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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O instinto adivinhador das andorinhas

No último domingo, 3 de Outubro, o céu estava coberto de nuvens baixas que debitavam uma chuva fria e miudinha. Por vezes, o ambiente clareava e o sol quase que queria aparecer. Mas logo voltavam as nuvens de chumbo.

A tarde estava a começar. Estava em casa na minha Aldeia e, em certo momento, olhei para a rua e vi um bando de andorinhas a esvoaçar perto da janela. É estranho que, nesta altura do ano, ainda haja andorinhas que não iniciaram a sua longa viagem migratória. Pode até ser que sejam já residentes permanentes. Como que querendo entrar pela vidraça em arremetidas sucessivas, sem nunca chegarem a bater nos vidros, iam e vinham. Abri a janela e vi que muitas delas já se agarravam desesperadamente à parede mesmo por debaixo do beiral, como se estivessem a querer fugir e esconder-se de um invisível e temível predador, mas sem mostrarem grande receio pela minha presença. Tirei algumas fotografias para documentar este episódio anormal.

As andorinhas agarrando-se à parede

Sentei-me descontraidamente a pensar nas interpretações possíveis deste tipo de fenómeno da natureza. Cerca de cinco minutos depois, comecei a ouvir o sibilar forte do vento. Fui à janela e vi que se tinha desencadeado um vendaval de dimensão considerável. Havia muitas folhas no ar e as copas das oliveiras rodopiavam como se estivessem a ser passadas por uma enorme e invisível varinha mágica. E, de repente, a chuva começou a cair em catarata ao ponto de se formar uma cortina que tapava completamente o horizonte, permitindo apenas alguns metros de visibilidade. As valetas transformaram-se rapidamente em levadas e a estrada ficou coberta por um lençol de água como se de um ribeiro se tratasse.

A tempestade

Durou uns cinco minutos esta tempestade adivinhada pelas andorinhas que se abrigaram o melhor que puderam no sítio onde habitualmente se sentem mais seguras para construírem os seus ninhos: o beiral.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

ANDORINHAS E CEGONHAS, TOCA A REUNIR !!!

Hoje, 8 de Agosto de 2010, domingo, Portugal está debaixo de verdadeira canícula, acima dos 35 graus. Deveria ser a oportunidade para um relaxante repouso, acompanhado apenas dos relatos e reportagens das imensas festas populares e romarias que, por esta altura, se fazem pelo País inteiro.

Os noticiários, contudo, falam de factos dramáticos, num tom severo como se estivessem a relatar a terceira guerra mundial. Da Rússia ao Paquistão, passando pela Alemanha, Checoslováquia e Lituânia, há importantes forças terrestres e aéreas em acção contra incêndios e inundações de catastróficas dimensões. Na Rússia, há aldeias inteiras queimadas, com muitos mortos. E agora acaba de aparecer a notícia da destruição, pelo fogo, de uma fábrica de sofisticado armamento.

É a guerra global de um inimigo tentacular, desconhecido, só visível pelos danos trágicos que provoca.

O nosso País não foge a este cenário de catástrofe. Na última semana, houve uma média superior a 400 fogos diários. Num só dia, foram 451, quase todos a norte do Rio Mondego, precisamente a zona do País em que há mais desemprego. Estão a arder, nomeadamente, a Serra da Gralheira, em S. Pedro do Sul, o Parque Natural do Gerês, as serras de Tabuaço. Os meios terrestres e aéreos são elevados, mas não o suficiente para apagar a tempo esses inexplicáveis fogos que continuam a devastar as nossas florestas.

Há uma neblina a encobrir o céu. Parece ser uma mistura de humidade com fumo, pois, embora não havendo notícia de fogos nas proximidades da aldeia, a Capinha, é notório um marcante odor a queimado.

Não sei bem se, por virtude desta neblina híbrida e do cheiro a queimado ou por outra razão qualquer, foi possível observar, quase à mesma hora, dois fenómenos da natureza que parecem inusitados: uma enorme concentração de andorinhas e outra de cegonhas.



A Rua do Espírito Santo, na Capinha, foi o sítio escolhido pelas andorinhas. Em todos os fios e antenas que lhes podem servir de poiso, os espaços estão milimetricamente ocupados por centenas, talvez milhares dessas graciosas aves, que comunicam entre si através de constantes e estridentes chilreios.



Postadas nos fios, parecem ter receio de levantar voo para não perderem o lugar. Por vezes, esticam uma asita, depois a outra, alisam as penas com os bicos e esticam a cabeça, como que a espreguiçar-se.



 As mais atrevidas lá ensaiam um voo breve, a fazer o teste de que tudo está pronto para a grande viagem da migração anual para outras paragens. Mas quando voltam, o seu lugar já está ocupado e retomam o voo para ir procurar um outro poiso um pouco mais longe.

Num outro lugar, não muito distante, nos limites da Capinha com os Vales, está, quase ao mesmo tempo, a formar-se uma grande concentração de cegonhas.


Estas preferem as copas redondas e verdes das árvores, onde se podem ver poisadas, destacadas pelo seu porte altivo e pelas suas cores preta e branca.


O seu auto-teste de aptidão é feito em voos mais demorados, subindo em espiral até uma altura considerável e esvoaçando depois em círculos com leve perda de altura até voltarem novamente a poisar.


 Esperava que libertassem os sons característicos do matraquear dos seus bicos. Mas é enorme o silêncio para um tão elevado número de cegonhas.

Terão estas concentrações a ver com os fogos? Com a neblina híbrida de fumo e humidade? Com o odor a queimado que paira no ar? Com o intenso calor, que toda a gente considera anormal? Ou estará em causa apenas o cumprir do calendário da natureza que determina que, em certo momento, estas aves têm de emigrar para outras paragens? Quem lhes fixou a data, a hora e o local da concentração? Quem é que, afinal, disse “andorinhas e cegonhas, toca a reunir?"

Gostava de poder dar resposta cabal a estas questões.

(Nota: As fotos das cegonhas foram tiradas por Sebastien Poupier)