ter Ho Chi Minh como aliado, em vez de como inimigo. Mais disse que os americanos não eram capazes de fazer isso porque nunca tinham tentado explorar o lado bom de Ho Chi Minh. O Major Osório era um convicto defensor da teoria de que a guerra colonial só podia ter uma solução política. Por isso, empenhava-se em negociações mais ou menos clandestinas com o PAIGC para encontrar uma solução pacífica para a guerra. Só que uma coisa é o ideal e outra é a realidade da vida. E assim aconteceu que, em 20 de Abril de 1970, o Major Osório, juntamente com os Majores Passos Ramos e Pereira da Silva e o Alferes Joaquim Palmeiro Mosca foram barbaramente assassinados pelos guerrilheiros do PAIGC, após terem começado com eles um desses encontros clandestinos nas matas do Pelundo, para o qual era condição essencial, aceite por todos, irem completamente desarmados. À memória destes homens ousados, hoje já esquecidos, um PN e uma AM.
Por estas e por muitas outras vivências que não é oportuno contar aqui, considero esta minha telefonia um rádio com história.
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