sábado, 27 de junho de 2015

Viagem à Terra Santa em 2014 - 17. Em 1 de maio. Em Qumran.

17. Em Qumran

Qumran é um dos locais que chegou até aos nossos dias pelo lado do mérito da memória dos vencidos e não dos vencedores.

Contudo, esta localidade passou a ser ainda mais conhecida a partir do momento em que, em 1947, um pastor beduíno, deambulando à procura de uma sua cabra perdida, entrou casualmente numa gruta e encontrou lá vários potes de barro, com o aspeto de serem muito antigos.
 
Com curiosidade foi verificar o que continham.
 
Talvez esperasse encontrar um tesouro de ouro ou algo parecido. Mas o que lá estava eram uns velhos panos de linho enrolados à volta de uma espécie de papéis antigos. Coisa sem interesse comercial para ele.

Por ele próprio ou por terceiros, a descoberta chegou ao conhecimento das autoridades que foram ver o que era aquilo.
 
Nem queriam acreditar. Tiraram dos potes 190 manuscritos enrolados em panos de linho, muito bem conservados.
 
  Vimos alguns dos originais destes manuscritos no Santuário do Livro, no Museu de Israel. 
 
Concluíram que tinham ali sido guardados há mais de dois mil anos. O bom estado de conservação dos manuscritos, atribuído ao clima seco do deserto, permitiu ver que eram trechos com histórias bíblicas.

Isto aconteceu na mencionada localidade de Qumran, perto da margem ocidental do Mar Morto, que hoje é uma importante estação arqueológica. 

Era esse o local que agora íamos visitar.


Começamos por entrar num pequeno auditório onde vimos um documentário sobre os homens que ali viviam há dois mil anos. Chamaram-lhes Essénios. Era uma espécie de ordem religiosa de homens adultos, cultos, que se dedicava ao estudo bíblico e à contemplação. Estabeleceram-se ali por volta do ano 150 a.c.. Acreditavam que o Messias estava para chegar a todo o momento e preparavam-se fazendo jejum, seguindo uma rigorosa disciplina monástica e purificando-se várias vezes ao dia através de abluções de água. Pensa-se que João Baptista chegou a fazer parte dessa comunidade. E há até quem afirme que o próprio Jesus Cristo ali esteve também, o que, de certo modo, permitiria explicar a grande lacuna  de informação que existe em relação ao período que vai desde o início da sua adolescência até ao começo da vida pública.

No ano 68 d.c., chegaram ali os romanos em perseguição aos judeus revoltosos e, vendo tantos homens juntos, logo os consideraram inimigos e os exterminaram por completo.
 
Felizmente os vencidos tiveram a ideia de esconder a tempo os manuscritos numa das grutas da montanha.

Depois de vermos o filme, aliás muito interessante, partimos para a visita à estação arqueológica. O guia Sebastião acompanhou-nos, dando algumas explicações. Mas foi pena que não tivéssemos tido um guia local com saber e experiência, para nos explicar melhor a importante documentação arqueológica que ali está sendo descoberta. Mesmo assim não nos podemos queixar muito, porque no local há cartazes explicativos. E como houve o filme...

O passeio debaixo de um sol ardente e pela hora do calor não deixou muita margem para vermos tudo com cuidado. As fotografias que tirámos são agora muito úteis para, a posteriori, revermos esse histórico local.

 
 
O parque de Qumran visto da montanha.
(Fotografia informativa em exposição no local)
 
A comunidade seguia uma vida monástica com uma regra própria, austera, cegamente obedecida.
 
 
"A refeição comunitária era o acontecimento central na vida diária da comunidade YAHAD. Ao meio dia, os membros suspendiam o trabalho, lavavam-se no banho ritual e juntavam-se no refeitório. Um ambiente de santidade envolvia o local, que também era usado como sala de reuniões. Era servida a cada membro uma modesta porção de pão e de alimento cozinhado. A refeição era presidida por um sacerdote. Depois de este abençoar a comida e os presentes, a refeição decorria em silêncio. No local foram localizados os vestidos de uma sala larga e comprida - provavelmente o refeitório e a sala de reuniões. Numa despensa próxima foram encontradas centenas de tigelas impecavelmente arrumadas em pilhas e vários utensílios de mesa e de cozinha."

  
 
 
 
 
"Toda a congregação deve ocupar um terço de cada noite do ano na leitura do Livro e nos estudo da lei, abençoando-se mutuamente." (Regra n.º VI, 7-8).
 Os membros da comunidade de Qumran preocupavam-se com o estudo dos livros da Bíblia. Centenas de lucernas de barro foram encontradas nesta sala, o que valida a suposição de que a mesma fosse usada para a leitura e o estudo noturnos."
 
 
 "Nesta sala foram descobertos bancos e mesas feitos de tijolos ligados com massa de gesso. Também foram encontrados três tinteiros em metal e barro, o que comprova o facto de que os escribas que copiaram os manuscritos se sentavam aqui. Quando o exército romano se aproximava de QumRan, no ano 68 d.c., os escribas colocaram os manuscritos em potes de barro e foram-nos esconder nas grutas da montanha próxima de Qumran."
 
  "Eles deviam comer em comum, rezar em comum e deliberar em comum. E quando a mesa estava preparada para a refeição e o novo vinho servido, o sacerdote que presidia era o primeiro a estender o braço para abençoar e provar o pão e o vinho. (Regra comunitária VI, 2-5).
 Os membros da comunidade reuniam-se nesta sala para as refeições e para as deliberações doutrinais."
 
 
 
"O banho ritual. As piscinas para o banho ritual tinham uma separação entre as escadas descendentes, os que desciam estavam em estado impuro, e as ascendentes, os que subiam já estavam purificados, para evitar o contacto entre eles. De notar as rachas nas escadas provocadas por um terramoto ocorrido no ano 31 a.c."
 
 
   
 
 
Lá em cima, a meio da montanha, há um numeroso grupo de pessoas que visitam as grutas onde foram encontrados os potes com os manuscritos.
 
Nós não iremos lá pois seriam precisas mais duas horas. E também uma ou duas garrafas de água suplementar.

Visitada a estação, foi indispensável fazer uma pequena paragem para descansar. Uma vez recuperadas as forças seguimos para o almoço.

 
A sala de jantar do restaurante é ampla, mas com pé alto relativamente baixo, o que a torna bastante barulhenta. Acomoda muita gente ao mesmo tempo e as refeições são servidas segundo o tipo de cantina de empresa, com tabuleiros e tudo.


Num ambiente assim, não foi possível o grupo ficar junto, pois as pessoas iam-se sentando onde viam um lugar livre.

A saída do restaurante dá diretamente para uma loja de recordações. Alguns companheiros aproveitaram para fazer compras e outros para ver os artigos expostos. Eu passei mais depressa e aproveitei para, no parque de estacionamento dos autocarros, fazer a minha atualização em relação ao correio e às notícias de Portugal e do mundo. Durante a viagem verifiquei que isso é possível, pois a maioria dos autocarros já tem internet, e há sempre um ou outro com a rede completamente livre.