É normal haver nos grandes centros comerciais uma área reservada a salas de cinema. Mas não esperava ir encontrar no Panamá uma sala de cinema VIP. O que é isto?
A primeira diferença sente-se logo no custo do bilhete que é o dobro do de uma sala de cinema normal. Uma vez lá dentro, ficamos surpreendidos por encontrarmos um anfiteatro de cómodas poltronas, tipo de primeira classe de avião, ajustáveis até ao ponto de poder fazer uma cama confortável. Como tinha acabado de almoçar, logo pensei que seria inevitável uma soneca.
Um vez sentado, abeirou-se de mim uma linda rapariga que me entregou uma ementa e me explicou como o serviço funcionava. Há snaks preparados, com bebidas incluídas, suficientes para uma refeição ligeira. Ou há bebidas avulsas. Ou simplesmente pipocas. Acabei por escolher um chocolate quente, pois o ar condicionado estava bastante frio.
Tinha tudo para poder fechar os olhos e ir vendo a fita de vez em quando, para poder dizer que a tinha visto.
Porém enganei-me totalmente. O filme que passava era o "127 Horas" que relata a história de um rapaz que ficou preso numa aventura e teve de amputar o seu próprio braço direito para poder sobreviver. Que raio de filme que nos prende do princípio ao fim, provocando-nos sufoco. A respiração pára devido ao suspense por nos sentirmos muito perto da realidade.
Uma vez terminada a projecção, acenderam-se as luzes e reparei que ainda tinha uma boa parte do chocolate por beber. E, além disso, estava com uma valente dor de costas, pois preparei a cama para me deitar e acabei por ficar de costas levantadas, sem apoio, de olhos fixos no écran. E tudo passou num ápice.
Não esperava ir viver uma experiência destas no Panamá.
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terça-feira, 15 de março de 2011
sexta-feira, 11 de março de 2011
Panamá 2011 – Os pulmões da cidade – El Cerro de Ancón
A Cidade do Panamá que goza de brisas marítimas e não sofre de grande poluição industrial, beneficia ainda de dois importantes pulmões verdes, que sentimos prazer em visitar.
Um deles é o Cerro de Ancón. O outro é o Parque Omar.
De toda a cidade do Panamá é visível uma enorme bandeira nacional içada permanentemente no topo de um monte verde, que, ao flutuar majestosa, indica a direcção do vento e enche os panaminanos de auto estima. Se lhes perguntarmos que bandeira é aquela, eles dizem-nos, com orgulho, que é a bandeira nacional do Panamá a flutuar no Cerro de Ancón.
A partir de então sentimo-nos na obrigação de a ir ver de perto.
O acesso, para quem vai de carro, está bem coordenado para evitar entupimentos. E ficamos admirados pelo zelo com que a natureza é aí valorizada. Há avisos que apelam ao asseio e ao respeito pelas plantas e animais. Nota-se o cuidado pró activo dos visitantes em corresponder a esses avisos.
Sabe bem sentir o cheiro da floresta tropical húmida, ver e ouvir, aqui e ali, as aves exóticas. Já não se notam as enormes crateras deixadas pela retirada de muitas toneladas da pedra usada na construção do Canal, pois já foram disfarçadas por acção da própria natureza ou por construções de utilidade social que não ofendem a paisagem.
Há, no topo do monte, tabuletas dispersas com pedaços de poesia que contribuem para que o nosso espírito se sinta ainda mais enleado pelo deslumbramento das vistas.
As vistas sobre toda a cidade do Panamá e sobre o Canal fizeram-nos sentir que foram bem aplicadas as horas que passámos a visitar este miradouro natural do Cidade do Panamá.
Um deles é o Cerro de Ancón. O outro é o Parque Omar.
Vistas da cidade nova do Panamá e da Baía, a partir do Cerro de Ancón
De toda a cidade do Panamá é visível uma enorme bandeira nacional içada permanentemente no topo de um monte verde, que, ao flutuar majestosa, indica a direcção do vento e enche os panaminanos de auto estima. Se lhes perguntarmos que bandeira é aquela, eles dizem-nos, com orgulho, que é a bandeira nacional do Panamá a flutuar no Cerro de Ancón.
A partir de então sentimo-nos na obrigação de a ir ver de perto.
O acesso, para quem vai de carro, está bem coordenado para evitar entupimentos. E ficamos admirados pelo zelo com que a natureza é aí valorizada. Há avisos que apelam ao asseio e ao respeito pelas plantas e animais. Nota-se o cuidado pró activo dos visitantes em corresponder a esses avisos.
Sabe bem sentir o cheiro da floresta tropical húmida, ver e ouvir, aqui e ali, as aves exóticas. Já não se notam as enormes crateras deixadas pela retirada de muitas toneladas da pedra usada na construção do Canal, pois já foram disfarçadas por acção da própria natureza ou por construções de utilidade social que não ofendem a paisagem.
Há, no topo do monte, tabuletas dispersas com pedaços de poesia que contribuem para que o nosso espírito se sinta ainda mais enleado pelo deslumbramento das vistas.
Soñava yo com mi regreso un dia;
de rodillhos mi tierra saludar;
contarle mi nostalgia, mi agonia,
y a su sombra tranquila descansar.
Sé que no eres el mismo; quiero verte
y de lejos tu cima comtemplar;
me queda el corazón para quererte,
ya que no puedo junto a ti llorar.
Centinela avanzada, por tu duelo
lleva mi lira um lazo de créspon;
tu ángel custodio remontose al cielo…
tu ángel custodio remontose al cielo…
ya no eres mio, idolatrado Ancón.
Ficamos surpreendidos pela estátua vivificante da figura de Doña Amelia Denis de Icaza que escreveu estes versos no poema chamado “El Cerro de Ancón”, em 1906, quando este monte já estava sob domínio americano.
As vistas sobre toda a cidade do Panamá e sobre o Canal fizeram-nos sentir que foram bem aplicadas as horas que passámos a visitar este miradouro natural do Cidade do Panamá.
Vistas para o lado do Canal, vendo-se o aeroporto municipal
e, mais ao fundo, as comportas de Miraflores.
domingo, 6 de março de 2011
Panamá 2011 - Linda cidade, linda baía, mas sem praias
A cidade do Panamá tem uma linda baía cheia de recortes. Quando a maré está a encher, o mar fica coberto de longas linhas paralelas fazendo lembrar os efeitos que o vento faz nas searas dos campos alentejanos. Depois, a partir de certa altura, alguns dos traços paralelos ficam brancos, à maneira de um telhado meio coberto de neve.
À noite, a baía tem ainda mais encanto porque fica povoada de muitos milhares de pequenas luzes, desde a costa até à linha do horizonte, onde se alinham os muitos barcos que aguardam a sua vez de entrar no Canal.
Mas quando a maré está baixa, a baía mostra uma imensa mancha de lodo fedorento e o melhor é estar longe.
A Cidade do Panamá não tem praias, o que é compensado por um grande número de piscinas. Quem quiser ir a banhos de mar tem de viajar de avião para as Caraíbas ou ir de carro à procura de uma praia, por uma centena de quilómetros ou mais, pela estrada que vai na direcção da Costa Rica.
Foi isso que fizemos no sábado, 19 de Fevereiro de 2011, com a vantagem de termos podido atravessar a Ponte das Américas que une a parte norte do Continente à parte sul, separadas pelo Canal. Ir ao Panamá e não atravessar esta ponte é quase o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa.
