terça-feira, 12 de maio de 2015

Viagem à Terra Santa em 2014. 10. Em 29 de Abril. Em Jerusalém. 10.3.

10.3. No Monte do Calvário

Após a visita ao Santo Sepulcro, o nosso grupo reorganizou-se e foi encaminhado novamente para junto da porta de entrada do complexo para irmos subir ao Monte do Calvário.

A ideia que, ao longo dos anos, tinha formado sobre o local da execução de Cristo era bem diferente do que estava a ver ali.

Na igreja de Nossa Senhora da Lapa, em Lisboa, há um altar lateral dedicado a Nossa Senhora das Dores que tem, como painel de fundo, uma representação pictórica do Monte Calvário que traduz bem a imagem que, a partir da leitura dos textos bíblicos, eu tinha formado ao longo da minha vida:

 

Uma elevação considerável, fora das muralhas da cidade, relativamente afastada e isolada. Aí, segundo li algures, era frequente os prisioneiros serem massacrados até ao último suspiro e depois ficarem ali abandonados, com proibição absoluta de alguém se aproximar deles, para servirem de alimento às aves de rapina. Nesse ambiente tétrico, o mau cheiro acabaria por aparecer. Por isso, um local com estas caraterísticas teria que ficar afastado o suficiente para os efeitos deletérios não chegarem à cidade.

Contudo, o que ali estava a encontrar não correspondia minimamente à ideia que tinha formado.

Subindo as escadas para o Calvário.
 
Enquanto esperava na fila, o meu espírito rebuscava-se em dúvidas.

O facto de, logo ao lado, estar uma majestosa pedra de unção e, também, logo ao lado, estar a gruta do Santo Sepulcro, foram dados que fizeram gerar em mim a desconfiança de que tudo aquilo tenha sido artificialmente edificado para comemorar a crucifixão, a unção e o enterramento de Cristo. Os verdadeiros lugares poderiam estar algo distantes dali.

Como podemos falar do Monte Calvário quando se sobe a uma rica capela ao nível de apenas um primeiro andar?

Por outro lado, é sabido que, por razões religiosas, o sonho de um bom judeu é ser sepultado no Monte das Oliveiras. Por que razão José de Arimateia, homem rico e influente, teria escolhido um lugar para o seu repouso final num local diferente, perto do sinistro Gólgota? Ele que tinha posses para comprar um espaço privilegiado no Monte das Oliveiras ou mesmo no vale de Josafá, também conhecido como de Cédron, junto aos túmulos de Absalão, Bnei Hezir e Zacarias.

Este vale fica, como já referi num apontamento anterior, entre o Monte das Oliveiras e a Cidade de Jerusalém e é lá que o profeta Joel, seguido por cristãos, judeus e muçulmanos, prevê que ocorra o juízo final.

Estas dúvidas pairavam no meu espírito a partir do momento em que vi estes tão importantes lugares santos distanciados entre si apenas por umas escassas dezenas de metros.

Tentei encontrar respostas para as minhas dúvidas.

O local terá sido ponto de veneração desde os primeiros dias após morte de Cristo, dentro das limitações e receios próprios dessa altura.

Existiu ali uma pedreira e ainda hoje é visível, por baixo do altar, uma parte da rocha.
 
 
O local só ficou dentro das muralhas da cidade após o ano 43. Assim, uma boa parte da via crucis, que percorremos uma hora antes, estaria em campo aberto.

Há quem entenda, seguindo a ideia que eu tinha, que a crucifixão de Cristo terá ocorrido no Monte Scopus, o mais elevado daquela zona, bem fora das muralhas, ainda nos dias de hoje.

Mas se Cristo carregou a Cruz já muito debilitado devido aos massacres que lhe foram infligidos, a distância não podia ser muita. Por outro lado, o Gólgota era usado para executar os rebeldes que, uma vez apanhados, tinham o fatídico destino da cricifixão. Assim, parece-me fazer sentido que o local de execução e o respetivo acesso oferecesse segurança aos soldados romanos executores, estando bem à vista da Cidadela, para evitar os ataques de rebeldes solidários com os executados por razões políticas.

Já falei, noutro apontamento, de Santa Helena, mãe do imperador Constantino, e do seu empenho sobre-humano em identificar e dignificar todos os lugares santos ligados à história de Cristo. E foi assim que, entre 326 e 335, foi ali iniciada e concluída a primeira grande basílica. Ela terá sido motivada por provas evidentes que reuniu na altura e por testemunhos da tradição.