A estrada que seguimos não é uma auto-estrada, se bem que tenha duas vias de cada lado. Durante muitos quilómetros, foi a cena do pára arranca. Soubemos depois que tudo era devido a um camião com um longo atrelado que tinha avariado.
Das várias praias possíveis, escolhemos à sorte e fomos dar à Praia do Coronado, a oitenta e dois quilómetros da capital.
A primeira surpresa que tivemos foi que toda a zona é um enorme condomínio fechado, reservado exclusivamente a condóminos e residentes. Normalmente teríamos de nos identificar à entrada. Mas naquele dia, como estavam com empeendimentos em venda, entregaram-nos um folheto de promoção e deixaram-nos passar.
Há construção até ao limite da areia da praia. Algumas moradias estão mesmo alcantilhadas sobre a praia. De quando em quando, podemos mesmo dizer que, com muita raridade, há como que umas quelhas estreitas que permitem aos residentes que não têm as moradias junto à praia e aos visitantes aceder à mesma.
A chegada à areia decepcionou-nos. Por um lado, tínhamos ainda fresca a recordação das praias de San Blas das Caraíbas. Por outro, esperávamos encontar areia branca e águas serenas e transparentes. Mas o que vimos foi uma praia de areia preta, muito semelhante à Praia de Hac Sa de Macau, e um mar com águas agitadas e turvas, com ondas traiçoeiras que faziam redemoínhos de envolvimento.
Não havia banheiros, nadadores salvadores, bandeiras de sinalização ou equipamaneto de salvamento. Quem quisesse ir à água tinha de o fazer por seu próprio risco.
As gaivotas são mais pequenas que as do nosso Algarve e menos ruidosas.
Na areia da praia apanhava sol uma comprida e linda iguana das Caraíbas que posou o tempo suficiente para a podermos fotografar.
Apesar de tudo, a Praia do Coronado deixou-nos boas recordações, porque, além do mais, fizemos lá um excelente piquenique, onde o manjar mais apreciado foi o feijão frade da minha quinta da aldeia, a Capinha, bem regado com azeite da minha produção. Foi um regalo.
À noite, a baía tem ainda mais encanto porque fica povoada de muitos milhares de pequenas luzes, desde a costa até à linha do horizonte, onde se alinham os muitos barcos que aguardam a sua vez de entrar no Canal.
Mas quando a maré está baixa, a baía mostra uma imensa mancha de lodo fedorento e o melhor é estar longe.
A Cidade do Panamá não tem praias, o que é compensado por um grande número de piscinas. Quem quiser ir a banhos de mar tem de viajar de avião para as Caraíbas ou ir de carro à procura de uma praia, por uma centena de quilómetros ou mais, pela estrada que vai na direcção da Costa Rica.
Foi isso que fizemos no sábado, 19 de Fevereiro de 2011, com a vantagem de termos podido atravessar a Ponte das Américas que une a parte norte do Continente à parte sul, separadas pelo Canal. Ir ao Panamá e não atravessar esta ponte é quase o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa.
A estrada que seguimos não é uma auto-estrada, se bem que tenha duas vias de cada lado. Durante muitos quilómetros, foi a cena do pára arranca. Soubemos depois que tudo era devido a um camião com um longo atrelado que tinha avariado.
Das várias praias possíveis, escolhemos à sorte e fomos dar à Praia do Coronado, a oitenta e dois quilómetros da capital.
A primeira surpresa que tivemos foi que toda a zona é um enorme condomínio fechado, reservado exclusivamente a condóminos e residentes. Normalmente teríamos de nos identificar à entrada. Mas naquele dia, como estavam com empeendimentos em venda, entregaram-nos um folheto de promoção e deixaram-nos passar.
Um bonito prtão de uma das moradias da Praia do Coronado
São muitos quilómetros de moradias térreas com jardim, piscina e, por vezes, campos de ténis. Junto à praia há pelo menos dois grandes empreendimentos altos em propriedade horizontal. Há uma rua paralela à linha da costa e os privilegiados que aí têm as suas moradias têm acesso directo à praia. Os outros têm o acesso dificultado. Há construção até ao limite da areia da praia. Algumas moradias estão mesmo alcantilhadas sobre a praia. De quando em quando, podemos mesmo dizer que, com muita raridade, há como que umas quelhas estreitas que permitem aos residentes que não têm as moradias junto à praia e aos visitantes aceder à mesma.
A chegada à areia decepcionou-nos. Por um lado, tínhamos ainda fresca a recordação das praias de San Blas das Caraíbas. Por outro, esperávamos encontar areia branca e águas serenas e transparentes. Mas o que vimos foi uma praia de areia preta, muito semelhante à Praia de Hac Sa de Macau, e um mar com águas agitadas e turvas, com ondas traiçoeiras que faziam redemoínhos de envolvimento.
Não havia banheiros, nadadores salvadores, bandeiras de sinalização ou equipamaneto de salvamento. Quem quisesse ir à água tinha de o fazer por seu próprio risco.
As gaivotas são mais pequenas que as do nosso Algarve e menos ruidosas.
Na areia da praia apanhava sol uma comprida e linda iguana das Caraíbas que posou o tempo suficiente para a podermos fotografar.
Apesar de tudo, a Praia do Coronado deixou-nos boas recordações, porque, além do mais, fizemos lá um excelente piquenique, onde o manjar mais apreciado foi o feijão frade da minha quinta da aldeia, a Capinha, bem regado com azeite da minha produção. Foi um regalo.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Panamá 2011 - O "Casco Antiguo" é património da Humanidade
Casco Antiguo é designação da velha cidade do Panamá, na sua segunda localização, pois substituiu outra ainda mais antiga abandonada devido à sua fraca segurança, após o saque do corsário inglês Henry Morgan. É um bairro histórico que foi declarado património da Humanidade pela UNESCO em 1997. E, após visitarmos o local, verificámos que há razões de sobra para isso.
Fundado oficialmente em 21 de Janeiro de 1673, este Bairro conserva as características próprias da arquitectura colonial dos séculos XVI e XVII, sendo possível identificar, a partir dela, se os primitivos proprietários eram franceses, italianos ou espanhóis.
Na verdade, há casas com a mansarda francesa, outras com as janelas ao gosto italiano, nomeadamente da Toscânia, e outras, ainda, ao gosto das províncias do sul de Espanha.
Há espaços em que temos a impressão de estar em Macau ou em Goa, dada a semelhança arquitectónica com edifícios que encontrámos nesses territórios. Recordamos que, entre 1585 e 1640, a região do Panamá fazia parte, como Portugal, dos vastos domínios da Coroa de Espanha.
É possível que, nessa altura, tivessem ido para o Panamá alguns religiosos, militares e marinheiros recrutados em Portugal.
Achamos que as três praças principais, a da Catedral Metropolitana, a Prança Bolívar e a Praça Francesa, têm encantos especiais. Saindo da Praça Francesa em direcção ao mar, entra-se no Passeio Esteban Huertas, passagem construída sobre a anterior muralha, rodeada de buganvílias de diversas cores que acompanham o Passeio em forma de arco, dando-lhe um aspecto romântico.
Há aí vários postos de venda de artigos de artesanato, nomeadamente coloridas peças de roupa e utensílios diversos com os sinais da cultura dos índios kunas. Desse passeio, quando a maré está baixa, avistam-se as torres de um submarino alemão que ali encalhou durante a segunda guerra mundial, quando se dirigia ao Canal para o sabotar. Pelos vistos escolheu o caminho errado. Não conseguimos saber o que aconteceu à tripulação.
Andando pelas ruas, notamos que está a ser feito um grande esforço para recuperar as construções no seu primitivo esplendor. Junto à Catedral está uma tabuleta informando que há a ajuda da União Europeia.
No entanto, há ainda muitos edifícios degradados e, diria mesmo, em ruínas.
A grandeza dos edifícios leva-nos a concluir que só as ordens religiosas e a gente mais abastada é que conseguiram construir casa dentro das muralhas. Os mais pobres ficaram de fora. A cidade estendeu-se rapidamente, e esta extensão é, ainda hoje, uma palpitante área comercial com grandes aramazéns e estabelecimentos de vários produtos e muitas tendinhas na rua. Também há lá grandes edifícios coloniais quase em ruínas.
O tema da recuperação do Casco Antíguo é uma das actualidades discutidas na imprensa panamiana, que aponta o mau gosto de algumas recuperações e a lentidão de todo o processo, apesar dos apoios governamentais, e ainda a falta de soluções para o grande problema do trânsito e do parqueamento automóvel.
Um bairro com as características do Casco Antíguo merecia ser todo transfomado em zona pedonal, para o que deveria ser encontrada uma solução que permitisse aos visitantes estacionar os automóveis e autocarros num parque moderno e espaçoso nos arredores.
Mesmo assim, é muito agradável passear pelo Bairro, havendo bons locais para almoçar ou simplesmente beber algo refrescante.
Destaco apenas os quatro monumentos que mais me impressionaram:
- A Catedral Metropolitana - A sua fachada com a parte central na cor natural da pedra contrasta com a cor das duas torres caiadas de branco. O interior da igreja é bonito, por ser espaçoso, pelos vários vitrais das janelas laterais, cada um deles simbolizando uma das ordens religiosas que estiveram ou estão no Panamá. É rico pelos quadros, pelos altares e pelas imagens dos santos. É de notar um retrato do Papa João Paulo II que aí esteve em 1983. No entanto, sentimos alguma tristeza quando vemos que a igreja não está muito cuidada, nomeadamente em termos de limpeza e da exposição do património. Alguns dos quadros estão desalinhados e tortos e outros ali postos às três pancadas, sem um mínimo de gosto e sem qualquer critério.
- O Arco Plano nas ruínas da Igreja de S. Domingos - Este arco teve uma extraordinária importância para a vida do Panamá, pois foi havido como a prova visível de que o País não está em zona sísmica, pois uma oscilação mínima tê-lo-ia derrubado. O tipo de solução encontrada para a construção do Canal teve em conta essa observação, que também é, de certo modo, responsável pela opção de construir a moderna cidade numa ambição de chegar ao céu, como aconteceu na história bíblica da Torre de Babel.
- A Igreja de S. José - Esta igreja é a mais visitada no Panamá. É vulgarmente conhecida pela igreja do altar de ouro. É rica em estatuária religiosa. O altar de ouro foi trazido, peça a peça, da cidade velha. Todos os guias turísticos contam a história de que, ainda nessa cidade, escapou por um triz ao saque do corsário Hanry Morgan, porque os frades lhe deram, à pressa, uma borradela com uma espécie de tinta preta, para disfarçar o dourado. Henry Morgan ainda teve na mão uma peça do altar e chegou a dar ordem para o removerem. Depois desistiu quando se certificou que afinal era apenas de madeira pintada de preto. É uma excelente relíquia de talha dourada do princípio do século XVII.
- E finalmente, o edifício da Presidência da República, onde o Presidente Ricardo Martinelli trabalha e dá as suas recepções oficiais.
O Casco Antiguo, para ser devidamente apreciado, merece mais do que uma visita apressada e ser visto também à noite. As surpresas e as histórias contadas por uma guia conhecedora aparecem a cada passo.
Casco Antiguo visto do Cerro de Ancón
Fundado oficialmente em 21 de Janeiro de 1673, este Bairro conserva as características próprias da arquitectura colonial dos séculos XVI e XVII, sendo possível identificar, a partir dela, se os primitivos proprietários eram franceses, italianos ou espanhóis.
Na verdade, há casas com a mansarda francesa, outras com as janelas ao gosto italiano, nomeadamente da Toscânia, e outras, ainda, ao gosto das províncias do sul de Espanha.
Há espaços em que temos a impressão de estar em Macau ou em Goa, dada a semelhança arquitectónica com edifícios que encontrámos nesses territórios. Recordamos que, entre 1585 e 1640, a região do Panamá fazia parte, como Portugal, dos vastos domínios da Coroa de Espanha.
É possível que, nessa altura, tivessem ido para o Panamá alguns religiosos, militares e marinheiros recrutados em Portugal.
Achamos que as três praças principais, a da Catedral Metropolitana, a Prança Bolívar e a Praça Francesa, têm encantos especiais. Saindo da Praça Francesa em direcção ao mar, entra-se no Passeio Esteban Huertas, passagem construída sobre a anterior muralha, rodeada de buganvílias de diversas cores que acompanham o Passeio em forma de arco, dando-lhe um aspecto romântico.
Há aí vários postos de venda de artigos de artesanato, nomeadamente coloridas peças de roupa e utensílios diversos com os sinais da cultura dos índios kunas. Desse passeio, quando a maré está baixa, avistam-se as torres de um submarino alemão que ali encalhou durante a segunda guerra mundial, quando se dirigia ao Canal para o sabotar. Pelos vistos escolheu o caminho errado. Não conseguimos saber o que aconteceu à tripulação.
Andando pelas ruas, notamos que está a ser feito um grande esforço para recuperar as construções no seu primitivo esplendor. Junto à Catedral está uma tabuleta informando que há a ajuda da União Europeia.
No entanto, há ainda muitos edifícios degradados e, diria mesmo, em ruínas.
A grandeza dos edifícios leva-nos a concluir que só as ordens religiosas e a gente mais abastada é que conseguiram construir casa dentro das muralhas. Os mais pobres ficaram de fora. A cidade estendeu-se rapidamente, e esta extensão é, ainda hoje, uma palpitante área comercial com grandes aramazéns e estabelecimentos de vários produtos e muitas tendinhas na rua. Também há lá grandes edifícios coloniais quase em ruínas.
O tema da recuperação do Casco Antíguo é uma das actualidades discutidas na imprensa panamiana, que aponta o mau gosto de algumas recuperações e a lentidão de todo o processo, apesar dos apoios governamentais, e ainda a falta de soluções para o grande problema do trânsito e do parqueamento automóvel.
Um bairro com as características do Casco Antíguo merecia ser todo transfomado em zona pedonal, para o que deveria ser encontrada uma solução que permitisse aos visitantes estacionar os automóveis e autocarros num parque moderno e espaçoso nos arredores.
Mesmo assim, é muito agradável passear pelo Bairro, havendo bons locais para almoçar ou simplesmente beber algo refrescante.