Esta basílica, edificada por Santa Helena, foi destruída após a queda do império pelos que substituíram os romanos no domínio da Terra Santa. Mas foi reconstruída e novamente destruída em 1009 pelo fatimita Hakin. Porém, em 1040, foi reerguida a expensas do imperador bizantino Constantino Monómaco que chegou a um acordo para o efeito com o filho de Hakin, mediante uma boa compensação.

Posteriormente, houve vários acidentes que danificaram a basílica, mas os cruzados reconstruíram-na e ampliaram-na entre 1114 e 1170, para o formato com que chegou aos nossos dias. Isto, apesar de, entretanto, ter sofrido danos graves causados por um incêndio em 1808 e por um terramoto em 1927. As respetivas reparações foram acompanhadas de significativos melhoramentos.

Um detalhe interessante da controversa história deste lugar santo, é a renhida disputa entre as diversas confissões cristãs que duram há séculos, com agressões físicas à mistura. Esta situação deu origem a um decreto otomano conhecido por "status quo" que divide a custódia do lugar entre católicos romanos, arménios, gregos, coptas, etíopes e sírios.

No seguimento desse decreto, a chave é guardada por uma família muçulmana. A igreja é destrancada e aberta todos os dias por um guarda-chaves dessa família, que cumpre essa tarefa diária há várias gerações.

A igreja católica dispõe de um pequeno altar lateral, perto do Santo Sepulcro, mas já fora da Rotunda da Basílica, onde os peregrinos podem assistir à missa. O espaço é reduzido, mas suficiente para um grupo que não tenha mais de trinta pessoas se poder sentar.

Estávamos na fila, durante estas considerações, para aceder ao local onde foi erguida a cruz de Cristo.

Já estamos no patamar da capela do Calvário e os nossos guias chamam-nos a atenção para um bonito e rico oratório com a Nossa Senhora das Dores que foi oferecido ao santuário por um dos nossos reis (D. João V?).

 


 A capela, está cheia de ricos turíbulos e painéis decorativos ao gosto ortodoxo.
 
 
O teto, em pequenas abóbadas está pintado com frescos de cor escura e com representações alusivas à morte de Cristo.

 
 
 
E chegou a minha vez de poder aceder ao local onde terá sido erguida a cruz de Cristo. Vê-se por debaixo da mesa do altar parte de uma rocha. Há um pequeno quadro, como que a servir de cortina de fundo, e o buraco está assinado por uma estrela, algo semelhante à que encontrámos na gruta da natividade.


Nesse buraco podemos introduzir o braço até ao fundo, para sentirmos a rocha fria e abrirmo-nos aos sentimentos de respeito que aquele lugar sagrado nos inspira. Foram breves os momentos porque a pressão da fila em espera era grande. Mas deu para sentir um verdadeiro abanão espiritual, com um calafrio à mistura. Afinal foi ali, naquele preciso ponto, que a cruz de Cristo foi erguida e o seu sangue derramado.

 
Seguimos em frente para descermos pela escada do lado oposto ao da entrada.
 

Em baixo, por baixo da capela do Calvário, pudemos ainda ver uma parte da rocha da pedreira e o altar da chamada Capela de Adão.

Seguiu-se uma paragem breve junto à pedra da unção.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Viagem à Terra Santa em 2014 - 10. Em 29 de Abril. Em Jerusalém. 10.2

10.2. No Santo Sepulcro

Mal acabámos de deixar a cruz da via sacra, iniciámos a caminhada por ruinhas estreitas na direção do Santo Sepulcro. Passados poucos minutos tivemos de passar por uma porta com o lintel bastante baixo que nos obrigou a baixar a cabeça ao nível do peito para podermos passar. Já nos tinha acontecido o mesmo quando entrámos na Igreja da Natividade em Belém.
 
 
Chegámos depois a um claustro bastante espaçoso rodeado por altos muros em pedra.
 
 
 
 
Nesse claustro há uma escadaria no canto no lado direito de quem entra, que parece dar acesso ao nível do corpo do primeiro piso do edifício, onde se encontra a igreja do Santo Sepulcro. Mais concretamente, dá acesso à chamada Capela dos Francos, uma espécie de antecâmara vip da capela do Gólgota, termo hebraico que quer dizer local do crânio, e que os latinos batizaram de Calvário.
 
 
Aí os nossos guias fizeram questão de nos convidar para tomarmos posição nas escadas para uma fotografia de grupo. Os moços que nos tinham emprestado a cruz seriam os fotógrafos e agitavam-se já com as suas máquinas numa posição de preceito, enquanto nós nos íamos arrumando uns mais acima outros mais abaixo.  Nestas situações há sempre quem goste de ficar mais à frente, e lute por isso, e quem procure ficar mais discreto e prefira ficar mais atrás.  O resultado foi esta fotografia oficial do grupo que nos seria entregue nessa noite no hotel.
 