Destaco apenas os quatro monumentos que mais me impressionaram:
- A Catedral Metropolitana - A sua fachada com a parte central na cor natural da pedra contrasta com a cor das duas torres caiadas de branco. O interior da igreja é bonito, por ser espaçoso, pelos vários vitrais das janelas laterais, cada um deles simbolizando uma das ordens religiosas que estiveram ou estão no Panamá. É rico pelos quadros, pelos altares e pelas imagens dos santos. É de notar um retrato do Papa João Paulo II que aí esteve em 1983. No entanto, sentimos alguma tristeza quando vemos que a igreja não está muito cuidada, nomeadamente em termos de limpeza e da exposição do património. Alguns dos quadros estão desalinhados e tortos e outros ali postos às três pancadas, sem um mínimo de gosto e sem qualquer critério.
- O Arco Plano nas ruínas da Igreja de S. Domingos - Este arco teve uma extraordinária importância para a vida do Panamá, pois foi havido como a prova visível de que o País não está em zona sísmica, pois uma oscilação mínima tê-lo-ia derrubado. O tipo de solução encontrada para a construção do Canal teve em conta essa observação, que também é, de certo modo, responsável pela opção de construir a moderna cidade numa ambição de chegar ao céu, como aconteceu na história bíblica da Torre de Babel.
- A Igreja de S. José - Esta igreja é a mais visitada no Panamá. É vulgarmente conhecida pela igreja do altar de ouro. É rica em estatuária religiosa. O altar de ouro foi trazido, peça a peça, da cidade velha. Todos os guias turísticos contam a história de que, ainda nessa cidade, escapou por um triz ao saque do corsário Hanry Morgan, porque os frades lhe deram, à pressa, uma borradela com uma espécie de tinta preta, para disfarçar o dourado. Henry Morgan ainda teve na mão uma peça do altar e chegou a dar ordem para o removerem. Depois desistiu quando se certificou que afinal era apenas de madeira pintada de preto. É uma excelente relíquia de talha dourada do princípio do século XVII.
- E finalmente, o edifício da Presidência da República, onde o Presidente Ricardo Martinelli trabalha e dá as suas recepções oficiais.
O Casco Antiguo, para ser devidamente apreciado, merece mais do que uma visita apressada e ser visto também à noite. As surpresas e as histórias contadas por uma guia conhecedora aparecem a cada passo.
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Panamá 2011 - A cidade do Panamá e os Piratas
Os Piratas das Caraíbas fazem parte do nosso imáginário de criança devido às interessantes histórias de banda desenhada, filmes e livros com textos de aventuras. Quem já visitou a Disneylândia certamente que não deixou escapar o interessante módulo Piratas das Caraíbas que, num ambiente quase real, nos leva ao exótico confronto com eles e com os seus gritos de guerra.
Eles surpreendiam com ousadia as embarcações e povoações costeiras, pilhando-as, aprisionando-as e, por vezes, destruindo-as na totalidade.
As Caraíbas ficam no lado Atlântico do Panamá. E a cidade com este nome fica no lado oposto, ou seja, no lado do Pacífico.
Isto pode dar a ideia de que a cidade esteve sempre livre de assaltos. Contudo, também lá os piratas foram uma realidade. Mas enquanto que nas Caraíbas eles andavam em pequenos bandos, na costa do Pacífico apareceram com uma organização bem mais poderosa.
O local onde inicialmente foi estabelecida a Cidade do Panamá, por estar na costa oposta à das Caraíbas,era considerado seguro. A passagem para o Pacífico era difícil, e pensava-se que este mar, tão vasto como desconhecido, não teria condições para abrigar piratas.
Foi neste enquadramento histórico que a cidade do Panamá foi fundada, na sua primeira versão, em 15 de Agosto de 1519, pelo Governador Pedro Arias de Ávila, também conhecido por Pedrarias d'Ávila, ou seja, o sogro de Balboa. Como já referi noutro post, Balboa foi decapitado dois anos antes em Darien, após um processo muito rápido e sumário movido por Pedrarias. Este acusou Balboa de traição ao Rei de Espanha e nada o fez deter. Assistiu sereno à decapitação do genro e mais alguns dos seus homens apenas a dois metros de distância. A prova no processo foi feita por dois dos subordinados de Balboa a quem Pedrarias prometeu que lhes pouparia a vida e os recompensaria se eles testemunhassem contra o seu comandante. E assim aconteceu.
Pedrarias era mais invejoso que estratega. E, ao fundar a cidade no local em que primeiramente esta existiu, falhou totalmente em termos de segurança.
Na verdade, o mundo foi-se tornando mais pequeno à medida que eram feitas as decobertas e as viagens se iam tornando rotina. No oceano Pacífico, desenvolveu-se um tipo de pirataria bem mais poderosa e organizada, operando como verdadeiras esquadras de guerra, com muitas centenas de homens. São conhecidas as histórias surprendentes de alguns famosos corsários ingleses.
A cidade antiga do Panamá, segundo a reconstituição dos entendidos, teria, em 28 de Janeiro de 1671, cerca de 10.000 habitantes e a aparência da imagem a seguir reproduzida.
Ora, na madrugada desse dia, quando a escuridão da noite ainda mantinha a população adormecida, os habitantes foram surpreendidos com a dura realidade de que a cidade estava totalmente cercada por cerca de 1.200 homens do corsário inglês Henry Morgan. As primeiras reacções foram brutalmente reprimidas e toda a população ficou petrificada pelo terror. Um grande número de homens e mulheres é capturado, sendo os cativos amarrados de modo a impedir-lhes qualquer movimento reactivo. Os homens interessavam aos piratas para a execução de trabalhos forçados e para pedidos de resgate. As mulheres interessavam-lhes para a execução de trabalhos, para pedidos de resgate e para o prazer.
Morgan esteve tão à vontade que teve os cativos durante horas na praça. Familiares foram aí tentar resgatá-los e Morgan estabelecia os preços. As famílias desfizeram-se em esforços para arranjar tudo o que podiam para ir resgatar os seus entes queridos. Alguns conseguiram. Outros não. No fim, Morgan saiu com um cortejo de 600 cativos amarrados uns aos outros num coro de gritos que chegavam ao céu. Com eles iam 175 mulas carregadas de ouro e objectos valiosos. Nem os vasos sagrados das igrejas escaparam. E muitas outras mulas seguiam depois carregadas com grandes quantidades de mantimentos de vários géneros que obteve pelo resgate de alguns cativos. E carregou tudo nos seus barcos tranquilamente sem ser molestado.
A cidade ficou destroçada.
A seguir muita gente apavorada saiu dali para outros locais. A população que ficou tomou a decisão de abandonar o local e criar uma cidade nova numa ponta junto ao mar, com aspecto de promontório, apenas a meia dúzia de quilómetros de distância.
A nova cidade do Panamá, também oficialmente fundada por Pedrarias em 21 de Janeiro de 1673, foi desenhada a régua e esquadro, em jeito de Baixa Pombalina. Foi fortificada com altas muralhas e com uma complexa rede de túneis que permitiriam o escape da população em caso de perigo e o abastecimento da defesa em caso de cerco.
Devido à fama das suas capacidades defensivas, nunca nenhum pirata ousou atacá-la. É hoje conhecida por Casco Antiguo e é um dos locais mais interessantes, e o mais visitado, da cidade do Panamá.
Eles surpreendiam com ousadia as embarcações e povoações costeiras, pilhando-as, aprisionando-as e, por vezes, destruindo-as na totalidade.
As Caraíbas ficam no lado Atlântico do Panamá. E a cidade com este nome fica no lado oposto, ou seja, no lado do Pacífico.
Isto pode dar a ideia de que a cidade esteve sempre livre de assaltos. Contudo, também lá os piratas foram uma realidade. Mas enquanto que nas Caraíbas eles andavam em pequenos bandos, na costa do Pacífico apareceram com uma organização bem mais poderosa.
O local onde inicialmente foi estabelecida a Cidade do Panamá, por estar na costa oposta à das Caraíbas,era considerado seguro. A passagem para o Pacífico era difícil, e pensava-se que este mar, tão vasto como desconhecido, não teria condições para abrigar piratas.
Foi neste enquadramento histórico que a cidade do Panamá foi fundada, na sua primeira versão, em 15 de Agosto de 1519, pelo Governador Pedro Arias de Ávila, também conhecido por Pedrarias d'Ávila, ou seja, o sogro de Balboa. Como já referi noutro post, Balboa foi decapitado dois anos antes em Darien, após um processo muito rápido e sumário movido por Pedrarias. Este acusou Balboa de traição ao Rei de Espanha e nada o fez deter. Assistiu sereno à decapitação do genro e mais alguns dos seus homens apenas a dois metros de distância. A prova no processo foi feita por dois dos subordinados de Balboa a quem Pedrarias prometeu que lhes pouparia a vida e os recompensaria se eles testemunhassem contra o seu comandante. E assim aconteceu.
Pedrarias era mais invejoso que estratega. E, ao fundar a cidade no local em que primeiramente esta existiu, falhou totalmente em termos de segurança.
Na verdade, o mundo foi-se tornando mais pequeno à medida que eram feitas as decobertas e as viagens se iam tornando rotina. No oceano Pacífico, desenvolveu-se um tipo de pirataria bem mais poderosa e organizada, operando como verdadeiras esquadras de guerra, com muitas centenas de homens. São conhecidas as histórias surprendentes de alguns famosos corsários ingleses.
A cidade antiga do Panamá, segundo a reconstituição dos entendidos, teria, em 28 de Janeiro de 1671, cerca de 10.000 habitantes e a aparência da imagem a seguir reproduzida.
Reconstituição histórica da parte central da cidade.
Morgan esteve tão à vontade que teve os cativos durante horas na praça. Familiares foram aí tentar resgatá-los e Morgan estabelecia os preços. As famílias desfizeram-se em esforços para arranjar tudo o que podiam para ir resgatar os seus entes queridos. Alguns conseguiram. Outros não. No fim, Morgan saiu com um cortejo de 600 cativos amarrados uns aos outros num coro de gritos que chegavam ao céu. Com eles iam 175 mulas carregadas de ouro e objectos valiosos. Nem os vasos sagrados das igrejas escaparam. E muitas outras mulas seguiam depois carregadas com grandes quantidades de mantimentos de vários géneros que obteve pelo resgate de alguns cativos. E carregou tudo nos seus barcos tranquilamente sem ser molestado.
Aspecto parcial da cidade em ruínas. Muita da pedra dos edifícios foi levada para a nova cidade.
A cidade ficou destroçada.
A imponente torre da catedral ainda se mantém de pé. O espaço da antiga catedral é aproveitado para eventos recreativos e culturais. Não a pudemos visitar porque nela estava armada uma sala de espectáculos onde iria actuar o cantor Yanni.
A capela-mor desta outra igreja é aproveitada para eventos culturais e para festas privadas. Na altura em que a visitámos estava a decorrer uma festa de anos.
A nova cidade do Panamá, também oficialmente fundada por Pedrarias em 21 de Janeiro de 1673, foi desenhada a régua e esquadro, em jeito de Baixa Pombalina. Foi fortificada com altas muralhas e com uma complexa rede de túneis que permitiriam o escape da população em caso de perigo e o abastecimento da defesa em caso de cerco.
Devido à fama das suas capacidades defensivas, nunca nenhum pirata ousou atacá-la. É hoje conhecida por Casco Antiguo e é um dos locais mais interessantes, e o mais visitado, da cidade do Panamá.
O "Casco Antiguo" visto da Avelinda Balboa.
O Casco Antiguo é hoje Património da Humanidade. É lá que estão localizados a Presidência da República e alguns dos principais edifícios governamentais, principalmente da área da cultura.
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Panamá 2011- Esquiando sobre as nuvens
Estávamos de regresso à cidade do Panamá.
O avião era minúsculo. Trazia nove passageiros: os quatro do meu grupo, um casal de jovens alemães e uma mulher e duas crianças kunas. Na pista ficaram passageiros a protestar por não terem tido lugar. Fiquei com a impressão de que os kunas têm privilégios e prioridades quando se querem fazer transportar de avião para a capital.
O ruído dos dois motores era ensurdecedor e não adiantava taparmos os ouvidos com as mãos. Eu já andei em aviões de tamanho semelhante na Guiné e em Cabo Verde, mas já não me lembrava bem como era.
A primeira parte do trajecto foi sobre a costa norte do Panamá. Aproveitámos para ver do ar o belíssimo arquipélago de San Blas e para lhe dizermos adeus.
Porém, a certa altura, o avião começou a sobrevoar o continente para o atravessar. As turbulências começaram mansas. Mas aproximou-se uma mancha de nuvens brancas e altas e o percurso dentro das nuvens tornou-se tormentoso. O avião abanava por todos os lados como se estivesse a ser batido por um enorme varapau. A certa altura, caiu num buraco bastante profundo e a respiração foi sustada porque os joelhos ficaram colados à garganta. O avião retomou a altura e todos procuravam sorrir para confortar os outros. Mas, nestas alturas, o sorriso não conforta nada por ser tão amarelo. O piloto, um homem já para lá dos cinquenta, era seguramente um profissional com muita experiência e foi esta ideia que me deu alguma tranquilidade. Fez subir o avião para cima das nuvens e então por aí vínhamos como que a fazer esqui sobre elas. Subindo e descendo. A certa altura já achávamos graça a este divertimento.
Durante a travessia do continente, a paisagem era composta por muitas montanhas que pareciam cobertas de floresta densa. Eram raras as casas que se viam.
Só quando chegámos à costa do Pacífico é que o voo começou a ser mais estável. Também a paisagem se alterou, pois começaram a aparecer povoados cada vez de maior dimensão. E desde longe se viam os inúmeros palitos da cidade do Panamá.
A aproximação ao aeroporto foi de mestre, pois permitiu-nos ter vistas excepcionais sobre a cidade que só o voo num avião de reduzidas dimensões ou de helicóptero pode permitir.
Adorei a última parte do voo que aproveitei para tirar mais algumas fotografias da cidade, num ângulo que não será nada fácil voltar a conseguir.
No fim cumprimentei o Comandante e agradeci-lhe a excelente vista que nos proporcionou da cidade. Ele retribuiu o agradecimento com uma cara de visível satisfação.
Houve controlo de passaportes e as bagagens foram revistadas por um militar e um cão.
O avião era minúsculo. Trazia nove passageiros: os quatro do meu grupo, um casal de jovens alemães e uma mulher e duas crianças kunas. Na pista ficaram passageiros a protestar por não terem tido lugar. Fiquei com a impressão de que os kunas têm privilégios e prioridades quando se querem fazer transportar de avião para a capital.
O ruído dos dois motores era ensurdecedor e não adiantava taparmos os ouvidos com as mãos. Eu já andei em aviões de tamanho semelhante na Guiné e em Cabo Verde, mas já não me lembrava bem como era.