 

A seguir fomos conduzidos para dentro da igreja.

Logo após a porta da entrada há umas escadas em pedra que sobem para o nível de um primeiro andar e onde está a indicação de Calvário. E, uma meia de dúzia de passos mais à frente da porta de entrada, está uma larga laje retangular, assinalada como a pedra onde Cristo terá sido ungido segundo os ritos da altura.

Estávamos nós a tomar um primeiro contacto com o interior do templo, enquanto os nossos olhos se iam habituando à luminosidade discreta do interior, quando o nosso guia Sebastião me pegou literalmente no braço e me fez avançar uns passos para me indicar o fim de uma fila dizendo para irmos de imediato juntar-nos a ela, para aproveitarmos a oportunidade de estar ainda muito reduzida. Foi dando a mesma indicação às outras pessoas do grupo que ia apanhando a jeito. E eu segui o seu conselho e fui ligeirinho juntar-me à fila. À minha frente estavam umas vinte pessoas.

 
 
Aproveitei o tempo de espera para olhar em volta e observar o teto e tive a agradável sensação de estar a entrar na Charola do Convento de Cristo. Se calhar, quando agora voltar a entrar na igreja da Charola irei ter a sensação inversa, de estar a entrar na igreja do Santo Sepulcro.

Este espaço, que nos faz lembrar a Charola e que é designado por Rotunda, é o principal monumento de um complexo mais vasto, onde, para além dos dois monumentos santos que já referi, Calvário e Lage da Unção, tem outros monumentos como sejam a Torre do Sino Cruzada, os restos de um pátio colunado do século XI designado por os Sete Arcos da Virgem, uma grande bacia de pedra conhecido desde tempos imemoriais por Centro do Mundo, a Igreja Cruzada com a sua linda cúpula pintada com uma linda imagem de Cristo, conhecida por Cúpula Catholikon, a capela de Santa Helena a que se acede descendo uma escadaria para um nível bastante mais abaixo, e, ainda num nível mais inferior a Capela Inventio Crucis, onde Santa Helena terá descoberto a cruz de Cristo de entre um montão de cruzes abandonadas que teriam sido usadas pela justiça durante a dominação romana.


Após uns dez minutos de espera estava à porta do local que dá acesso à gruta onde o corpo de Cristo morto foi depositado, depois de ungido e envolto em lençóis brancos de linho,  conforme as formalidades religiosas.  Há uma espécie de antecâmara para a entrada na gruta. Aí  pude observar o clérigo ortodoxo, bastante encorpado e com um assinalável vozeirão, incumbido de coordenar o acesso e estadia ao lugar santo, a dizer quase continuamente em voz alta para os peregrinos que se encontravam lá dentro, enquanto batia com o punho da mão na ombreira da porta: Please, out! No photos!

A porta de acesso ao túmulo é baixa e estreita e só dá para passar uma pessoa de cada vez. Chegou a minha vez de entrar e o senhor clérigo disse em voz bem alta: no photos, no cameras, no mobiles. Entrei e desci um ou dois degraus.

No lado direito, meio iluminada, lá estava uma larga laje de pedra branca, talvez mármore, à altura da minha cintura. À cabeceira dessa lage estava uma mulher toda coberta de preto, ajoelhada e completamente debruçada, imóvel e silenciosa como se já fizesse parte da própria laje.   Só a vi mexer quando uma senhora que entrou a seguir passou por detrás de mim e foi poisar as suas duas mãos na cabeceira da laje. Talvez por não ter visto esse vulto, deve ter pisado a mulher debruçada, obrigando-o a mexer-se e a mostrar o rosto feminino liso e brilhante, talvez na casa dos cinquenta.

Também eu segui o ritual de colocar as duas mãos abertas sobre a pedra na esperança de que fosse para mim uma fonte de enorme energia.  Ao mesmo tempo formulei uma prece de agradecimento a Deus por ali poder estar naquele dia e àquela hora, enquanto que, num filme rápido, no meu pensamento passaram os meus entes queridos, familiares e amigos. Não podia estar mais tempo porque a cabeça do senhor clérigo aparecia agora já dentro da gruta gritando: out, out, no photos.


E saí com muita pena de ali não poder estar mais uns minutos.

Já fora do recinto central da igreja, observei-a mais atentamente enquanto os restantes companheiros faziam a sua visita ao interior da gruta. Então compreendi claramente onde é que os arquitetos da igreja da Charola do Convento de Cristo em Tomar foram beber a sua inspiração.