A primeira parte do trajecto foi sobre a costa norte do Panamá. Aproveitámos para ver do ar o belíssimo arquipélago de San Blas e para lhe dizermos adeus.
Porém, a certa altura, o avião começou a sobrevoar o continente para o atravessar. As turbulências começaram mansas. Mas aproximou-se uma mancha de nuvens brancas e altas e o percurso dentro das nuvens tornou-se tormentoso. O avião abanava por todos os lados como se estivesse a ser batido por um enorme varapau. A certa altura, caiu num buraco bastante profundo e a respiração foi sustada porque os joelhos ficaram colados à garganta. O avião retomou a altura e todos procuravam sorrir para confortar os outros. Mas, nestas alturas, o sorriso não conforta nada por ser tão amarelo. O piloto, um homem já para lá dos cinquenta, era seguramente um profissional com muita experiência e foi esta ideia que me deu alguma tranquilidade. Fez subir o avião para cima das nuvens e então por aí vínhamos como que a fazer esqui sobre elas. Subindo e descendo. A certa altura já achávamos graça a este divertimento.
Durante a travessia do continente, a paisagem era composta por muitas montanhas que pareciam cobertas de floresta densa. Eram raras as casas que se viam.
Só quando chegámos à costa do Pacífico é que o voo começou a ser mais estável. Também a paisagem se alterou, pois começaram a aparecer povoados cada vez de maior dimensão. E desde longe se viam os inúmeros palitos da cidade do Panamá.
A aproximação ao aeroporto foi de mestre, pois permitiu-nos ter vistas excepcionais sobre a cidade que só o voo num avião de reduzidas dimensões ou de helicóptero pode permitir.
Adorei a última parte do voo que aproveitei para tirar mais algumas fotografias da cidade, num ângulo que não será nada fácil voltar a conseguir.
A Ponte das Américas que marca a entrada no Canal
No fim cumprimentei o Comandante e agradeci-lhe a excelente vista que nos proporcionou da cidade. Ele retribuiu o agradecimento com uma cara de visível satisfação.
Houve controlo de passaportes e as bagagens foram revistadas por um militar e um cão.
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Panamá 2011 - Um temível ataque de chitras
Era a última noite que passávamos em San Blas. Estávamos fundeados junto à povoação de Corazón de Jesús e já tínhamos recolhido aos nossos beliches.
Relativamente às noites anteriores, estranhei que não houvesse uma ponta de brisa fresca a entrar pela escotilha e que não sentisse o tac tac das ondas a acariciar as quilhas do catamaran. Durante algum tempo espreitei a povoação, vendo perfeitamente pessoas a passar na ponte entre as duas ilhas que a compõem. Ouvia uma espécie de aparelhagem de feira. Parecia uma animação de uma festa que durou até por volta das onze da noite. Depois veio o sossego e tentei dormir. Mas...
Comecei a sentir um incómodo ardor nos pés e pernas que foi alastrando ao corpo todo não coberto com roupa. Comecei a cogitar que estaria a sofrer um ataque de ou pulgas ou percevejos. Afinal, na boxe em que dormíamos, a coberta do colchão não apresentava um esmerado cuidado de limpeza. Desesperado, torcía-me e retorcía-me tentando esmagar com as mãos os predadores que tentavam devorar-me. Tentei aguentar porque não sentia sinais de que os meus companheiros estivessem a passar pela mesma sensação. Tapava-me com tudo o que me veio à mão. O ardor era cada vez maior.
Acabei por sentir ruídos que me levaram a presumir que todos os meus companheiros estavam a passar pelo mesmo.
A certa altura acendi a luz.
As partes brancas da cabine estavam polvilhadas de minúsculos pontos pretos.
Comecei a esmagá-los e resultavam pequenas manchas de sangue. Estávamos a sofrer um temível ataque de minúsculos mosquitos que, disse-nos o Chico, se chamam chitras. Aparecem quando não há vento. Vêm dos bosques com humidade e árvores em enxames compactos e agarram-se a tudo o que é ser vivo, picando e sugando sangue e deixando microscópicas babas que, no prazo de um a três dias, produzem erupções semelhantes à varíola, levando cerca de uma semana a desaparecer.
É claro que a alvorada foi muito cedo. Quando me levantei já o Chico estava sentado na sala-cozinha do barco. A primeira coisa que me disse foi:
- Também fui atacado!
E explicou o que eram as chitras.
O pequeno almoço já não teve o sabor do dos dias anteriores. O ardor sentido e a ansiedade de ir começar uma viagem aérea não deixaram apreciar devidamente o pão quente que o Chico preparou.
Às seis e meia estávamos no barco de borracha para irmos para o aeroporto. Já estávamos perto do cais quando o Chico desviou a marcha na direcção de uma barco de kunas que estava ali parado, dizendo:
- Vamos fazer como fazem os kunas.
Chegou ao pé deles, deu-lhes os bons dias e disse:
- Too many chitras.
E respondeu um dos homens kunas:
- Demasiado.
Ali ficámos naquela sala de espera no meio do estuário do rio, colados a um barco kuna. As pessoas que já estavam no cais meteram-se novamente nos barcos e vieram juntar-se a nós naquela exótica e aquática sala de espera do aeroporto de Corazón de Jesús.
Às sete e meia começamos a ouvir o avião e só houve tempo para lhe tirar uma fotografia no momento em que passou perto de nós.
P. S. - A certa altura, ouvi o Chico dizer que uma amiga que tinha sido tocada por uma alforreca se lavou com vinagre e que isso deu bom resultado.
Quando regressámos a casa, ao 49.º andar do Aqualina da Punta Pacífica, eu vinha desesperado e lavei-me todo com vinagre. Os meus companheiros olharam com piedade para a solução que eu encontrei para o meu desespero. Na verdade vi que estavam convencidos de que as chitras os tinham poupado e que estavam livres de perigo e que até se sentiram incomodados com o meu cheiro a vinagre.
Hoje, dia 16 de Fevereiro, data em que escrevo este post, os meus companheiros têm os corpos que nem as chagas de Cristo, sentem uma coceira desesperante, recorrem ao vinagre para se aliviarem e até não tiveram receios de ir para o cinema a cheirar ao dito.
Na verdade eu tenho verdadeira pena deles. No meu corpo não há uma borbulha sequer.
Relativamente às noites anteriores, estranhei que não houvesse uma ponta de brisa fresca a entrar pela escotilha e que não sentisse o tac tac das ondas a acariciar as quilhas do catamaran. Durante algum tempo espreitei a povoação, vendo perfeitamente pessoas a passar na ponte entre as duas ilhas que a compõem. Ouvia uma espécie de aparelhagem de feira. Parecia uma animação de uma festa que durou até por volta das onze da noite. Depois veio o sossego e tentei dormir. Mas...
Comecei a sentir um incómodo ardor nos pés e pernas que foi alastrando ao corpo todo não coberto com roupa. Comecei a cogitar que estaria a sofrer um ataque de ou pulgas ou percevejos. Afinal, na boxe em que dormíamos, a coberta do colchão não apresentava um esmerado cuidado de limpeza. Desesperado, torcía-me e retorcía-me tentando esmagar com as mãos os predadores que tentavam devorar-me. Tentei aguentar porque não sentia sinais de que os meus companheiros estivessem a passar pela mesma sensação. Tapava-me com tudo o que me veio à mão. O ardor era cada vez maior.
Acabei por sentir ruídos que me levaram a presumir que todos os meus companheiros estavam a passar pelo mesmo.
A certa altura acendi a luz.
As partes brancas da cabine estavam polvilhadas de minúsculos pontos pretos.
Comecei a esmagá-los e resultavam pequenas manchas de sangue. Estávamos a sofrer um temível ataque de minúsculos mosquitos que, disse-nos o Chico, se chamam chitras. Aparecem quando não há vento. Vêm dos bosques com humidade e árvores em enxames compactos e agarram-se a tudo o que é ser vivo, picando e sugando sangue e deixando microscópicas babas que, no prazo de um a três dias, produzem erupções semelhantes à varíola, levando cerca de uma semana a desaparecer.
É claro que a alvorada foi muito cedo. Quando me levantei já o Chico estava sentado na sala-cozinha do barco. A primeira coisa que me disse foi:
- Também fui atacado!
E explicou o que eram as chitras.
O pequeno almoço já não teve o sabor do dos dias anteriores. O ardor sentido e a ansiedade de ir começar uma viagem aérea não deixaram apreciar devidamente o pão quente que o Chico preparou.
Às seis e meia estávamos no barco de borracha para irmos para o aeroporto. Já estávamos perto do cais quando o Chico desviou a marcha na direcção de uma barco de kunas que estava ali parado, dizendo:
- Vamos fazer como fazem os kunas.
Chegou ao pé deles, deu-lhes os bons dias e disse:
- Too many chitras.
E respondeu um dos homens kunas:
- Demasiado.
Ali ficámos naquela sala de espera no meio do estuário do rio, colados a um barco kuna. As pessoas que já estavam no cais meteram-se novamente nos barcos e vieram juntar-se a nós naquela exótica e aquática sala de espera do aeroporto de Corazón de Jesús.
Às sete e meia começamos a ouvir o avião e só houve tempo para lhe tirar uma fotografia no momento em que passou perto de nós.
P. S. - A certa altura, ouvi o Chico dizer que uma amiga que tinha sido tocada por uma alforreca se lavou com vinagre e que isso deu bom resultado.
Quando regressámos a casa, ao 49.º andar do Aqualina da Punta Pacífica, eu vinha desesperado e lavei-me todo com vinagre. Os meus companheiros olharam com piedade para a solução que eu encontrei para o meu desespero. Na verdade vi que estavam convencidos de que as chitras os tinham poupado e que estavam livres de perigo e que até se sentiram incomodados com o meu cheiro a vinagre.
Hoje, dia 16 de Fevereiro, data em que escrevo este post, os meus companheiros têm os corpos que nem as chagas de Cristo, sentem uma coceira desesperante, recorrem ao vinagre para se aliviarem e até não tiveram receios de ir para o cinema a cheirar ao dito.
Na verdade eu tenho verdadeira pena deles. No meu corpo não há uma borbulha sequer.
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Panamá 2011 - Feliz Cumpleaños!
Era o dia 8 de Fevereiro, a data do aniversário da nossa jovem companheira de aventura.
Por isso, o cenário natural para passar o dia era bem adequado à efeméride. Sabíamos que a nossa aniversariante adora piqueniques. O local para o fazer não podia ser melhor.
O catamaran aproximou-se de uma nova ilha com alguns coqueiros, depois de contornar um recife perfeitamente visível. A água à volta do recife tinha uma cor avermelhada, curioso sinal natural de que é uma zona perigosa para qualquer embarcação. Aliás, o nosso anfitrião, o Chico, chamou-nos a atenção para os destroços de um navio que terminara os seus dias encalhado num recife não muito distante dali. Eram perfeitamente visíveis as duas partes em que o mar já o dividira.
Na ilha encontrámos um casal sénior de franceses de Toulouse que estavam a fazer um piquenique à sua maneira. Estabelecemos com eles um diálogo amistoso, ao ponto de nos dispensarem a sua mesa de campanha para o apoio aos nossos recipientes de cozinha. E foi mais fácil assar o peixe, uma vez que aproveitámos o braseiro que eles tinham utilizado. Foram simpáticos estes franceses, como o foi a tribulação do seu catamaran constituída por um homem de meia idade europeu e por uma mulher kuna. O homem tinha a particularidade de andar praticamente nu, usando apenas um fio dental para tapar o absolutamente essencial. Mas era muitíssimo simpático e comunicativo.
O Chico disse-nos que, como há pouca lenha, há o costume de os navegadores partilharem as fogueiras. Uma vez assado o peixe, ele teve o cuidado de levar à água os paus que ainda não tinham ardido na totalidade, para os ir arrumar junto à outra lenha e assim poderem servir ainda mais uma vez.
Foi neste ambiente de peixe fresco assado na brasa, nesta ilha com alguns coqueiros, rodeada de areia branca e água cristalina que cantámos os parabéns, pela primeira vez nesse dia, à nossa aniversariante.
Depois, a sombra existente na ilha foi mais do que suficiente para proporcionar a todos o ambiente para uma boa sesta.
Seguiu-se um prolongado banho de mar e, mais tarde, o regresso ao barco. E aí sucederam-se os saltos para a água, os mergulhos e as piruetas.
Para o jantar, o nosso anfitrião preparou aquilo a que chamou um prato austríaco com um toque panamiano. Era, em boa verdade, mais uma sobremesa que um prato principal. Era um crepe com bocadinhos de ananás, desmanchado à maneira de ovos mexidos.
Houve a oportunidade de cantarmos novamente os parabéns, com apagar de velas e tudo.
Feliz Cumpleaños, Parabéns a Você!
A noite foi serena e repousante.
Por isso, o cenário natural para passar o dia era bem adequado à efeméride. Sabíamos que a nossa aniversariante adora piqueniques. O local para o fazer não podia ser melhor.
O catamaran aproximou-se de uma nova ilha com alguns coqueiros, depois de contornar um recife perfeitamente visível. A água à volta do recife tinha uma cor avermelhada, curioso sinal natural de que é uma zona perigosa para qualquer embarcação. Aliás, o nosso anfitrião, o Chico, chamou-nos a atenção para os destroços de um navio que terminara os seus dias encalhado num recife não muito distante dali. Eram perfeitamente visíveis as duas partes em que o mar já o dividira.
Na ilha encontrámos um casal sénior de franceses de Toulouse que estavam a fazer um piquenique à sua maneira. Estabelecemos com eles um diálogo amistoso, ao ponto de nos dispensarem a sua mesa de campanha para o apoio aos nossos recipientes de cozinha. E foi mais fácil assar o peixe, uma vez que aproveitámos o braseiro que eles tinham utilizado. Foram simpáticos estes franceses, como o foi a tribulação do seu catamaran constituída por um homem de meia idade europeu e por uma mulher kuna. O homem tinha a particularidade de andar praticamente nu, usando apenas um fio dental para tapar o absolutamente essencial. Mas era muitíssimo simpático e comunicativo.
O Chico disse-nos que, como há pouca lenha, há o costume de os navegadores partilharem as fogueiras. Uma vez assado o peixe, ele teve o cuidado de levar à água os paus que ainda não tinham ardido na totalidade, para os ir arrumar junto à outra lenha e assim poderem servir ainda mais uma vez.
Foi neste ambiente de peixe fresco assado na brasa, nesta ilha com alguns coqueiros, rodeada de areia branca e água cristalina que cantámos os parabéns, pela primeira vez nesse dia, à nossa aniversariante.
Depois, a sombra existente na ilha foi mais do que suficiente para proporcionar a todos o ambiente para uma boa sesta.
Seguiu-se um prolongado banho de mar e, mais tarde, o regresso ao barco. E aí sucederam-se os saltos para a água, os mergulhos e as piruetas.
Para o jantar, o nosso anfitrião preparou aquilo a que chamou um prato austríaco com um toque panamiano. Era, em boa verdade, mais uma sobremesa que um prato principal. Era um crepe com bocadinhos de ananás, desmanchado à maneira de ovos mexidos.
Houve a oportunidade de cantarmos novamente os parabéns, com apagar de velas e tudo.
Feliz Cumpleaños, Parabéns a Você!
A noite foi serena e repousante.
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Panamá 2011 - Um Paraíso chamado San Blas
Já disse que o arquipélago de San Blas é composto por cerca de 400 ilhas, mas apenas 48 têm alguns habitantes. Situa-se no Mar das Caraíbas e faz parte da reserva dos índios Kuna.
Foi aí que chegámos por volta da uma da tarde do dia 7 de Fevereiro de 2011.
Esperava ver à nossa espera um panamiano, kuna ou não, de estatura baixa, tronco e membros grossos, quase sem pescoço, tez morena e cabelo muito forte e preto. Por isso, fiquei surpreendido por vir ao nosso encontro um homem branco, com a pele amorenada pelo sol, de óculos escuros e estatura médio-alta que se apresentou como chamando-se Chico. Falava inglês não nativo.
O Chico cumprimentou-nos a todos delicadamente e ajudou-nos a transportar as bagagens para um pequeno barco de borracha movido a motor, que logo pôs em movimento, antecipando-se, quanto antes, a alguns outros semelhantes que também recolhiam recém chegados.
À nossa esquerda estava o continente panamiano verde e com algumas montanhas. Parecia haver ali o estuário da foz de um rio. Ao lado direito ia-se desenrolando a povoação de Corazon, de casas baixas, na maioria feitas de madeira. Corazon ocupa duas ilhas ligadas por uma ponte.
A certa altura o Chico disse:
- O meu barco é aquele com as cores branca e amarela.
E deu mais velocidade ao motor.
Uma vez chegados, subimos para o barco, um catamaran com as letras CHIC bem visíveis. O Chico ajudou-nos nessa tarefa, bem como a colocar as bagagens dentro do barco. E surgiu de imediato a primeira lei para a nossa estadia.
- É obrigatório andarem descalços dentro do barco. Nada de sapatos, chinelos ou o quer que seja a proteger os pés.
Seguiram-se as boas vindas, uma visita guiada ao barco e a alocação dos espaços onde pernoitaríamos e mais algumas explicações sobre a vida a bordo.
E logo começaram os preparativos para começarmos a movimentar-nos. As velas foram içadas, o motor foi ligado, a âncora foi levantada. Fomos informados sobre os locais do barco onde podíamos estar sentados ou deitados, e, sempre que achava conveniente, o Chico pedia a nossa colaboração e explicava como os instrumentos e equipamentos de bordo funcionavam.
Estava uma tarde de sol quente e húmido com muito boa visibilidade. O barco ia-se movimentando, num ligeiro sobe e desce cadenciado pelo ritmo da brisa a passar nas velas e as ondas baixas a bater nas duas quilhas do catamaran. No horizonte havia várias ilhas. Ao princípio eram pinceladas de verde escuro na linha do horizonte, mas, algumas delas iam ficando cada vez mais perto. O barco seguia com o piloto automático e o Chico ia falando connosco procurando obter informações sobre nós que fazíamos o mesmo.
A certa altura, quando já estávamos relativamente perto de uma pequena ilha com alguns coqueiros, rodeada de areia branca, o Chico disse;
- Hoje vamos ficar aqui.
A água azulada e muito transparente, a brisa morna, a pequena ilha ali tão perto com meia dúzia de coqueiros e rodeada de uma faixa alva, uma ilha maior ao lado e outras mais distantes onde se encontravam em descanso outros barcos de diversas cores, tudo isto era a prova de que estávamos num paraíso das Caraíbas a que chamam San Blas.
Foi aí que chegámos por volta da uma da tarde do dia 7 de Fevereiro de 2011.
Esperava ver à nossa espera um panamiano, kuna ou não, de estatura baixa, tronco e membros grossos, quase sem pescoço, tez morena e cabelo muito forte e preto. Por isso, fiquei surpreendido por vir ao nosso encontro um homem branco, com a pele amorenada pelo sol, de óculos escuros e estatura médio-alta que se apresentou como chamando-se Chico. Falava inglês não nativo.
Duas mulheres kunas deixam a pista de aterragem
O Chico cumprimentou-nos a todos delicadamente e ajudou-nos a transportar as bagagens para um pequeno barco de borracha movido a motor, que logo pôs em movimento, antecipando-se, quanto antes, a alguns outros semelhantes que também recolhiam recém chegados.
À nossa esquerda estava o continente panamiano verde e com algumas montanhas. Parecia haver ali o estuário da foz de um rio. Ao lado direito ia-se desenrolando a povoação de Corazon, de casas baixas, na maioria feitas de madeira. Corazon ocupa duas ilhas ligadas por uma ponte.
A certa altura o Chico disse:
- O meu barco é aquele com as cores branca e amarela.
E deu mais velocidade ao motor.
Uma vez chegados, subimos para o barco, um catamaran com as letras CHIC bem visíveis. O Chico ajudou-nos nessa tarefa, bem como a colocar as bagagens dentro do barco. E surgiu de imediato a primeira lei para a nossa estadia.
- É obrigatório andarem descalços dentro do barco. Nada de sapatos, chinelos ou o quer que seja a proteger os pés.
Seguiram-se as boas vindas, uma visita guiada ao barco e a alocação dos espaços onde pernoitaríamos e mais algumas explicações sobre a vida a bordo.
E logo começaram os preparativos para começarmos a movimentar-nos. As velas foram içadas, o motor foi ligado, a âncora foi levantada. Fomos informados sobre os locais do barco onde podíamos estar sentados ou deitados, e, sempre que achava conveniente, o Chico pedia a nossa colaboração e explicava como os instrumentos e equipamentos de bordo funcionavam.
Estava uma tarde de sol quente e húmido com muito boa visibilidade. O barco ia-se movimentando, num ligeiro sobe e desce cadenciado pelo ritmo da brisa a passar nas velas e as ondas baixas a bater nas duas quilhas do catamaran. No horizonte havia várias ilhas. Ao princípio eram pinceladas de verde escuro na linha do horizonte, mas, algumas delas iam ficando cada vez mais perto. O barco seguia com o piloto automático e o Chico ia falando connosco procurando obter informações sobre nós que fazíamos o mesmo.
A certa altura, quando já estávamos relativamente perto de uma pequena ilha com alguns coqueiros, rodeada de areia branca, o Chico disse;
- Hoje vamos ficar aqui.
A água azulada e muito transparente, a brisa morna, a pequena ilha ali tão perto com meia dúzia de coqueiros e rodeada de uma faixa alva, uma ilha maior ao lado e outras mais distantes onde se encontravam em descanso outros barcos de diversas cores, tudo isto era a prova de que estávamos num paraíso das Caraíbas a que chamam San Blas.
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